Já é um clássico de terror o dia 1 de janeiro nas praias do Brasil. Do Oiapoque ao Chuí, recebemos as imagens e estatísticas da quantidade de lixo e porcarias diversas deixadas para trás.
Infelizmente, o que se abandona não está relacionado a emoções, problemas ou sentimentos que devem ficar no passado. O que se deixa é uma pegada material, visível e fétida, do comportamento humano inconsciente e ainda bruto, no que tange ao entendimento da sua responsabilidade individual com cada quilo de material, seja ele qual for, deixado como um DNA de incivilidade coletiva.
O que me impressiona é que ano após ano, vemos as cenas e, ao que parece, já fazem parte da paisagem.
Abrimos o que seriam os jornais de antigamente e as fotos lá estão. Basta mudar o ano e a tonelagem, que será maior que a do ano anterior, que a matéria está feita. Sem perda de tempo e de forma lamentável.
Ao passar pelo teste de "Fato ou Fake?", infelizmente será Fato. É real e um grande indicador que ainda estamos muito longe de onde deveríamos estar.
O fato é que independe da geografia ou da praia. Os exemplos de inconsciência coletiva vêm desde o maior Réveillon do planeta, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) , passando por Florianópolis (SC) , Recife (PE) , Canoas (RS) , Santos e Praia Grande (SP).
Os volumes de resíduos coletados podem variar das mais de 1.000 toneladas coletadas no Rio a volumes menores, mas igualmente aterradores, nas demais cidades.
Ano novo, cena antiga
“Enquanto o sol nasce no primeiro dia do ano, o que vemos nas praias brasileiras não é esperança de um novo comportamento, é resíduo que vem do passado.”
Não é falta de estrutura. É excesso de ego
Sempre poderemos criticar o poder público pela falta de coletores ou locais para depositar o resíduo individual gerado por cada um. Mas mesmo onde as prefeituras fizeram um bom trabalho, os resíduos deixados fora destes locais foi muito maior que os contidos nos locais apropriados.
Isso me faz pensar que o grande problema não está no aparato público para coleta e sim no egocentrismo de cada um que vai a comemoração publica da passagem de ano.
Nas cidades onde havia mais lixeiras, onde houve campanhas públicas e equipes de limpeza, o comportamento foi similar. Ainda assim, o lixo foi deixado no chão, na areia, no mar.
A cada um dos participantes dos festejos de fim de ano - claro, com exceções -, o que importa é tirar o máximo de prazer individual ou compartilhado com outros, mas sem pensar na externalidade que isso ocasionará. Portanto, se para o meu prazer tiver que emporcalhar a praia ou qualquer outro lugar, claro que o farei.
Esse egocentrismo é justificado com frases como:
• “Eu pago imposto”
• “Alguém vai limpar”
• “Só hoje”
• “Não faz diferença”
Por isso a meu ver, o problema não é logístico. É moral, cultural e comportamental.
O que muda da realidade que vivemos no dia a dia é a concentração de milhões de pessoas num mesmo local e em curto espaço de tempo. O excesso de ego transformado em desastre ambiental.
O espaço público como terra de ninguém
Uma equação desastrosa de egocentrismo somado a que o espaço público seja uma terra de ninguém, mais falta de educação e ética e nenhuma repressão ou punição para os infratores, leva ao caos que presenciamos ano após ano.
É interessante observar que, provavelmente, os participantes nas festas populares tenham comportamentos diferentes quando no convívio caseiro ou de suas agremiações como trabalho, igreja, clube e outros. Me custa a crer que em outros espaços sociais esse mesmo participante tenha o comportamento que apresenta quando está em uma praia pública.
Precisamos aprofundar esse tema para entender a raiz do problema. Seria porque:
• O bem público é visto como algo que “não é de ninguém”;
• Aflora a ausência do senso de pertencimento;
• É simples a transferência de responsabilidade para o Estado ou para “o outro”;
• Só vou estar aqui hoje”.
Me vem a máxima: “Cuidamos da nossa casa, mas sujamos a casa comum.”
A ausência de preocupação ou zelo com os espaços públicos a meu ver é muito grave porque pode passar o mesmo em hospitais, escolas, praças públicas, teatros etc..
Portanto, normalizar o que vemos a cada Réveillon é sepultar a possibilidade de convivência em espaços públicos onde cada um deve entender o seu grau de responsabilidade no uso e conservação.
Seguir como expectadores, sem tomar nenhuma ação, garantirá que o próximo ano será com certeza pior do que passou.
Educação: não como promessa distante, mas como decisão contínua
Como parte do comportamento egocentrista que mencionei, vejo a educação ou falta dela nos estágios iniciais de nossa formação cidadã comouma das causas principais do horror que vemos nas praias a cada entrada de ano.
A educação ambiental e, mais especificamente, de como lidar com os resíduos gerados, desde a escola primária, deve ser encarada como parte obrigatória da formação de qualquer cidadão.
Entender que somos parte do problema e da solução, quanto mais cedo melhor.
Claro que não podemos esperar que a educação proposta resolva os problemas de resíduos do próximo ano, mas quanto mais atrasarmos o processo, mais tempo levaremos para limpar o nosso modelo mental arcaico e baseado no egocentrismo.
Modelos de sucesso vêm do Japão, onde desde cedo:
• Crianças limpam a própria escola;
• Não há terceirização do cuidado.
Como resultado, temos adultos que nos vêm ensinar a limpar estádios de futebol espontaneamente quando a partida termina. Limpam inclusive o que não sujaram, mostrando o comportamento de que o todo importa mais que o individual.
A responsabilidade da limpeza e ordem está impregnada no seu DNA comportamental.
