“Sem dúvida nenhuma, o momento está muito mais propício para compra do que para venda.” A avaliação é de André Guillaumon, CEO da BrasilAgro, que vê o estresse financeiro de parte dos produtores abrindo uma nova janela de oportunidades no mercado de terras.
Depois de assumir uma posição predominantemente vendedora nos últimos quatro ou cinco anos, a companhia prepara outro direcionamento.
A última aquisição de uma propriedade rural pela BrasilAgro foi a Fazenda Panamby, em Querência (MT), em setembro de 2022, há quatro anos. Desde então, a companhia expandiu a área operada apenas por meio de parcerias e arrendamentos.
“A gente vendeu mais de R$ 2,5 bilhões de terra. Capitalizamos muito e acho que estamos virando um pouco a chave, entrando em um momento em que vai ter compra, mas vai ter venda”, afirmou Guillaumon, em conversa com o AgFeed durante o Global Agrobusiness Festival (GAFFF), na semana passada em São Paulo.
A mudança ocorre justamente quando a combinação entre margens agrícolas mais estreitas e crédito caro pressiona produtores, especialmente aqueles que aumentaram muito a alavancagem nos anos de juros baixos.
Segundo o executivo, financiamentos contratados a CDI acrescidos de spreads de três a quatro pontos percentuais espremeram as margens, que por vezes até ficaram negativas, de parte dos agricultores.
De acordo com Guillaumon, o primeiro efeito não é necessariamente a venda de propriedades, mas a perda de capacidade para continuar investindo e comprando terras.
“Tem aquele produtor que se alavancou muito no momento de juro baixo e não acreditava que ia virar, mas virou”, disse.
O cenário, contudo, está longe de ser uniforme. Compradores menos endividados continuam capitalizados e comprando, ainda que eventualmente com “cheques menores”.
O último balanço da BrasilAgro divulgado na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) exemplifica o cenário. A companhia encerrou junho de 2026 com R$ 203 milhões de liquidez entre caixa, títulos e valores mobiliários, além de R$ 540 milhões em créditos a receber pela venda de fazendas.
Contudo, a dívida líquida financeira alcançou R$ 831,9 milhões, ante R$ 742,7 milhões um ano antes, enquanto o índice de alavancagem subiu de 34,1% para 41,08% do patrimônio líquido consolidado de R$ 2,025 bilhões.
De vendedora a compradora
Em todo caso, a tese anticíclica da BrasilAgro mantém-se intacta. Desde a criação da companhia, em 2005, a estratégia consiste em adquirir propriedades com potencial de valorização, investir capital e gestão para elevar produtividade e valor e, posteriormente, vendê-las.
“Temos que comprar aquele ativo que não está gerando receita, colocar capital intensivo e gestão para fazer esse ativo render”, explicou Guillaumon.
Para ele, depois de um ciclo de valorização das terras, sustentado por boas margens dos grãos e produtores afoitos por expandir áreas (mesmo com alavancagem), o cenário mudou nas últimas safras.
O novo quadro não secou a demanda por terras, mas aumentou a oferta de ativos de produtores pressionados financeiramente.
Ele lembra que negócios provocados por estresse financeiro não são novidade. Nos primeiros anos da companhia, eram ainda mais frequentes.
“Se você parar para olhar nossa história de aquisição de propriedades, vários ativos que compramos no passado vinham de estresse financeiro. Quando começamos a companhia, em 2005 e 2006, isso era muito maior do que hoje. Você tinha muito mais produtor endividado”, lembra.
A virada, porém, não significa abandonar as vendas. A própria BrasilAgro mostrou nesta semana que continuará realizando ativos quando encontrar condições consideradas favoráveis.
A empresa negociou mais uma parcela da Fazenda Rio do Meio, adquirida na fusão com a Agrifirma, em 2021.
Segundo Guillaumon, dois outros trechos da propriedade já haviam sido vendidos. Em uma negociação anterior, o preço equivaleu a mais de 300 sacas de soja por hectare. Agora, a área alcançou o equivalente a 425 sacas.
“Óbvio que é uma correção, a soja também valia mais quando estava em 300, mas mostra o potencial que a companhia tem travado no seu portfólio”, afirma.
Bolsões de liquidez
Guillaumon afirmou que a procura de proprietários interessados em negociar ativos aumentou no último ano.
A BrasilAgro, disse, está mais atenta a essas oportunidades e mantém, inclusive, parcerias com bancos para identificar possíveis negócios.
A disponibilidade de capital encontra, porém, um mercado bastante heterogêneo. No Mato Grosso, o executivo considera atualmente mais difícil vender terras. Na Bahia, por outro lado, culturas de maior valor agregado ajudam a manter “bolsões de liquidez”.
A diversificação geográfica da BrasilAgro, construída para reduzir riscos climáticos, permite também que a empresa compre e venda ativos em regiões que atravessam momentos diferentes.
“Hoje, a regionalização está funcionando muito como liquidez. Vender terra no Mato Grosso está supercomplexo, mas na Bahia você tem um bolsão de liquidez em função de culturas de valor agregado.”
O aumento do estresse financeiro também aparece nas recuperações judiciais. Guillaumon faz uma distinção entre produtores efetivamente atingidos pela deterioração financeira e casos de uso oportunista do instrumento.
“Não faz sentido o cara fazer uma alta alavancagem, comprar um monte de coisa e depois falar: ‘Agora não quero pagar’. O instrumento da RJ foi criado para proteger o emprego, não para o cara se alavancar e se apoiar numa RJ”, sentencia.
Para ele, é errado tratar as recuperações judiciais como um problema particular do agronegócio. Empresas industriais e grandes grupos varejistas também recorreram ao instrumento diante do mesmo ambiente de juros elevados.
E esse contexto já apareceu no radar de aquisições. A companhia analisa casos concretos, de diferentes tamanhos.
“Temos que ser uma empresa anticíclica, mas eu não posso só comprar por dois ou três anos e só vender por dois ou três anos. Cada caso é um caso.”
Resumo
- Última compra de uma propriedade rural pela companhia ocorreu em 2022, no Mato Grosso
- Companhia encerrou junho de 2026 com R$ 203 milhões de liquidez entre caixa, títulos e valores mobiliários
- Empresa analisa negócios de diferentes portes e mantém parcerias com bancos para encontrar ativos