Guilherme Scheffer, diretor financeiro e comercial do Grupo Scheffer e um dos herdeiros da empresa – um dos maiores grupos agrícolas do Brasil, com mais de 230 mil hectares de área cultivada em Mato Grosso e no Maranhão – recebeu uma visita ilustre no fim de julho na operação da companhia na Colômbia, onde atua desde 2020.

Com direito a aperto de mão e fotografias, o novo presidente Abelardo de la Espriella, eleito em junho deste ano, conheceu de perto a área onde os Scheffer estão plantando as sementes do que pretendem transformar em uma operação de grande escala no país.

Hoje o grupo cultiva apenas 6 mil hectares de soja e milho no departamento de Vichada, que fica ao leste do país, na região da Orinoquia, área de savana que faz fronteira com a Venezuela.

Os planos da família, porém, são bem mais ambiciosos: chegar a 100 mil hectares de grãos plantados na Colômbia em dez anos.

“O que a Scheffer fez no Brasil, queremos fazer lá também”, resumiu Scheffer ao AgFeed durante passagem por São Paulo para participar do GAFFFF, evento realizado na semana passada na capital paulista.

A aposta na Colômbia coloca o Grupo Scheffer em um movimento que vem ganhando força entre grandes produtores de soja do Centro-Oeste brasileiro.

Depois de ajudarem a desbravar o Cerrado nas últimas décadas, alguns desses grupos passaram a olhar para além das fronteiras nacionais em busca de novas regiões com potencial produtivo e terras mais baratas que no Brasil.

Um dos exemplos mais recentes está dentro da própria família Maggi Scheffer. Tio de Guilherme Scheffer, Eraí Maggi Scheffer, o fundador do Grupo Bom Futuro e outro dos maiores produtores agrícolas do Brasil, vem investindo na Bolívia e teria hoje entre 30 mil e 40 mil hectares na Chiquitania, região próxima à fronteira brasileira.

A Bolívia, porém, já é um território relativamente conhecido pelos produtores brasileiros. A Colômbia é uma fronteira agrícola bem menos explorada.

Conhecido internacionalmente pela produção de café, o país ainda cultiva volumes pequenos de soja e milho. Na safra 2025/2026, por exemplo, foram semeados apenas 370 mil hectares de milho e 50 mil hectares de soja, segundo dados do USDA, o departamento de agricultura dos Estados Unidos, uma área inferior à cultivada por alguns grupos agrícolas brasileiros.

O país é fortemente dependente, portanto, da importação de commodities. Só no ano passado, a Colômbia trouxe do exterior 552,6 mil toneladas de soja e derivados e 7,3 milhões de toneladas de milho, segundo a Federação Nacional de Produtores de Cereais, Leguminosas e Soja (Fenalce).

Ainda há muito por fazer na Colômbia, garante Guilherme Scheffer. Ele ressalta que quem pretende produzir em grande escala também precisa ajudar a construir praticamente toda a cadeia ao redor da fazenda, da disponibilidade de sementes à infraestrutura e ao maquinário.

“Tem que fazer estrada. Não tem assistência técnica. Não tem mão de obra qualificada. Você tem que fazer tudo, começar do zero”, afirma.

Mas também há um manancial de oportunidades do ponto de vista de áreas para operar, enfatiza o empresário. “Na Colômbia, você não precisa desmatar. É um campo nativo, é um pasto nativo. Não é que seja um pasto degradado, é que nunca foi floresta. Você vai plantar lá sem derrubar árvore”, afirma. “E não tem regra. É uma área intocada.”

Segundo Scheffer, a região também guarda semelhanças com os desafios encontrados pelos produtores que chegaram a Mato Grosso há cerca de meio século.

“O solo é pobre, assim como o de Mato Grosso. E nós já conhecemos como é que faz para converter um solo pobre em solo rico: calcário, correção.”

É justamente essa necessidade de construir uma nova fronteira agrícola praticamente do início que, na avaliação de Scheffer, torna a Colômbia mais desafiadora do que países como Bolívia e Paraguai, que já atraem há anos agricultores, empresas e investidores brasileiros. “O cara tem que ser corajoso para ir para lá. É muito mais difícil”, garante.

O plano de Espriella: “Mato Grosso colombiano”

A ambição do Grupo Scheffer de crescer na Colômbia encontrou, nos últimos meses, um ingrediente adicional: o interesse do novo governo colombiano em transformar a região da Orinoquía – onde está a operação dos Scheffer no país – em uma espécie de “Mato Grosso colombiano”.

Entre a visita à fazenda dos Scheffer e outras expedições ao interior da Colômbia, Espriella teria participado, no início de agosto, de encontros com investidores colombianos e brasileiros, integrantes de seu futuro governo e um representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Na ocasião, teria tido contato, segundo a imprensa local, com uma proposta de desenvolvimento de longo prazo para a região, inspirada na transformação agrícola vivida por Mato Grosso nas últimas décadas.

Segundo informações publicadas pelo site colombiano Portafolio, a apresentação foi elaborada pela associação empresarial Prorinoquia e pela iniciativa Soya–Maíz Proyecto País, com apoio de dados da fundação privada Fedesarrollo e do próprio Grupo Scheffer.

