A consultoria MacroSector desenhou um cenário de 2026 marcado pela queda da receita total das lavouras e por uma relação de troca com fertilizantes que se deteriora em ritmo acelerado nas principais regiões produtoras, apesar de uma recuperação dos preços da principal cultura, a soja.

Segundo o relatório "Cenário econômico e agrícola para 2026-2027", assinado por Fabio Silveira e Guilherme Garcia, a receita agrícola brasileira deve cair 4,3% neste ano, para R$ 1,04 trilhão, puxada para baixo por culturas como o milho, que amarga queda de 8,3% na receita (R$ 159,7 bilhões).

As projeções levam em conta uma conjuntura macroeconômica desafiadora. A MacroSector projeta IPCA de 5,2% em 2026 — acima do teto da meta oficial, de 4,5% —, Selic em 14% ao ano no fim do ano e crescimento do PIB de apenas 1,7%, com desaceleração adicional em 2027 (1,3%).

No front internacional, o choque é o petróleo: o do tipo Brent deve subir 27,9% na média de 2026, para US$ 87 o barril, reflexo do conflito no Oriente Médio e da guerra envolvendo o Irã, um vetor que pressiona diretamente os custos de produção no campo, sobretudo fertilizantes e logística.

O relatório traz também o câmbio como vetor central para os preços agrícolas. A MacroSector projeta dólar médio de R$ 5,17 em 2026, queda de 7,5% sobre o ano anterior, e de R$ 5,33 em 2027.

Como soja e milho são commodities formadas em dólar nas bolsas internacionais e convertidas para reais no mercado doméstico, a apreciação do real comprime a conversão. Mesmo com índices externos de commodities subindo 25% em 2026, parte do ganho internacional se perde no câmbio.

É o que explica, na prática, por que a soja avança "apenas" 5% no preço doméstico apesar do ambiente externo positivo e por que o milho, com referência internacional mais fraca, sofre ainda mais na conversão.

O impacto cambial é menor em outro ponto crucial na compressão das margens do produtor. Mesmo com o dólar em queda, os fertilizantes subiram, porque são influenciados pelo choque de energia, que não se dilui no câmbio.

O relatório desenha, assim, uma espécie "pinça": preço do grão em reais contido pela valorização do real e custo de insumo pressionado pelo petróleo. Com isso, a relação de troca fica apertada dos dois lados.

A âncora da Soja

A soja é o destaque positivo do cenário. A MacroSector projeta receita de R$ 414,9 bilhões para a cultura em 2026, alta de 5,2% sobre o ano anterior, com preço médio doméstico de R$ 144,2 por saca de 60 kg, um avanço de 5% sobre o ano anterior.

O desempenho vem em um contexto de mercado mundial relativamente equilibrado, com estoques acompanhados de perto pela consultoria em dias de consumo e de safra brasileira que segue firme.

O problema, porém, está na conta do produtor. No Mato Grosso, maior estado produtor do País, a relação de troca entre soja e fertilizante registra "forte piora" para o agricultor entre setembro de 2025 e setembro de 2026.

O custo do fertilizante em reais por tonelada subiu em ritmo superior ao do preço da saca, o que significa que o sojicultor precisa entregar mais sacas para comprar a mesma quantidade de insumo.

Há um ano, essa relação estava em 20,57sacas por tonelada. Neste mês, atingiu 25,1 sacas.

O milho, por sua vez, é o lado mais vulnerável do cenário. A receita deve recuar 8,3%, para R$ 159,7 bilhões, com o preço médio doméstico em R$ 69,5 por saca de 60 kg, 3,5% abaixo ao ano anterior.

Segundo a MacroSector, essa redução é provocada, em boa medida, pelo declínio do dólar frente ao real. "Desse modo, a rentabilidade dos produtores de milho deve ser prejudicada", aponta o relatório.

No Paraná, a relação de troca entre milho e fertilizante também mostra "forte piora" para o produtor no período de setembro de 2025 a setembro de 2026. Nesse período, a quantidade de sacas necessárias para adquirir uma tonelada de fertilizantes saltou de 58,7 para 70.

A deterioração das relações de troca se repete em outras culturas. Na cana, na referência do estado de São Paulo, passou de 22,2 toneladas de cana por tonelada de fertilizante para 27,1 toneladas no mesmo período. No café, em Minas Gerais, a relação saltou de 1,13 para 1,85 sacas de 60 kg por tonelada de fertilizante.

Com isso, a previsão da consultoria é de uma queda de 10% nas vendas de fertilizantes no País, para 44,2 milhões de toneladas. No acumulado do ano, registrado até agosto passado, as importações brasileiras de adubos caíram 11%, com a alta dos preços médios ficando em 16%.

Para 2027, a consultoria projeta estabilidade na produção de grãos: alta de apenas 0,2%, para 356 milhões de toneladas, o que sugere um ciclo de oferta sem grandes expansões e, portanto, sem alívio estrutural de custos para quem planta.

Resumo

  • Receita agrícola brasileira deve recuar em 2026, em um cenário de câmbio desfavorável e custos de produção mais elevados
  • Soja se destaca entre as principais culturas, enquanto o milho enfrenta pressão sobre preços, receita e rentabilidade
  • Alta dos fertilizantes deteriora a relação de troca e reduz o poder de compra dos produtores em diferentes culturas