Dono de um faturamento de R$ 46 bilhões somente em 2024, o Grupo Energisa é um dos maiores conglomerados do setor elétrico do Brasil, agregando concessões de distribuição de energia elétrica em diferentes regiões do Brasil, além de atuar também na geração e comercialização de energia elétrica e serviços correlatos.
Nos últimos anos, porém, a Energisa decidiu avançar em um novo movimento de mercado: o biometano, versão mais “nobre” do biogás, que vem ganhando espaço por suas múltiplas aplicações, podendo ser substituto do gás natural fóssil na indústria e também do diesel em veículos pesados como caminhões.
Um ponto particular da estratégia da Energisa é a integração entre a produção de biometano e de biofertilizantes.
Para isso, a companhia vem investindo pelo menos R$ 180 milhões na aquisição e ampliação de indústrias de tratamento de resíduos agrícolas nos últimos anos, com o objetivo de utilizar esses materiais como matéria-prima para a produção de biogás e biometano e, ao mesmo tempo, também fabricar biofertilizantes, gerando receita adicional.
“Trabalhar com energia renovável sempre esteve no DNA da Energisa. E biogás e biometano conversam com a estratégia da companhia”, resume Luiz Fernando Tomasini, diretor de negócios em biogás da Energisa, em entrevista ao AgFeed.
Assim, a Energisa está se inserindo em um mercado que deve crescer consideravelmente nos próximos anos.
Hoje, a capacidade total instalada de biometano no País é de 800 mil metros cúbicos por dia, de acordo com a Associação Brasileira do Biogás e Biometano (Abiogás).
Mas com a grande quantidade de projetos de produção de biometano no papel ou já entrando em operação, a entidade projeta que o Brasil atinja uma produção de 8 milhões de metros cúbicos por dia até 2032.
A Energisa começou a dar seus primeiros passos no biometano em meados de 2023. E a investida veio depois de um movimento inicial da companhia no mercado de gás natural, com a compra da empresa ES Gás a partir do leilão de privatização da companhia capixaba, também em 2023, conta Tomasini.
“Gás natural e biometano conversam muito. Até porque, no fim, a molécula do biometano é a mesma molécula do gás natural, mas é produzida através de processamento de biomassa e dentro de um processo onde ela está descarbonizando”, diz Tomasini.
“Também vemos a oportunidade de chegar a empresas que querem limpar suas matrizes energéticas ou que já consomem gás natural, mas que querem adicionar o biometano ou ainda substituir o gás natural pelo biometano”, afirma o executivo. “A Energisa entra dentro dessa conformação, oferecendo os dois produtos, e linkando essas duas fontes energéticas.”
A Energisa, contudo, seguiu caminho próprio no biometano, se diferenciando de outras grandes empresas que apostaram na versão mais “pura” do biogás.
Isso porque companhias do setor sucroenergético, como Raízen e Cocal, vêm produzindo biometano em unidades no interior de São Paulo nos últimos anos a partir de resíduos da produção de cana-de-açúcar, como vinhaça e torta de filtro.
Já a Energisa resolveu seguir caminho diferente ao focar na obtenção de biometano a partir de biogás oriundo do tratamento de resíduos agrícolas, como lodos das indústrias de frangos e suínos, predominantes na região, e laticínios.
“Começamos a olhar oportunidades de mercado para produzir biometano e vimos, por exemplo, os aterros sanitários já em avanço de negócios e players estabelecidos. Também analisamos o setor de etanol e açúcar, que havia começado antes e também com players mais bem definidos”, afirma Tomasini. “Vimos, então, uma oportunidade no tratamento de resíduos", emenda.
A Energisa comprou, então, a Agric, com sede em Campos Novos (SC), por R$ 53,5 milhões em agosto de 2023. A companhia catarinense trabalhava basicamente com compostagem de resíduos agroindustriais e transformação desses resíduos em biofertilizantes.
"Ela fazia um processo muito básico que é, basicamente, juntar os lodos do tratamento de resíduos e fazer um processamento com máquina, gerando um biofertilizante de forma básica", recorda Tomasini.
"A gente entendeu, no entanto, que a Agric era uma plataforma para desenvolvermos um projeto muito maior, com investimentos e tecnologia para fazermos o processamento.”
A Energisa passou a investir, a partir de então, R$ 80 milhões para qualificar a capacidade de produção da indústria de biofertilizantes e também inserir plantas de biogás e biometano na unidade.
Localizada no Oeste catarinense, polo de produção de aves e suínos no Brasil, a usina é licenciada para receber até 400 toneladas de resíduos agroindustriais por dia.
Com a decomposição anaeróbica dos resíduos, a companhia gera biogás. Do biogás, por sua vez, a empresa obtém o biometano, uma versão “purificada” do biogás a partir da remoção de impurezas, como o CO2.
Com isso, o combustível ganha menor impacto ambiental e pode ser utilizado como substituto do gás natural em diferentes aplicações.
