Os primeiros efeitos práticos do encontro entre os líderes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, na semana passada, começaram a ser conhecidos nesta segunda-feira, 28 de setembro. E interessam diretamente ao agronegócio brasileiro.

Por enquanto, o impacto é pequeno e poupou o principal produto da pauta exportadora do País (e um dos maiores interesses americanos), a soja.

A oleaginosa ficou de fora da lista dos produtos agropecuários americanos sobre os quais China planeja reduzir tarifas, que inclui, entre outros, milho, trigo, carne e laticínios. Pequim também deve diminuir taxas de importação sobre sorgo, peixes e frutos do mar, toras e produtos de madeira, óleo e farelo de soja.

A expectativa por um acordo desse tipo estava entre as principais preocupações do agro brasileiro em torno dos resultados da segunda cúpula deste ano entre os dois presidentes. A redução de tarifas deve impactar um total de US$ 60 bilhões (cerca de R$ 311 bilhões) em mercadorias importadas um do outro.

A proposta recíproca, porém, não especifica quando essas reduções tarifárias devem entrar em ⁠vigor. Mais de 90% dos produtos agrícolas e afins incluídos na lista estarão isentos de todas as tarifas adicionais impostas mutuamente. Em vez disso, estarão sujeitos às alíquotas de tarifa de nação mais favorecida, informou o Ministério do Comércio da China em ⁠comunicado.

A soja dos Estados Unidos, no entanto, ainda estará sujeita uma tarifa adicional de 10%.

“As empresas estatais chinesas já vinham importando soja americana, mesmo com a taxação, mesmo não sendo competitivo, em termos de preço”, considera José Carlos Hausknecht, sócio de agronegócio da EY (Ernst & Young). “Então não vai mudar muita coisa, tendo ou não essa taxação”.

O volume de compras da oleaginosa foi alvo de outro acordo, firmado entre Trump e Xi no ano passado. Pequim havia se comprometido com Washington a importar 25 milhões de toneladas de soja, anualmente, até 2028.

“Os Estados Unidos não têm mais soja pra vender. 25 milhões de toneladas é mais da metade da soja que eles vão exportar este ano”, diz Hausknecht. “Mesmo com a tarifa, a China vai continuar comprando, provavelmente, para fechar esse compromisso que já tinha sido firmado com os Estados Unidos”.

Da mesma forma, o sócio da EY não entende que a redução de tarifas do farelo e do óleo de soja americanos traga prejuízos aos exportadores brasileiros. Segundo ele, a China não se coloca entre os grandes importadores desses produtos, preferindo adquirir o grão e estimular o processamento em seu próprio território.

Ainda assim, embora considere “neutro” o impacto para o chamado complexo soja brasileiro, Hausknecht vê potenciais riscos na mensagem de aproximação entre as duas potências.

“Quando o grande comprador tira a taxação de um concorrente, nunca é bom. E os Estados Unidos são nossos concorrentes nesse mercado. Se tirar a taxação dos Estados Unidos, vai aumentar a competitividade deles”.

Outro produto agrícola de importância para as exportações brasileiras para a China também não consta na lista tarifária chinesa – e aqui a notícia, assim como na soja, é positiva.

“O algodão não está na lista e a China é uma grande importadora deste produto. Brasil e Estados Unidos são os maiores exportadores mundiais, então também tem uma competição aí”, diz.

Para outros produtos agrícolas, como carne, que consta na lista de tarifas reduzidas, José Carlos Hausknecht descarta, por enquanto, um cenário negativo para o Brasil.

“Tirando a questão das cotas chinesas, tem uma demanda enorme para a carne do Brasil. O País ganhou mercado e os preços estão bons. E os Estados Unidos estão importando bastante”, pondera.

“Agora tem uma série de dúvidas com relação à produção, por conta de El Niño, da questão de crédito, da questão de aumento de custos. Tem um mercado mais firme de preços e isso traz uma perspectiva melhor pela frente”.

O sócio de agronegócio da EY também considera que as negociações chinesas acontecem, neste momento, mais por um viés político, em função das eleições legislativas de ⁠meio de mandato nos EUA.

“Está sendo muito influenciado também pelas eleições lá. Donald Trump está tentando, de todas as maneiras, melhorar a situação dele. Depois que passarem as eleições, não sei se isso vai se sustentar. Até chegar em janeiro, pelo menos para os grãos, a maior parte da safra americana já foi”, conclui.

Na contrapartida do acordo, os cortes tarifários de Washington incluem pequenos eletrodomésticos chineses, além de brinquedos, fogos de artifício e decorações festivas.

De acordo com informações do Ministério do Comércio da China, os países criarão um grupo de trabalho sobre agricultura subordinado a um conselho comercial, que realizará sua primeira reunião em novembro deste ano para discutir regulamentação e acesso aos mercados.

Em outro acordo, a China importará 10 milhões de toneladas métricas de carvão anualmente dos Estados Unidos em 2027 e 2028. Esse volume equivale, aproximadamente, a 2% das importações anuais de carvão da China. Gás natural liquefeito e petróleo não constavam da lista.

O Ministério do Comércio da China confirmou ainda a prorrogação de dois meses da trégua comercial com os Estados Unidos, até o dia 10 de janeiro, como havia anunciado anteriormente o governo americano. O período daria margem para que os países avaliassem o acordo em andamento para resolver questões econômicas e comerciais.

Resumo

  • China reduz tarifas de diversos produtos agrícolas dos Estados Unidos, mas mantém a soja americana fora da lista
  • Soja e algodão ficam sem novas reduções tarifárias, diminuindo riscos de perda de competitividade para o Brasil
  • Aproximação entre China e EUA cria incertezas para exportadores brasileiros, apesar do impacto inicial considerado limitado