Reduzir burocracias sempre foi um desejo de quem faz negócio no Brasil. Mas em tempos de ajuste no agro, margem apertada e inadimplência em alta, uma outra demanda fala ainda mais alto: a segurança jurídica ao conceder o crédito, diminuindo riscos.
Essa “demanda reprimida” favoreceu a união de duas empresas que até então operavam de forma separada em suas soluções digitais.
De um lado, a Docket, especializada em inteligência e automação de processos para operações de crédito, que há alguns anos vinha tornando mais rápida a assinatura de contratos entre tradings, bancos, revendas e grandes grupos agrícolas.
De outro lado, está o braço de inteligência de dados, analytics e inteligência artificial da B3, que hoje opera sob a marca Trillia, para não confundir com as operações da bolsa. É uma prestação de serviços para diferentes setores da economia, incluindo o agronegócio, que tem como principal demanda o registro – hoje obrigatório – das CPRs (Cédulas de Produto Rural), títulos fundamentais, atualmente, para lastrear o financiamento do agronegócio via mercado de capitais.
O foco principal da Docket era a análise rápida de documentos, que permitia “ler uma CPR em 30 segundos”, como mostrou o AgFeed, há pouco mais de dois anos.
Entre os principais clientes da empresa estão Bunge, Cofco, Cargill, Inpasa, BTG Pactual e SLC Agrícola.
“Se você conversar com quem trabalha com crédito no agro, o registro era a parte que mais doía, por isso fomos provocados pelos nossos clientes. Nos pediram para desenvolver uma solução, porque também, além do registro, tem uma particularidade de você entender como cada registro de imóvel funciona, tem um desafio do cliente ter que ficar alternando entre plataformas”, explicou Pedro Roso, CEO e fundador da Docket, em entrevista exclusiva ao AgFeed.
Ele diz o cliente confeccionava a CPR em um lugar, pegava a documentação em outro, a análise de crédito vinha de outra fonte, e depois mandava para registro.
Nesta quarta-feira, 1 de julho, durante um evento no Cubo Itaú, em São Paulo (SP), Docket e Trillia apresentarão oficialmente ao mercado uma solução de parceria entre as duas empresas, para atender essa demanda de mais agilidade e simplicidade.
“A gente se juntou a eles para criar uma solução em conjunto dentro de uma única plataforma que o cliente emite e analisa todos os documentos, gera um dossiê da operação e automaticamente já consegue levar a CPR para registro dentro de uma única plataforma”, ressaltou Roso.
Atualmente, 93% das CPRs registradas no País são feitas pela própria B3, embora haja outras certificadoras atuando no mercado. A expectativa é seguir avançando em soluções para o agronegócio.
“A Docket já estava super consolidada no mercado agro. Foi uma convergência estratégica nesse sentido, tudo o que eles já fazem hoje no restante das soluções é para tirar essa burocracia e agilizar o processo de concessão. E a gente estava com essa última parte de registro, que é o que faltava a eles”, avaliou Daniel Takatohi, superintendente de produtos da Trillia, em conversa com o AgFeed.
O produto foi chamado de Registro Docket. “É como se a gente tivesse um white label ali por trás para fazer toda essa personalização. Para o cliente, no final, é como se ele estivesse fazendo para a Docket, end-to-end esse processo", explicou Takatohi.
Quando vai a registro, a Docket diz que também já consegue “antever” possíveis exigências, por meio da inteligência artificial. “Porque se eu transaciono muito num registro de imóvel, eu já sei o que é pré-requisito”, disse Roso.
O produtor também vai conseguir assinar o contrato por biometria caso ele queira, facilitando ainda mais o processo, segundo ele.
“Vamos pegar uma operação que levava só na parte de registro aproximadamente 15, 20 dias e conseguir fazer em 3 ou 4 dias”, afirmou.
Se considerado todo o processo, desde o início da obtenção da documentação até a conclusão do registro, a previsão é finalizar em 15 dias. "Estou falando de 50% de economia em relação ao tempo que leva hoje".
O plano da Docket é seguir investindo na tecnologia para ir acelerando mais o processo, chegar ao ponto de concluir todo o processo em um dia, ou até em segundos, como se fosse “um pix”, disse Roso, à medida que evoluir o processo junto aos cartórios e certificados digitais.
A parceria com a Trillia fortalece a operação do registro em cartório. Inicialmente, a solução atende CPR Física e CPR Financeira, permitindo que credores acompanhem em tempo real o status dos registros, respondam de forma estruturada às notas de exigência e tenham acesso centralizado aos documentos da operação.
A plataforma se integra a entidades como o ONR (Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis), RDT, CDT e as certificadoras B3 e CERC, responsáveis pelo registro e rastreabilidade das CPRs no Brasil.
RJs e alta inadimplência aumentam demanda
Na visão das duas empresas, o atual período do agro, marcado por margens pressionadas e aumento da inadimplência tem favorecido o aumento na demanda por ferramentas que garantam mais segurança a quem concede o crédito.
