O boom do etanol de milho no Brasil segue forte, com a abertura de novas usinas, puxada principalmente pela gigante do setor, a Inpasa, considerada a maior da América Latina.

A empresa inaugurou no mês passado uma nova unidade em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, e está prestes a iniciar a produção em mais duas localidades – Rio Verde (GO) e Rondonópolis (MT).

Em entrevista ao AgFeed, o vice-presidente de Negócios de Originação da Inpasa, Flávio Peruzo Gonçalves, confirmou que a primeira fase da operação no Sudoeste Goiano começa em dezembro de 2026, com o processamento de “um milhão de toneladas equivalente ano de milho”.

A segunda linha de Rio Verde está prevista para fevereiro de 2027, com mais um milhão de toneladas de milho por ano. Quando as duas fases estiverem concluídas, a produção de etanol na unidade será de 950 milhões de litros.

“Em Rondonópolis o cronograma está para março e maio nesse mesmo intervalo, de 60 dias, entre as duas fases.  Então no final do primeiro semestre (de 2027) nós vamos ter uma planta em Rondonópolis full, do mesmo tamanho de Rio Verde”, revelou Gonçalves.

A “safra” na Inpasa, vai de junho a maio, já que a indústria de etanol de milho é basicamente atendida pela segunda safra de milho do País.

O VP da empresa prevê que, na safra 2026, o consumo de milho da companhia atinja 15,3 milhões de toneladas de milho. O volume é 30% superior ao ciclo passado.

Na safra 2027, a previsão é de um consumo de 18,5 milhões de toneladas de milho, ou seja, mais 25% de aumento.

Além das usinas recém inauguradas, a Inpasa está fazendo também ampliações nas já existentes. Em Nova Mutum (MT), por exemplo, a produção anual de etanol está sendo ampliada em 350 milhões de litros, com investimento superior a R$ 700 milhões. A unidade passa a ter capacidade total de cerca de 1,4 bilhão de litros de etanol por ano.

Os investimentos em Luís Eduardo Magalhães (BA), Rio Verde (GO) e Rondonópolis (MT) são de R$ 1,3 bilhão, R$ 2,4 bilhões e R$ 2,77 bilhões, respectivamente.

A expectativa é que a produção atual de 6,7 bilhões de litros seja ampliada para 8 bilhões de litros até 2027, quando a empresa espera já ter 10 biorrefinarias.

“Tirando o pé”

Apesar dos investimentos bilionários, o VP da Inpasa, Flávio Gonçalvez, fez uma avaliação cautelosa do atual cenário de mercado, na conversa com o AgFeed.

“A gente segue no ritmo de conclusão do nosso projeto, mas o mercado, naturalmente, segura um pouco, tira o pé, em especial por conta do custo do dinheiro. No geral, o setor segue otimista, com um potencial alto de grandes expansões, mas é natural que muitos projetos estejam sendo revistos, estão sendo suspensos, por conta de custo do dinheiro”, afirmou.

Ele não dá detalhes sobre quais seriam os projetos “suspensos”, mas garante que na Inpasa nada mudou em relação ao planejado. A única certeza na companhia, no momento, seria a decisão de não mais abrir novas usinas – depois da inauguração de Rondonópolis – se não houver fatos novos em relação à demanda do etanol e seus coprodutos.

“Quando você tem já uma tecnologia consolidada, projetos em marcha que dão suporte para esses novos, ajuda. Agora, quando você tem um projeto, um entrante que vai passar pela curva de aprendizado, que tange a tecnologia, isso custa para aprender e, no momento de juros, somado à instabilidade política, a instabilidade de crise mundial, então o pessoal naturalmente vai tirar o pé”, avaliou.

A visão do executivo é algo já descrito por muitos analistas. A Inpasa tem construído e colocado em operação uma nova usina de etanol no intervalo de pouco mais de um ano. É algo inviável para empresas ou cooperativas que nunca operaram no segmento e agora buscam entrar no mercado.

Além dos juros, Gonçalves ressalta que a grande preocupação é o cenário de aumento na produção nem sempre acompanhado pela elevação da demanda.

“Falando do etanol, especificamente, a preocupação é com liquidez, então a gente passa por um momento em que o mercado interno de ciclo Otto ainda tolera uma demanda maior, mas existe um limite”, ponderou.

