Em algum momento do próximo mandato presidencial o Brasil se tornará o maior exportador agrícola do mundo. A pergunta que a eleição do proximo domingo deveria responder, e não responde, é o que fazer com uma posição que não construímos e cuja base de sustentação não possuímos.

Os números da transição já estão dados. Em 2025 as exportações agrícolas americanas somaram US$ 171 bilhões e as brasileiras, US$ 169,2 bilhões. A diferença, que já foi de US$ 56 bilhões, caiu para menos de dois. A ultrapassagem virou questão de calendário.

O que estamos herdando não é o que os americanos tinham

A participação americana no mercado mundial de milho caiu de 68% duas décadas atrás para cerca de 30% hoje. A perda da soja tem data e causa, a retaliação chinesa às tarifas de 2018. A do milho é anterior e independe de tarifa.

A guerra comercial acelerou um declínio que já estava em curso. Isso importa porque a hegemonia americana nunca foi apenas participação de mercado. Ela se apoiava em uma base industrial própria de fertilizantes, defensivos, genética, máquinas e crédito. O poder vinha da cadeia inteira, não da tonelada embarcada.

A posição que o Brasil assume é de outra natureza. Nossa produção de grãos dobrou em treze anos, mas o custo por tonelada de soja quase dobrou entre 2020 e 2024, de US$ 172 para US$ 337, segundo a Universidade Purdue.

Mais de 60% desse custo é fertilizante e defensivo, e o Brasil importa mais de 85% do fertilizante que consome. Nos defensivos, entre janeiro e maio de 2026, 84% do glifosato e 100% do imazetapir importados vieram da China.

E há o dado que fecha o retrato: a margem da soja em Mato Grosso caiu para aproximadamente US$ 25 por hectare, a menor em duas décadas, enquanto o produtor americano projeta prejuízo de US$ 341/ha em soja e US$ 1.003/ha em algodão.

A reportagem do Financial Times que decretou o fim da hegemonia agrícola americana, em julho último, traz os dois números lado a lado. A repercussão brasileira reteve apenas o primeiro. Estamos ganhando mercado e perdendo rentabilidade ao mesmo tempo, com estrutura de custo dependente de fornecimento concentrado em um único país, que é também nosso principal comprador.

A China absorve 28,7% das exportações brasileiras e responde por 25,3% das importações. Não é uma relação comercial. É uma dependência dupla: se ela se romper, perdemos ao mesmo tempo o fornecedor do insumo e o comprador da safra.

O que as duas candidaturas oferecem

O programa de Lula defende o aprofundamento dos mecanismos financeiros do Brics, o uso de moedas locais no comércio bilateral e a consolidação do Mercosul. Em terras raras, o presidente condicionou a participação estrangeira ao processamento em território nacional.

O programa de Flávio Bolsonaro não menciona o Brics nem o Mercosul e propõe retomar a adesão à OCDE. Fora do texto, o candidato anunciou que reavaliaria a permanência no Brics no primeiro dia, propôs que o Brasil se liberte das amarras do bloco sul-americano e defendeu que os Estados Unidos explorem os minerais críticos brasileiros para reduzir a dependência chinesa.

São visões de mundo opostas. Nenhuma contém uma linha sobre dependência de insumo agrícola. E nenhuma é hipótese: ambas já foram testadas e ambas falharam no mesmo ponto, em direções opostas.

O ensaio bolsonarista de realinhamento durou menos de um ano. O investimento direto chinês no Brasil caiu de US$ 11,3 bilhões em 2017 para US$ 2,8 bilhões em 2018. Empossado, Bolsonaro foi contido por agronegócio, mineração e militares em poucos meses.

Quando o alinhamento ideológico colide com a pauta exportadora, a pauta exportadora vence, e vence rápido. Flávio herda esse resultado e acrescenta um teste próprio. O tarifaço de 50% foi, em parte, incentivado por ele e por Eduardo.

O diretor de uma grande consultoria de análise política, lembrou em Nova York, durante a Semana do Clima, “que o propósito da tarifa e das sanções a ministros do Supremo era alterar a situação jurídica de Jair Bolsonaro, e que fracassou: houve condenação e não houve anistia. Instalada a tarifa, o candidato passou a apresentar-se como o canal de sua remoção. O alívio que de fato veio, a isenção de novembro de 2025 sobre café, carne e frutas, foi decidido pela política de preços ao consumidor americano, e nenhuma linha dele é atribuível à interlocução do candidato. O ativo que se oferece ao eleitor, acesso privilegiado a Washington, já foi testado e não produziu resultado verificável.”

Do outro lado, o governo Lula teve quatro anos e a dependência de insumo não diminuiu, aumentou. A participação chinesa nas importações de defensivos cresceu de forma consistente nos últimos cinco anos. Soberania foi o vocabulário, concentração foi o resultado.

E a agenda de moedas alternativas ao dólar é, ela própria, o principal gerador do risco financeiro que recai sobre o exportador agrícola, cujas vendas são liquidadas em dólar e ficam expostas a sanções secundárias que atingem o frigorífico e a trading, não o governo.

Há um episódio recente que testa os dois candidatos de uma vez. Em 3 de setembro a americana USA Rare Earth concluiu, por cerca de US$ 2,8 bilhões, a compra da Serra Verde, em Goiás, única mina fora da Ásia capaz de produzir os quatro elementos usados em ímãs permanentes.

Toda a produção da primeira fase está comprometida por quinze anos com um veículo capitalizado pelo governo americano. Para a tese de Flávio, o episódio esvazia a moeda de troca: Washington já obteve por via de mercado o que o candidato promete oferecer por via diplomática, e a tarifa não se moveu.