Já o biogás que não é destinado à purificação para biometano também é aproveitado pela companhia, sendo utilizado na cogeração de energia elétrica.
Em paralelo, o tratamento dos resíduos também permite a produção de biofertilizantes.
A operação já funciona a pleno vapor na unidade de Campos Novos. No ano passado, foram produzidas cerca de 40 mil toneladas do produto no local e, para este ano, a expectativa é elevar o volume para 50 mil toneladas.
Os biofertilizantes já vêm, inclusive, sendo comercializado diretamente pela Energisa a produtores de diferentes culturas de grãos, frutas, hortaliças e pastagens. Recentemente, o produto ganhou uma nova marca, chamada E-bio Solum
“A gente entendeu que é hoje parte do nosso negócio vender produtos. Então, temos vendas, comercialização direta e também estamos ampliando a rede de representantes”, diz Tomazini.
Em paralelo, a unidade também já vem produzindo biogás, em fase de rampagem, e, recentemente, recebeu autorizações de produção de biometano e também de energia elétrica.
A unidade tem capacidade de produzir 28 mil metros cúbicos de biometano ao dia. As primeiras produções de biometano inclusive já foram feitas, segundo Tomasini, ainda que respeitando o processo de rampagem da produção do biogás.
Isso porque o processo produtivo do biogás exige um progresso paulatino, explica o executivo.
“Temos uma rampa de produção e queremos atingir essa rampa no período de pico até metade do ano. Estamos na metade da produção de biogás, mas é um processo bacteriológico em que a gente tem que respeitar os tempos. Se a gente acelera, vira uma panela de vinagre”, diz.
Depois de validar o modelo de negócios em Santa Catarina, a Energisa fez um segundo investimento, também na região Sul, em novembro do ano passado, ao adquirir 52% da Lurean, empresa de Carambeí (PR) focada em tratamento de resíduos e comercialização de adubos orgânicos.
Carambeí é o município-sede da Frísia, uma das maiores cooperativas agroindustriais do Paraná. "Assim como Campos Novos, Carambeí está em uma região super agrícola do Paraná, com muita demanda por tratamento de resíduos, biometano e fertilizantes", diz.
No mercado há 12 anos, a Lurean já produzia biofertilizantes utilizando resíduos da produção avícola como cama de aviário, entre outros itens. "É uma empresa que já está operacional na parte de biofertilizantes e que vamos estar ampliando sua capacidade de produção e melhorando processo para melhorar o produto", conta Tomasini.
O investimento na unidade é estimado pela Energisa em R$ 100 milhões e envolve a construção de uma usina de biometano em conjunto com a operação já existe de tratamento de resíduos orgânicos, com capacidade de produção de 28 mil metros cúbicos ao dia do biometano e de 50 mil toneladas de biofertilizantes.
A companhia projeta que sua entrada em operação comercial se dê no primeiro trimestre de 2028.
"Em algum momento do ano que vem, vamos encaixar a usina de biogás e biometano no processo produtivo do biofertilizante", diz.
A vantagem da usina de Carambeí em relação à usina de Campos Novos é que a unidade está próxima de um gasoduto, a 140 quilômetros de distância.
“O biometano produzido vai estar sendo injetado em tempo real dentro do gasoduto da companhia distribuidora do Paraná”, explica Tomasini.
Já o transporte do biometano que sai da usina de Santa Catarina precisa ser feito por via rodoviária, utilizando caminhões, já que não há gasodutos disponíveis na região.
Entre os mercados potenciais para o biometano, a companhia enxerga oportunidades principalmente na indústria.
Segundo Tomasini, muitas empresas em nível global já buscam moléculas de energia de menor pegada de carbono para avançar em suas estratégias de descarbonização.
Mesmo sem uma regulamentação consolidada do mercado de carbono no Brasil, o executivo lembra que essa demanda tem sido puxada sobretudo por multinacionais que possuem metas globais de neutralidade climática e começam a replicar esses compromissos no País.
Outro segmento visto como promissor é o transporte rodoviário pesado. No caso da unidade de Campos Novos, Tomasini diz que a localização estratégica – no trajeto entre regiões produtoras de proteína animal e os portos de exportação – abre espaço para o uso do biometano no abastecimento de caminhões.
Para o futuro, a Energisa não descarta novas possibilidades no mercado de resíduos agrícolas e biometano, ainda que Tomazini seja econômico nos detalhes do que exatamente virá no futuro.
“Temos um portfólio e estamos olhando outras oportunidades para desenvolver novos negócios, mas hoje, oficialmente, são nessas duas operações do Paraná e Santa Catariana que a gente vêm trabalhando”, afirma.
Resumo
- O Grupo Energisa, que faturou R$ 46 bilhões em 2024, está expandindo sua atuação em energia renovável com investimentos em biometano, obtido a partir do biogás
- Estratégia da companhia combina produção de biometano e biofertilizantes a partir de resíduos agroindustriais
- Projetos da empresa em unidades nos estados de SC e PR somam investimentos próximos de R$ 180 milhões