No nosso caso levará gerações e, por isso, não podemos ficar esperando que se passem os anos sem uma ação enérgica de mudança.
É claro que não poderemos esperar gerações para poder comemorar passagens de ano sem estar imersos na imundice que vemos atualmente.
Portanto, necessitamos urgentemente trabalhar a educação e políticas de convívio social ligas a gestão de resíduos.
Educação + regras claras para o convívio social devem nos guiar a outro patamar civilizatório.
É possível? Claro que sim. Vejo com olhos maravilhados o crescimento de escolas “lixo zero” e do conceito de escolas verdes, promovido pela própria Unesco. Sem dúvida alguma aqui está um dos caminhos para a solução.
2026 como ponto de não retorno (e não como milagre)
Há algum tempo, passei a considerar eventos muito fortes como desafios que nos são apresentados para que tomemos decisões importantes para a sociedade e para o Planeta.
Portanto, utilizamos 2026:
• como ponto de partida, não de chegada;
• não como uma virada mágica, mas uma decisão coletiva de mudança;
• algo que, se iniciado agora, não deveria mais retroceder.
Lendo as várias reportagens sobre este assunto, observei que já temos indicadores simples e confiáveis que podem servir para monitorar o sucesso das ações preventivas para 2027.
Várias empresas de coleta de lixo urbano e que fazem a coleta no Réveillon utilizam um indicador simples: Lixo descartado corretamente versus lixo recolhido no chão/fora das lixeiras.
Não precisamos inventar a roda ou mudar procedimentos já usuais para aferir as ações que podemos tomar a partir de agora.
Esse indicador já é medido, é simples, é comparável ano a ano e comunica comportamento, não só volume.
Nas cidades onde o volume de lixo descartado corretamente foi maior, o tempo de limpeza das praias foi menor.
Onde estão os profissionais de sustentabilidade?
Deveríamos estar muito indignados, para não usar palavras inapropriadas no artigo. Como podemos estar falando em redução do desmatamento, redução das emissões de gases de efeito estufa, COP30 etc., se ainda não damos conta do lixo do Reveillon?
O que os nossos olhos veem é a falência do mais básico do básico. Como sociedade, mal passamos do Ensino Fundamental e saímos reprovados.
Urge que façamos algo!!!!
Por que falamos tanto de métricas complexas e ignoramos comportamentos básicos?
Por que a indignação não é proporcional ao problema?
Onde está o ativismo ético dos profissionais que dizem trabalhar pelo bem comum?
Cada lixo gerado tem uma marca por trás dele. Como podemos usar o poder das marcas para educar? Como podemos usar o poder dos votos para exigir ações mais preventivas dos nossos governantes?
As consequências não são abstratas
Tudo o que tratamos até aqui está no campo do visível. Mas há outra dimensão tão importante quanto essa: a invisível.
O lixo deixado nas praias após o Réveillon vai muito além da sujeira na areia. Ele desencadeia impactos reais, silenciosos e cumulativos sobre a vida marinha, o ambiente e a saúde humana.
Após as festas, resíduos como copos plásticos, garrafas, embalagens, bitucas de cigarro e restos de alimentos permanecem espalhados pela areia e próximos à água. Esse material cria um ambiente propício à proliferação de microrganismos patogênicos, bactérias, fungos e vírus.
Restos de comida e lixo atraem vetores de doenças, como ratos, baratas e moscas, transmissores de infecções. Objetos cortantes, como vidro quebrado e latas, aumentam significativamente o risco de acidentes, especialmente para crianças, idosos e trabalhadores da limpeza urbana. Ferimentos em contato com areia ou água contaminada ampliam as chances de infecção.
Plásticos deixados na praia não desaparecem. Eles se fragmentam em partículas microscópicas, os microplásticos que permanecem no ambiente por décadas.
Essas partículas são ingeridas por peixes, crustáceos e moluscos, entrando diretamente na cadeia alimentar. Em algum momento, retornam ao ser humano por meio do consumo de frutos do mar.
Estudos já associam a presença de microplásticos no organismo a processos inflamatórios, desequilíbrios hormonais e impactos no sistema imunológico.
O descarte inadequado de resíduos ameaça diretamente a vida marinha. Muitos animais confundem plásticos com alimento, o que pode causar asfixia, intoxicação e morte.
Aves marinhas, tartarugas e peixes estão entre as espécies mais afetadas. Além disso, resíduos provenientes de fogos de artifício liberam substâncias químicas que contaminam o solo e a água, comprometendo processos ecológicos naturais e reduzindo a biodiversidade local.
Não se trata de um simples resíduo. Trata-se de um rastro.
“O que deixamos na praia não fica na praia: contamina o ambiente, entra na cadeia alimentar, ameaça a vida marinha e representa riscos reais para a nossa saúde.”
As perguntas que precisamos nos fazer
Ano após ano estamos vivenciando a mesma situação e com um agravante, ela está piorando. Devemos cruzar os braços e delegar as ações e torcer que passem a ter sucesso oi podemos ser parte da solução perguntando a nós mesmos:
• Onde estamos falhando?
• Na educação?
• No exemplo?
• Na cobrança?
• Na empatia?
• Ou na ideia de que liberdade é fazer tudo o que se quer, sem considerar o impacto?
De minha parte, vou investir mais tempo para transformar escolas em centros de educação para uma nova economia circular. Que desde cedo as crianças tenham educação de qualidade sobre o tema e transformem suas escolas em centros de lixo zero.
Para os adultos, formação nas empresas para que se tornem lixo zero e atuem na disseminação com seus consumidores.
E você? Vamos juntos?
Leonardo Lima é socio da Dreams & Purpose Consulting