Se no ano passado a Expointer, uma das maiores feiras agropecuárias da América Latina, havia sido marcada pelo discurso de recuperação do Rio Grande do Sul após as enchentes que arrasaram boa parte do território gaúcho em maio de 2024, desta vez a tônica é de construção do futuro – ainda que o presente imponha vários desafios aos produtores locais.
“Nosso futuro tem raízes fortes e é nelas que buscamos a energia para transformar o presente com coragem, inovação e trabalho”, afirmou o governador Eduardo Leite, ao lançar a 48ª edição da feira, que será realizada no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio (RS), entre este sábado, 30 de agosto, e o feriado do dia 7 de setembro.
Se, por um lado o governo propõe um futuro próspero como forma de estimular o setor produtivo, a realidade atual é bastante desafiadora para os produtores gaúchos.
Isso porque o estado vem registrando, nos últimos anos, quebras sucessivas na safras de soja, principal cultura de verão, que se repetiu mais uma vez na safra 2024/2025, com uma produção 27,4% em relação à temporada anterior, chegando a 13,2 milhões de toneladas, e produtividade 38,4% menor ao que era esperado antes do começo da safra, segundo estimativas da Emater-RS em maio passado.
Como era de se esperar, um dos temas que deve atravessar a Expointer, para além das vendas de máquinas agrícolas, dos leilões, das exposições de gado e da ampla programação de eventos, é o endividamento crescente dos produtores gaúchos.
"A Expointer será palco não apenas para negócios. Sempre temos discussões importantes na Expointer, republicanas, mas não menos incisivas na defesa do direito aos produtores rurais", disse Leite em um evento em Brasília no começo de agosto.
Após sucessivas quebras de safra nos últimos anos, os produtores gaúchos somam perdas que já somam R$ 106 bilhões entre 2020 e 2024.
As dívidas com vencimento neste ano devem chegar à R$ 27,7 bilhões, um valor expressivo por si só. Mas o montante total de débitos dos agricultores gaúchos, considerando aqueles com vencimento em diferentes anos, é ainda maior, chegando a R$ 72,8 bilhões, de acordo com a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
Com a escalada dos débitos, no fim de maio, o governo federal anunciou que iria prorrogar o prazo de pagamento de financiamentos para custeio e investimentos firmadas por agricultores gaúchos utilizando os recursos equializados do Plano Safra.
A decisão foi divulgada em resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), de nº 5.220, de 29 de maio. Nas operações de custeio do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), a prorrogação foi de até três anos. Já nas linhas de investimentos, o prazo para pagamento foi esticado em 12 meses. As linhas do Pronaf já permitiam renegociação.
As medidas, no entanto, foram consideradas insuficientes pelos produtores gaúchos, entidades representativas e pelo governo gaúcho.
"O produtor rural vem se submetendo ao imponderável do clima e no Rio Grande do Sul o clima tem sido um desafio. Ninguém está pedindo perdão ou que deixe de pagar, apenas condição para fazer o pagamento daquilo que por conta de sucessivos eventos climáticos", disse Leite.
Ainda assim, mesmo com as dificuldades dos produtores, a expectativa do governo gaúcho é de que os negócios firmados na feira movimentem mais de R$ 8 bilhões – no ano passado, foram R$ 8,1 bilhões. O público esperado no evento, que terá 2,5 mil expositores e participação de 6,6 mil animais, é de mais de 600 mil visitantes.
Como de praxe, produtoras de máquinas agrícolas marcam presença na Expointer. É o da John Deere, que vai levar a recém-lançada colheitadeira S7 para o evento, da gaúcha Stara, que acaba de anunciar que vai embarcar a rede Starlink, da SpaceX, do bilionário Elon Musk, às suas máquinas a partir do primerio semestre de 2026, e da marca Valtra, da AGCO, que vai apresentar a recém-lançada série S6, que é a linha de tratores de maior potência já produzida pela marca.
Sendo uma feira com forte caráter pecuário, também estão presentes empresas de saúde animal.
É o caso da Boehringer Ingelheim, que vai trazer um suplemento de cálcio recém-lançado, o Bovikalc, destinado a vacas leiteiras. Outra empresa que também marca presença é a Elanco, que deve apresentar no evento o programa Eficiência Positiva+, que apoia o produtor na adoção de tecnologias que aumentam a produtividade e a rentabilidade do negócio.
Com os produtores também precisando de crédito, instituições financeiras também estarão presentes, caso do Banrisul, banco público gaúcho, que vai levar mais de 100 colaboradores para o evento, e do Sicredi, que terá 80 funcionários vindos de diferentes partes do Rio Grande do Sul especialmente para o evento.
Resumo
- A 48ª edição da Expointer aposta no discurso de construção do futuro do estado, apesar dos desafios do presente impostos aos produtores rurais gaúchos
- Endividamento crescente dos agricultores locais deve permear debates e discussões do evento, como já antecipou o governador gaúcho, Eduardo Leite
- Expectativa de organizadores é de que feira movimente mais de R$ 8 bilhões em negócios e receba público superior a 600 mil pessoas