Em artigo recente publicado no AgFeed, o especialista Clayton Melo alertou que o aumento natural da demanda tende a ser mais lento do que a expansão da capacidade industrial, especialmente porque o mercado de carros flex já estaria maduro. O setor estaria ainda muto dependente de novas políticas, como aumento da mistura obrigatória na gasolina, ou novos mercados, como os combustíveis sustentáveis, globalmente.

O executivo diz que a Inpasa tem contribuído para promover novas demandas ou “acordar demandas adormecidas”.

“A região Nordeste é um belo exemplo. A gente foi para uma região que eu tenho uma dificuldade um pouco maior na aquisição do meu insumo, da minha matéria-prima. Em contrapartida, eu tenho um mercado carente, que era importador de etanol anidro, e nem estou falando de etanol hidratado. Dois terços dos postos do Maranhão, por exemplo, nem têm bomba ou tanque para hidratado”, frisou.

A Inpasa inaugurou uma unidade em Balsas (MA) no ano passado, com investimentos de R$ 2,5 bilhões.

“A gente está lá contribuindo, sendo produtor na região Nordeste, contribuindo para que a gente consiga colocar essa demanda que não existia, deixar de ser importador de anidro e colocar hidratado nas bombas para os veículos”.

Golçalves também confia em oportunidades futuras, como o uso do etanol para produzir combustível marítimo, o SAF (combustível sustentável de aviação), além das máquinas agrícolas que vêm sendo adaptadas ao biocombustível.

“Uma vez que isso aconteça, a gente não sabe se isso vai acontecer em 5 ou 10 anos, eu acho que abre uma nova janela de uma demanda elástica e podem vir novos projetos com mais tranquilidade”, reforçou.

Enquanto isso, o momento é de “insegurança, instabilidade política, dinheiro muito caro e um cenário que você enxerga um limite para a demanda no mercado interno”, segundo ele.

Planos futuros

Qual seria o próximo destino da Inpasa depois de Rondonópolis? O executivo da Inpasa desconversa, diz que não há novas prospecções.

“A gente entende que o próximo passo depois desse (Rondonópolis) depende de abertura de novos mercados. Depende de fato de geração de novas demandas robustas, porque daí a gente entra num risco bastante relevante, o que a gente sempre fez e vai continuar fazendo cada vez com mais frequência, investimento, é a verticalização”.

Os sinais são de que a Inpasa, por ora, deve priorizar essa “verticalização”, que passa pela oferta de novos produtos.

Um dos destaques, lembrou Flavio, tem sido o chamado etanol neutro. É um produto especial usado na indústria farmacêutica e no setor de bebidas. Já são 600 mil metros cúbicos por dia e a maior parte tem como destino a exportação.

“A gente vem buscando agregar valor, verticalizar cada um dos nossos produtos, transformando em produtos de valor agregado, além de inovações tecnológicas dentro da indústria para você fazer mais com menos ou fazer de forma mais sustentável”.

Um dos esforços recentes tem sido reduzir a quantidade de biomassa necessária para produzir um litro de etanol. “A gente já reduziu mais de 30% nos últimos seis anos e estamos muito focados nisso”.

Outro mercado promissor, desde que a China começou a importar, é o DDG, um coproduto da produção de etanol de milho que funciona como ingrediente para ração animal com alta proteína.

A Inpasa produz um tipo específico que é o DDGS (Grãos Secos de Destilaria com Solúveis, na sigla em inglês) e já exporta 30% da produção.

“Já foram 5 navios para a China. Então esse ano a gente deve exportar mais ou menos 1 milhão e 100 mil toneladas de DDGS”, disse ele.

O volume, se confirmado, representa um acrescimento de quase 38% em relação ao que foi exportado na última safra.

Resumo

  • Vice-presidente de Negócios de Originação da Inpasa, Flávio Peruzo Gonçalves, avalia que alguns projetos de etanol de milho "estão tirando o pé" em função dos juros altos e preocupação com a demanda
  • Empresa confirma início das operações de uma nova usina em Rio Verde (GO) para dezembro de 2026, com processamento de 1 milhão de toneladas de milho
  • Exportações de DDGS da Inpasa devem atingir 1,1 milhão de toneladas em 2026, impulsionadas pela demanda chinesa