Em abril de 2026, 62 famílias de produtores americanos pediram recuperação judicial num único mês, o maior número desde fevereiro de 2020. Em 2025 foram 315 pedidos, 46% mais que em 2024, que por sua vez já tinha subido 55% sobre 2023.
A dívida do setor caminha para um recorde de US$ 624,7 bilhões, com US$ 33 bilhões só de juros. A Farm Bureau fala em crise geracional, a pior desde os anos 1980. E tudo isso acontece com o governo transferindo um terço da renda agrícola em cheques.
A agricultura mais produtiva do mundo não está quebrando por falta de tecnologia, de terra ou de clima. Está quebrando por decisões tomadas em Washington que transferem custo e risco para a porteira e depois tentam comprar o silêncio com dinheiro público.
Nada disso é culpa do produtor de Iowa. Os sete pecados abaixo são de desenho institucional e cada um deles tem uma versão brasileira em gestação.
1. Soberba: achar que o cliente não tinha alternativa
A guerra tarifária partiu de uma premissa que a China já tinha desmontado: a de que Pequim dependia da soja americana. Na última década, o capital chinês financiou armazéns, ferrovias e portos no Brasil justamente para ter essa alternativa.
Quando o embargo veio, em 2025, a China ficou cinco meses sem comprar um grão dos Estados Unidos e não faltou ração para ninguém.
O acordo que se seguiu não devolveu o que foi perdido. Na lista mais recente de cortes tarifários, Pequim incluiu milho, trigo, sorgo, carnes e lácteos americanos, mas deixou a soja de fora.
O grão americano paga 13% para entrar na China; o brasileiro, 3%. Mesmo cumprido integralmente, o compromisso de 25 milhões de toneladas por ano fica cerca de 14% abaixo da média de 2020 a 2024.
A conta chegou no balanço. Com a soja abaixo do custo de produção, Iowa, o coração do Corn Belt, viu os pedidos de recuperação judicial subirem 220% em 2025. Minnesota liderou o país no primeiro trimestre de 2026.
O produtor que financiou a safra contando com o cliente chinês ficou com o grão no silo e a dívida no banco. Mercado perdido por escolha política raramente volta por decreto. E nunca volta a tempo de pagar o vencimento.
2. Gula: o subsídio como segunda safra
Se o pedido adicional da Casa Branca passar, o governo terá transferido cerca de US$ 55 bilhões em pagamentos diretos aos produtores em 2026.
Isso equivale a um terço da renda agrícola do país, o maior peso desde 2001. Primeiro vieram US$ 12 bilhões para compensar a guerra comercial; depois, mais US$ 11 bilhões para cobrir fertilizante e diesel encarecidos pela guerra com o Irã.
O problema não é socorrer quem foi atingido por decisões de Estado. É o que o socorro esconde. Os cheques chegam atrasados, mal distribuídos e calculados por critérios que o próprio produtor não entende.
Enquanto isso, a renda líquida do setor está US$ 48 bilhões abaixo do pico de 2022 e os empréstimos de custeio cresceram quase 40% no último trimestre de 2025, com tíquete médio 30% maior.
O subsídio não está restaurando margem; está financiando o aumento da dívida e segurando o preço da terra, que é a garantia dessa dívida.
O incentivo perverso se completa aí. Quando um terço da renda depende de negociação política anual, o produtor otimiza para Washington, não para o mercado. A secretária de Agricultura repete que o setor precisa de comércio, não de ajuda, enquanto assina a ajuda.
Às vésperas das eleições de meio de mandato, ninguém espera que a torneira feche. E quando fechar, a dívida que ela ajudou a construir continuará lá.
3. Preguiça: a lei agrícola que ninguém termina
O Farm Bill, que organiza crédito, conservação, seguro e assistência alimentar, foi aprovado pela última vez em 2018. Desde então foi prorrogado três vezes.
Em 30 de setembro, a terceira prorrogação venceu sem substituta. A Câmara aprovou sua versão em abril; o comitê do Senado aprovou a dele em setembro, por um voto de diferença, em linha partidária. Não há texto conciliado e ninguém espera votação antes de dezembro.
As consequências já aparecem. O programa de reserva para conservação não pode assinar contratos novos, justamente quando cerca de 1,6 milhão de acres saíam do sistema. Se nada mudar até 1º de janeiro, o setor leiteiro volta tecnicamente às regras de 1949.
Para o produtor endividado, o efeito é mais concreto: sem lei, não há previsibilidade sobre preço de referência, seguro e crédito, e o banco precifica essa incerteza no spread.