As soluções digitais de Docket e Trillia entrariam neste leque de oportunidades, principalmente agora, operando de forma unificada, no caso do registro da CPR.
“A formalização dessas garantias, ela é muito importante, porque é o que salva quem está dando crédito na hora que o produtor entra em RJ. Se ele não está com a CPR bem formalizada, a garantia bem construída, essa empresa provavelmente vai acabar não recebendo aquilo que é de direito dela”, alertou Roso.
Daniel Takatohi, da Trillia, concorda com esta visão.
“Os bancos que operam com CPR, eles acabam reportando para o Banco Central as informações, mas ela tem um delay, não tem a informação atualizada”, pontuou.
Ele se refere ao fato de que, no sistema do Banco Central, só é consideradaq inadimplente a operação com atraso superior a 180 dias. As demais ficariam no status chamado de “em regularização”.
“Os bancos aqui (na Trillia) conseguem ter a visibilidade de todas as operações que estão ativas, como é que é o status delas. Eventualmente, se está fazendo uma nova concessão de crédito para um produtor, por exemplo, que é avalista de uma outra operação e ele não tem essa visibilidade, a gente tem essa visibilidade", explicou.
Os dados mais recentes indicam que o mercado de CPR tem R$ 5,9 bilhões de crédito ativo, dos quais 14% estão inadimplentes por mais de 180 dias. Segundo Takatohi, há outros 5% que estão na chamada regularização, portanto, fora desse radar.
Roso, da Docket, diz que, se o registro não tiver sido bem feito, às vezes há um intervalo de tempo tão longo que permite a alguns realizar “manobras”, como a entrega de uma soja que já havia sido penhorada para outra pessoa em primeiro grau, causando dor de cabeça para quem concedeu o crédito, por exemplo.
“Eu acho que está todo mundo mais atento aos processos de formalização e obtenção de documento porque o setor está super pressionado”, reforçou.
Outro argumento para as empresas que utilizarem o sistema unifica é já contar com o ecossistema de dados para a safra seguinte.
“Eu consigo manter todo o histórico de registro, toda a parte de pós-registro, se foi honrado o acordo, se a CPR foi dada baixa, se não foi, como estava a certidão. O que a gente vê é que o produtor, você descobre que ele vai dar default pelo menos com 24 meses de antecedência. Só que a capacidade de observação disso é muito baixa”.
Neste contexto, embora a solução da Docket não inclua análise de crédito propriamente dita, a empresa tem argumentado que o uso destas informações pode ajudar a melhorar na hora de decidir pela liberação ou não do recurso, reduzindo riscos.
Até mesmo a parte de documentação, que antes as empresas deixavam com o produtor rural que ia tomar o crédito ou com o time comercial (no caso das multinacionais de agroquímicos, por exemplo), agora estariam migrando para soluções como a da Docket ou para áreas específicas, de compliance.
“Eles estão internalizando isso porque o nível de sensibilidade sobre a formalização e a análise da documentação está mais alto”, disse Roso.
Break even atingido
Desde que foi criada, em 2016, a Docket foi incorporando novos serviços de automatização e viu uma tendência de mais demanda entre os clientes do agronegócio.
Em 2023, 40% dos clientes eram ligados ao campo e os principais produtos eram análises de documentos, como a interpretação da matrícula do imóvel, que é utilizada como garantia nas CPRs.
Na sequência, o trabalho incorporou análise de certidão de penhor e alienação fiduciária. Agora, o ciclo ficaria completo com a conclusão do registro.
A startup atingiu o breakeven no ano passado, segundo o CEO, algo que deve se repetir em 2026, “com crescimento acima de dois dígitos”.
Ele não revela qual é a receita da empresa, mas diz que 75% do portfólio são as mais de 50 companhias clientes que atuam no agronegócio. O serviço serve não apenas para CPR e financiamento via barter, mas também para outras operações de crédito.
“O nosso volume de operações aumentou muito. A gente está processando entre 120 mil e 150 mil operações por mês”, contou Roso. O aumento no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025 é estimado em 50%.
Por enquanto, Pedro Roso garantiu ao AgFeed que não planeja novas captações de recursos no mercado. A última realizada foi em 2022, quando a Docket captou R$ 110 milhões.
“Acho que a gente fez a lição de casa como companhia que é focar no breakeven, agora continuar melhorando o nosso produto e crescendo dois dígitos por ano”, afirmou.
O acordo com a B3, ele espera, pode acelerar o crescimento em função de uma demanda “acima do esperado” que já estaria aparecendo pelo novo produto.
Resumo
- Empresa de automação de documentos, Docket, fechou parceria com a Trillia, área de dados da B3, para acelerar registro de CPRs
- Acordo poderá reduzir pela metade o tempo necessário para a conclusão de uma operação de crédito que envolva a emissão e registro de CPR física ou financeira
- Empresas avaliam que alta da inadimplência vem aumentando a demanda por processos mais seguros de documentação, que poderia reduzir riscos na concessão de crédito