Para a de Lula, expõe o intervalo entre doutrina e instrumento: o negócio era público desde abril, e a lei que exige homologação federal para mudança de controle em mineração crítica passou no Senado em 2 de setembro, um dia antes do fechamento, e foi sancionada no dia 16.

O princípio de que a riqueza se processa aqui foi enunciado. O instrumento chegou depois do negócio.

Por que o alinhamento americano não compra o que promete

A ordem executiva de novembro de 2025 justificou as isenções por produtos "não cultivados ou produzidos em quantidade suficiente nos Estados Unidos". A concessão sai quando não existe produtor americano do outro lado, e é reversível por decreto com a mesma facilidade com que foi concedida.

Nos produtos concorrentes, soja, milho, algodão, etanol e açúcar, a crise americana fecha a porta em vez de abri-la. Desde 2025 o governo americano transferiu US$ 12 bilhões ao produtor rural para compensar o dano das próprias tarifas. Quem paga essa conta não abre em seguida o mercado ao concorrente que esse produtor identifica como causa do problema.

O que está na mesa confirma a direção. Entre as 21 exigências apresentadas por Washington em outubro de 2025 e revisadas em janeiro de 2026, a primeira demanda comercial é redução da tarifa brasileira sobre etanol. Cerca de 40% do milho americano vai para etanol, sustentado por mandato regulatório.

Pede-se ao Brasil que absorva o excedente criado pela política interna americana, quando o país ergue, no etanol de milho do Centro-Oeste, a válvula de escoamento para o próprio excedente de grão. Não é reciprocidade, é escoamento.

A cúpula da semana passada na Casa Branca mostrou o mecanismo em operação. A China reafirmou a compra de 25 milhões de toneladas anuais de soja americana até 2028 e as duas potências estenderam a trégua comercial até 10 de janeiro de 2027.

Nas duas semanas anteriores ao encontro, as compras chinesas de soja brasileira caíram para menos de cinco cargas semanais, contra uma média de vinte em agosto, e o prêmio em Paranaguá chegou a deixar o grão brasileiro mais caro que o americano no Golfo.

O volume prometido equivale a cerca de um terço do que o Brasil embarca para a China e a maior parte da nossa safra já estava vendida. Não é colapso, é pressão sobre prêmio e margem, exatamente onde o produtor brasileiro já está mais frágil.

Enquanto a campanha discute se o Brasil deve se aproximar de Washington ou de Pequim, Washington e Pequim se aproximaram entre si, e a moeda da aproximação foi a soja brasileira.

A objeção mais forte

O contra-argumento merece ser enunciado no seu melhor. A China nunca usou o fornecimento de insumo agrícola contra o Brasil e tem motivo para não usar: precisa do nosso grão e da nossa proteína para conter a inflação de alimentos.

Dependência mútua, nessa leitura, é estabilizadora. O problema é que o argumento supõe que o risco venha de uma decisão dirigida contra nós.

Não vem, e 2026 já o demonstrou duas vezes. A primeira foi a restrição chinesa à exportação de fosfatados, adotada por razões internas. A segunda veio de onde nenhum dos dois projetos olha.

Com o bloqueio do Estreito de Ormuz a partir de 28 de fevereiro, travou-se a rota por onde passam cerca de 40% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados e perto de metade do enxofre.

A ureia chegou ao Brasil 63% mais cara. O fertilizante deve subir de 30% para cerca de 35% do custo de produção na safra 2026/27, e o produtor já precisa de 60 sacas de milho para pagar uma tonelada de ureia. O plantio da soja começou em plena campanha e o tema não mereceu uma linha dos dois programas.

Não estamos sujeitos à hostilidade de ninguém. Estamos sujeitos a decisões e acidentes alheios, sobre os quais não temos voto nem aviso prévio. Um instrumento não precisa ser apontado para nós para nos atingir.

A escolha que não está sendo oferecida

Os dois projetos discutem para que lado o Brasil deve olhar. Nenhum discute o que nos torna vulneráveis olhando para qualquer lado.

A representação política do agro se organizou em torno de acesso a mercado: barreiras sanitárias, habilitação de plantas, acordos comerciais. Nunca em torno de soberania de insumo, porque durante vinte anos o insumo foi barato e abundante.

Esse período acabou e o que o substitui é um ambiente em que fertilizante e ingrediente ativo são instrumentos de política externa disponíveis a quem os produz.

A pauta que falta tem três frentes, e nenhuma depende de quem vença. A primeira é prazo regulatório: registro de ingrediente ativo na Anvisa e no Ibama em janela compatível com ciclo de investimento industrial, decisão de agência e de lei, não de Planalto.

A segunda é tratar a dependência de 85% em fertilizante como questão de segurança, dando ao Plano Nacional de Fertilizantes financiamento e meta de substituição com data.

A terceira é estender ao insumo agrícola o princípio que o presidente enunciou para terras raras, convertendo-o de declaração em condicionalidade de licenciamento e de crédito público.

Serra Verde mostrou o preço de não o fazer a tempo. As datas que importam para o agro brasileiro não incluem 4 de outubro. Uma já passou: foi 28 de fevereiro, num estreito que nem Pequim nem Washington controlam.

A outra vem nove dias depois da posse em 2027: 10 de janeiro, quando vence a trégua sino-americana em que a soja brasileira serviu de moeda.

Quem vencer herdará a posição de maior exportador agrícola do mundo apoiada sobre uma dependência que este ano já foi acionada, e não por nenhuma das potências entre as quais se pede ao eleitor que escolha.

Nenhum dos dois programas sabe nomeá-la, e é por isso que a escolha oferecida é a errada. Continuaremos a depender de nós mesmos.

Marcello Brito é diretor acadêmico do FDC-Agroambiental da Fundação Dom Cabral.