A lição institucional é a mais perigosa de todas. Quando os grandes pagamentos passam a vir por pacotes emergenciais e pela lei orçamentária de 2025, o custo político de não votar a lei estrutural cai a quase zero.
O Congresso aprendeu que pode distribuir dinheiro sem decidir política. O produtor aprendeu que lobby por pacote rende mais que lobby por reforma. Ambos estão agindo racionalmente dentro de um sistema que premia o adiamento.
4. Avareza: a margem que fica no meio da cadeia
Quatro frigoríficos processam mais de 80% da carne bovina americana. Em 1980, as quatro maiores empresas compravam cerca de 35% do gado. O pecuarista vive um ciclo de preços altos e, ainda assim, sustenta que o consumidor paga mais do que deveria porque a margem se concentra na indústria.
Do outro lado da porteira, a história se repete nos fertilizantes: produtores processam fabricantes alegando que a alta veio de coordenação entre empresas, e não apenas de oferta e demanda.
A guerra com o Irã agravou o quadro. Em abril, sete em cada dez produtores disseram não ter dinheiro para comprar todo o fertilizante necessário para a safra. Economistas projetam preços acima do pré-guerra até 2028.
O resultado é um produtor espremido: paga insumo de oligopólio, vende para oligopsônio e, quando a margem vira negativa, descobre que o Chapter 12, o regime de recuperação criado para a família rural em 1986, exclui quem tira a maior parte da renda de fora da fazenda.
Ou seja, exatamente as famílias que buscaram emprego na cidade para sobreviver à crise não têm acesso à proteção desenhada para a crise.
Quando fornecedor e comprador estão concentrados, o produtor vira tomador de preço nas duas pontas. Nenhum cheque federal corrige isso. O que corrige é política de concorrência, e sobre ela o Farm Bill parado não diz uma palavra.
5. Ira: a guerra contra a própria mão de obra
O governo endureceu a fiscalização migratória num setor em que, pelos dados do próprio Departamento do Trabalho, trabalhadores sem documentos somam 42% da força de trabalho agrícola. Os vistos temporários H-2A cobrem outros 16%.
Para conter a falta de braços que a própria política provocou, a administração mudou às pressas o cálculo do salário mínimo dos trabalhadores H-2A, com cortes que, segundo o sindicato dos trabalhadores rurais, chegaram a US$ 7 por hora em alguns estados. Antes, extinguiu a pesquisa de salários rurais do USDA, que servia de referência. Em agosto, um juiz federal anulou a regra por falta de consulta pública. O governo deve recorrer.
O resultado é o pior dos mundos para quem planta frutas e hortaliças: menos gente disponível, regra salarial incerta e nenhuma previsibilidade para planejar a próxima colheita.
Fruta que não é colhida não vira subsídio; vira prejuízo, e a Flórida, com os pedidos de falência rural triplicando em 2025, mostra o tamanho dele.
É o retrato de um governo em guerra consigo mesmo. A política migratória cria a escassez, a política trabalhista tenta compensá-la cortando salário, o Judiciário derruba o atalho, e o produtor fica com a safra no pé.
6. Luxúria: o vício químico e a ressaca política
Durante décadas, o glifosato foi a solução fácil: barato, eficiente, aliado do plantio direto. O sistema de incentivos nunca financiou uma transição, e a dependência se consolidou. Hoje a associação dos produtores de milho estima que, sem os herbicidas citados pelo movimento MAHA, as perdas de produtividade poderiam passar de 70%.
O MAHA, que tem no secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. seu principal patrono, transformou o tema em bandeira eleitoral. A Bayer venceu na Suprema Corte, a EPA tinha até outubro para concluir a revisão do registro, e as chamadas mães MAHA prometem cobrar a fatura nas urnas.
A coalizão que elegeu Trump está rachada entre o eleitor que quer menos química no prato e o produtor que não sabe plantar sem ela.
A crítica mais dura não é ao MAHA, mas ao sistema que o tornou possível. Trinta anos de política agrícola subsidiaram o produto, nunca a transição.
Quem hoje propõe restringir o herbicida fala em investimento de bilhões para financiar a mudança; quem defende o herbicida não oferece plano B.
Entre os dois, o produtor endividado não tem capital para experimentar nem margem para errar. Ninguém pagou pelo meio do caminho, e agora ninguém quer pagar pela ponte.
