O Itaú colocou na rua a oferta do maior Fiagro já lançado no país. O banco pretende captar até R$ 4,85 bilhões com o Itaúba Fiagro, fundo voltado ao financiamento do agronegócio que será distribuído em quatro séries, com prazos entre dois e cinco anos e remuneração projetada entre 91,5% a 93% do CDI.
A oferta começou nesta terça-feira, 5 de agosto, e os recursos serão destinados à aquisição de ativos de crédito ligados ao setor agropecuário.
O fundo, porém, foge do modelo tradicional dos Fiagros de crédito. Ao contrário da maioria dos fundos do tipo, que captam dinheiro dos investidores para depois buscar oportunidades no mercado, o Itaúba já nasce sabendo exatamente onde irá investir.
O fundo foi estruturado para comprar títulos ligados ao agronegócio - CRAs, LCAs e CPRs - que já foram originados, ou previamente indicados, por empresas do próprio grupo Itaú, como o Itaú Unibanco e o Itaú BBA Trading.
Na prática, o banco concede crédito ao produtor rural e, pouco tempo depois, vende essa carteira ao Fiagro. O dinheiro pago pelos investidores volta para o caixa do banco, que libera espaço para conceder novos financiamentos ao agronegócio.
O efeito é uma reciclagem do capital. O banco continua responsável pelo relacionamento com o produtor e pela cobrança dos créditos, enquanto os investidores passam a receber a remuneração gerada por essas operações.
O fundo oferece quatro opções de prazos e taxas, funcionando como uma escada: quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado, maior o juro alvo. O fundo é destinado a investidores qualificados.
A primeira série vence em dois anos e possui um retorno alvo de 91,5% do CDI, já a segunda vence em três anos com retorno de 92% do CDI. As duas últimas séries vencem em quatro e cinco anos, respectivamente, com retornos de 92,5% do CDI e 93% do CDI.
O Itaú informou que os rendimentos são pagos mensalmente, mas há uma carência de dois meses para o primeiro pagamento. Já o valor principal investido só volta para a mão do investidor de uma só vez, na data de vencimento de cada série - o que o mercado chama de "amortização bullet".
O fundo possui um sistema de cotas seniores, destinadas aos investidores, e cotas subordinadas pertencentes ao próprio banco. O Itaú se comprometeu a manter um patrimônio de, no mínimo, 4,5% do fundo nessas cotas subordinadas.
Na prática, se algum produtor deixar de pagar sua dívida, a primeira perda recai sobre essa fatia pertencente ao banco. Os cotistas seniores só começam a ser afetados se o prejuízo ultrapassar todo esse colchão de proteção.
Caso esse colchão caia abaixo de 3%, o banco tem apenas três dias úteis para colocar mais dinheiro e recompor a proteção.
Como o Itaú atua em praticamente todas as pontas da operação - originando parte dos créditos, administrando e gerindo o fundo - o modelo envolve um potencial conflito de interesses, reconhecido pelo próprio prospecto.
Para contornar essa situação, o regulamento exige autorização prévia dos investidores para que o Fiagro compre ativos vendidos por empresas do grupo. Na prática, essa aprovação já é dada pelo investidor no momento em que participa da oferta.
O lançamento dá sequência a uma estratégia que o Itaú começou a implementar neste ano com o Itaúba FIP, fundo voltado a investidores profissionais que também foi estruturado para adquirir ativos, só que de infraestrutura, originados pelo próprio banco. Nesse segmento a tese já está mais madura, e o Itaú soma quase R$ 40 bi em fundos de infraestrutura.
No Itaúba Fiagro, ainda há um outro elemento para atrair os investidores: um mecanismo de recompra em caso de inadimplência ou vencimento automático de algum título. O banco irá recomprar o ativo pelo saldo devedor.
Resumo
- Itaú pretende captar até R$ 4,85 bilhões com fundo que compra CRAs, LCAs e CPRs
- Fiagro foge do modelo tradicional ao nascer com ativos já originados pelo próprio ecossistema do banco
- Estrutura prevê cotas subordinadas do Itaú e recompra de créditos inadimplentes para proteger investidores