De alguns anos para cá virou corriqueiro o anúncio de que uma nova usina de etanol de milho será construída em algum polo do Centro-Oeste, do Matopiba ou até mesmo no Sul do País. O que era uma aposta marginal se transformou em um dos grandes novos ciclos do agronegócio brasileiro e, ao final de 2025, eram 29 usinas de etanol de milho em operação e outras 16 em construção.

Passado o boom e um estabelecimento desse mercado, os olhares agora estão para o futuro: consumo, novos mercados como SAF e combustível marítimo e os gargalos dessa cadeia, como biomassa.

Um estudo da L.E.K. Consulting, compartilhado em primeira mão com o AgFeed, projetou que a participação do etanol no consumo total de milho no país pode se aproximar de 30% até 2030, um salto relevante para uma cadeia que, há pouco mais de uma década, praticamente não existia.

No mesmo horizonte, a produção total de biocombustíveis no Brasil deve atingir cerca de 30 bilhões de litros, sendo quase um terço proveniente do milho.

A consultoria estima que hoje, cerca de 70% da produção de milho já é consumida internamente, com a ração animal ainda sendo o destino dominante. O etanol do cereal, por outro lado, é o que mais cresce.

“Quando a gente olha para o futuro das commodities, principalmente soja e milho, a discussão inevitavelmente passa por para onde essa produção vai”, afirma Eric Emiliano, sócio da L.E.K. Consulting responsável pela área de Agronegócio na América Latina.

Ele relembra que o crescimento acelerado do milho safrinha (que já é chamada de segunda safra), sobretudo no Centro-Oeste, criou um excedente em regiões que, historicamente, não tinham demanda suficiente para absorver toda a produção. O resultado era conhecido: pressão sobre preços e maior dependência da exportação.

Foi nesse contexto que o etanol de milho ganhou espaço. “O etanol de milho surgiu como alternativa com uma safra que crescia em regiões sem tanta demanda. Isso acabava penalizando o preço do cereal porque não havia para quem vender a preços competitivos. As plantas surgiram no Cerrado justamente por esse contexto", disse o sócio.

Hoje as unidades estão concentradas no Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul - que correspondem por mais de 60% da produção nacional de milho do País.

As usinas passaram, então, a funcionar como um novo polo de demanda local, reduzindo a dependência de exportação, mitigando os problemas logísticos e de preços de frete.

Em estados como Mato Grosso, não é incomum que o milho seja negociado acima da paridade de exportação durante a colheita, refletindo a competição direta entre tradings e usinas, estima a LEK.

Esse efeito é potencializado por um elemento central da equação: os coprodutos como o DDG, utilizado como substituto do farelo de soja na alimentação animal e o óleo de cozinha.

Eric Emiliano relembra que essa característica diferencia o etanol de milho de seu principal "concorrente" doméstico, o etanol de cana.

Enquanto a cana opera em um modelo mais verticalizado e fechado, o milho está inserido em uma cadeia mais ampla, conectada a diferentes mercados e mais aberta à inovação, seja em biotecnologia ou em novos produtos.

“O milho teve ganhos muito expressivos nas últimas décadas e ainda tem perspectiva de continuar evoluindo. A cana, por outro lado, está mais estagnada”, diz.

E o que esperar do futuro? Do lado da demanda, há expectativa de crescimento consistente no consumo de biocombustíveis, impulsionado por políticas de descarbonização e pela busca global por alternativas ao petróleo.

Nisso entram o SAF (combustível sustentável de aviação), com rotas de produção baseadas no etanol, conhecidas como alcohol-to-jet, e também no combustível marítimo.

“Existe uma tendência clara de aumento da demanda por biocombustíveis. O quanto e quando isso vai acontecer pode variar, mas a direção é essa”, afirma Emiliano.

É nesse ponto que a discussão ganha um contorno mais amplo e sensível no velho debate food versus fuel.

Para o executivo, o avanço dos biocombustíveis deve aprofundar uma mudança gradual na destinação da produção agrícola global: cada vez mais soja e milho devem ser direcionados à energia, e não à alimentação. Segundo ele, a China é um grande impulsionador desse movimento.

"Existe uma dinâmica lá, que é o nosso principal comprador de soja e milho, de ser cada vez mais autossuficiente. Isso vai reequilibrar cadeias e a produção agrícola irá cada vez mais para biocombustíveis, com o etanol de milho muito forte nessa equação", afirmou.

Do lado da alimentação, os sinais são trocados. Enquanto há uma tendência de aumento no volume do consumo de proteína, da própria insegurança alimentar e do aumento populacional, ele cita que países desenvolvidos estão "estabilizando o consumo calórico".

Há, contudo, riscos pela frente para o mercado de etanol de milho. Primeiro, o mercado de etanol está sempre ligado a "canetadas" governamentais, para o bem quanto para o mal. Seja do lado da Petrobras que controla o preço da gasolina - que acaba ditando o preço do etanol - seja pelo Governo Federal aumentando o mix do biocombustível no combustível fóssil.

Do outro, um problema ainda pouco explorado: a biomassa. As usinas de etanol de milho utilizam como fonte energética subprodutos do setor florestal, como o cavaco.

Goiás e Mato Grosso não são estados com histórico de produção de eucalipto, o que pode criar um déficit conforme as usinas vão sendo construídas e entrando em operação. Como consequência, pode ampliar a pressão sobre desmatamento - com fornecimento vindo de madeira ilegal.

Em abril, o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) instaurou procedimentos, incluindo inquéritos e audiências públicas, para investigar e regular o uso de biomassa florestal, especialmente quando originada de desmatamento ilegal para abastecer indústrias, como as de etanol de milho.

Por lá, ainda há um descompasso regulatório: enquanto o Código Florestal de 2012 proíbe o uso de madeira nativa como biomassa (mesmo que proveniente de desmatamento legal), a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso autoriza esse uso desde 2022.

Nos cálculos do IMEA (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária), o consumo do milho para etanol estimado para o fim da década (30,2 milhões de toneladas), demandaria 436 mil hectares para que o biocombustível seja produzido. O número é mais que o dobro da área plantada no estado em 2024 segundo o instituto.

"Muitos dos projetos de usinas foram pensados sem olhar isso, numa ideia de 'depois a gente vê'. Esse é um grande desafio e risco, ainda sem muita solução", disse Eric Emiliano, da L.E.K. Consulting.

Resumo

  • Etanol de milho pode responder por 1/3 dos 30 bilhões de litros estimados de biocombustíveis produzidos no País até 2030
  • Com oferta em alta, demanda por biocombustíveis cresce com SAF e combustível marítimo no radar global
  • Contudo, expansão esbarra em gargalo de biomassa e risco ambiental com uso de madeira irregular