7. Inveja: o vizinho do sul que ganha com Washington
Em outubro de 2025, Trump anunciou que compraria carne argentina para baixar o preço no açougue. Em 2026, a promessa virou cota: 80 mil toneladas adicionais de carne magra, todas destinadas à Argentina, com tarifa reduzida.
Os pecuaristas, base fiel do presidente, reagiram como traídos. A Argentina responde por cerca de 2% das importações americanas de carne bovina; o efeito sobre o preço ao consumidor tende a ser marginal. O efeito simbólico, não.
Os sojicultores carregam o mesmo ressentimento. Viram Washington socorrer Buenos Aires enquanto a China trocava a soja deles pela argentina e pela brasileira. O produtor americano olha para o sul e enxerga concorrentes ganhando espaço com a ajuda do próprio governo dele.
Aqui o pecado é de coerência. Um governo que justifica tarifas como defesa do produtor nacional abre cotas preferenciais ao concorrente estrangeiro na semana seguinte, sem exigir inspeção sanitária equivalente.
Não há estratégia, há reação a manchete de preço. Poucas coisas corroem tanto a lealdade de uma base política quanto a percepção de que o próprio aliado negocia contra ela.
A soma dos pecados: uma crise que o dinheiro não resolve
Falência é indicador atrasado. Os 315 pedidos de 2025 refletem decisões de 2023 e 2024; os 62 de abril refletem a guerra comercial e a guerra no Irã; os de 2027 refletirão o que está sendo decidido agora.
Economistas da Universidade de Missouri alertam que a tendência é de alta por vários anos, mesmo que os preços se estabilizem. E o Chapter 12 captura só uma fração do problema: quem não se qualifica simplesmente vende a terra e fecha a porteira, sem entrar em estatística nenhuma.
A raiz comum dos sete pecados é a mesma. Decisões tomadas fora da porteira transferem custo e risco para o produtor, e o Estado compensa com transferências que, por sua vez, reduzem a pressão por reformas.
Quanto mais a renda depende de Washington, mais o setor vira refém do calendário eleitoral e menos capacidade tem de financiar a própria adaptação. A agricultura mais produtiva do mundo está sendo gerida como uma carteira de passivos políticos, e o passivo está vencendo.
O que o Brasil não deve fazer
Os ganhos brasileiros de curto prazo são evidentes: diferencial tarifário de dez pontos na soja, cotas abertas para carne sul-americana, cliente chinês consolidado e com infraestrutura própria instalada aqui.
Seria um erro, porém, confundir a fraqueza do concorrente com mérito próprio. O Brasil tem versões próprias de quase todos os sete pecados, e a diferença é que os Estados Unidos têm caixa para financiar os próprios erros. Nós não temos.
No curto prazo, de um a dois anos, o risco é a soberba. Ganhar market share por tarifa alheia convida a dormir sobre o diferencial, e o diferencial dura exatamente até a próxima rodada de negociação entre Washington e Pequim.
Também convida a repetir o erro americano de usar o Plano Safra como instrumento de compensação política, com crédito renegociado ano a ano e prorrogação de dívida virando rotina. Cada prorrogação ensina ao sistema que a inadimplência é negociável.
No médio prazo, de três a cinco anos, o risco é a avareza e a luxúria. Dependemos de fertilizante importado em mais de 80% do consumo, com fornecedores concentrados e sem política séria de produção doméstica; a guerra no Irã mostrou o que isso custa.
Dependemos de defensivos num grau que a regulação ambiental europeia e, agora, a americana começam a precificar; e nunca financiamos uma transição, só o produto. Quando o cliente passar a exigir o que o MAHA exige, não teremos plano B, teremos o mesmo discurso de que não dá para plantar sem.
No longo prazo, de uma década, o risco é a preguiça. Os Estados Unidos ficaram oito anos sem lei agrícola e substituíram política por pacote. O Brasil nunca teve uma lei agrícola de verdade: tem orçamento anual, medida provisória e decreto.
Sem regra estável de seguro rural, concorrência na cadeia de insumos e proteína, mão de obra e licenciamento ambiental, o setor cresce em escala e encolhe em resiliência. É exatamente o perfil que quebra na primeira sequência de dois anos ruins.
O agro americano está mostrando, em tempo real, quanto custa adiar essas conversas. A conta deles está sendo paga em recuperações judiciais e cheques de US$ 55 bilhões. A nossa, sem cheque, seria paga em terra. Melhor aprender com a conta alheia do que esperar a nossa.
Marcello Brito é diretor acadêmico do FDC-Agroambiental da Fundação Dom Cabral.