O plano estabelece um horizonte de 20 anos e prevê uma expansão gradual da produção de soja e milho na região da Orinoquía.

Na primeira etapa, entre 2026 e 2030, a produção de soja e milho na ergião chegaria a 3 milhões de toneladas, volume suficiente, segundo a proposta, para reduzir as importações colombianas de grãos em 37,5%.

Entre 2030 e 2034, a produção avançaria para 8 milhões de toneladas, nível que faria com que a Colômbia pudesse deixar de importar soja e milho. No horizonte final do projeto, em 2045, o volume produzido chegaria a 20 milhões de toneladas, abrindo espaço para transformar o país também em exportador.

Ao comentar sua passagem pela região, Espriella não mencionou o plano, mas demonstrou entusiasmo com o potencial agrícola encontrado nas propriedades que visitou.

“Não visitei apenas fazendas, plantações e projetos pecuários. Explorei uma visão para o país: uma Colômbia que volta a acreditar em seu campo, que aproveita seu imenso potencial e que entende que a verdadeira riqueza da nação nasce da terra”, escreveu em uma publicação na rede social X, o antigo Twitter.

Para Guilherme Scheffer, a chegada de Espriella ao comando do Executivo colombiano abre uma janela mais favorável para novos investimentos no país.

“A gente acredita que o novo presidente é muito mais, vamos dizer, ‘business friendly’. Independentemente se é direita ou esquerda, é muito mais amigável. Está atraindo muito capital, muito investidor e está com algumas propostas para dar mais segurança jurídica aos investidores, não só os internacionais, mas investidores em geral”, avalia.

A segurança jurídica, sobretudo em relação à propriedade da terra, é considerada um dos pontos centrais para que a Colômbia avance como fronteira agrícola.

Em diferentes regiões colombianas, ainda há informalidade na posse de propriedades rurais e um arcabouço fundiário que estabelece limites e condições para a exploração de determinadas áreas.

Entre os instrumentos existentes estão as Unidades Agrícolas Familiares (UAF), criadas para estabelecer a quantidade de terra considerada necessária para que uma família camponesa desenvolva sua atividade produtiva.

Na avaliação de Guilherme Scheffer, sem maior clareza sobre a titularidade das áreas, dificilmente haverá disposição para realizar investimentos de longo prazo.

“Se você não tem segurança do título da terra, você não investe. Você não investe num negócio que pode não ser seu, que você pode perder.”

Por isso, o executivo acompanha os sinais dados pelo novo governo de que pretende avançar na organização da política fundiária.

“Estão acontecendo alguns movimentos na Colômbia. É uma promessa dele [Espriella] desenvolver a agricultura da Colômbia. Precisa de segurança jurídica. Então, é uma coisa que a gente espera que aconteça.”

As primeiras diretrizes apresentadas pelo novo governo indicam que o tema entrou na agenda oficial. No mês passado, o Ministério da Agricultura colombiano anunciou cinco prioridades para os próximos anos, entre elas ampliar a produção agrícola, facilitar o acesso ao crédito, financiar mecanização e irrigação e reorganizar a política de terras.

Uma das metas anunciadas é incorporar 1,5 milhão de hectares à área produtiva nos próximos quatro anos. Outra é estabelecer um sistema especial para a região da Orinoquia, onde está a produção agrícola dos Scheffer no país.

“Temos cinco objetivos: educar, transferir conhecimento e capacitar os pequenos produtores para que façam as coisas da maneira correta e sejam lucrativos; aumentar a produção agrícola; substituir o sistema de crédito para que ele chegue aos pequenos produtores; financiar a mecanização e a irrigação a longo prazo; e organizar a política fundiária”, afirmou o ministro da Agricultura colombiano, Indalecio Dangond Baquero.

Para o Grupo Scheffer, o sucesso dessa agenda pode ser decisivo para determinar até onde irá a tentativa de repetir na Colômbia a trajetória construída pela família no Cerrado brasileiro.

Plantio atrasado em MT

Se na Colômbia o projeto ainda está começando a sair do papel, em Mato Grosso a rotina é bem diferente.

Por lá, o Grupo Scheffer já iniciou mais uma safra de grãos com planos de expansão e, até agora, sem grandes sobressaltos no campo – apesar de estar faltando chuva na região.

A área plantada da companhia deve crescer cerca de 10% neste ciclo, considerando a safra de verão e a safrinha, segundo Guilherme Scheffer. O executivo, porém, preferiu não revelar quantos hectares serão cultivados pela empresa nesta temporada.

O início do plantio do ciclo atual de soja começou com “certo” atraso em relação ao começo da semeadura na temporada 2025/2026, reconhece Scheffer, em função de menos chuvas generalizadas até o momento em comparação com o mesmo período do ano passado.

“No ano passado, nessa mesma época, o plantio estava em 35%. E, neste ano, está em uns 25%”, disse Scheffer. “Não está aquela chuva geralzona ainda. As chuvas estão ‘manchadas’, como a gente fala.”

Ainda é cedo para falar em produtividade, avalia Scheffer. “Quem fala em produtividade hoje está chutando”, diz. Mas o executivo já admite que, se as chuvas continuarem a não aparecer de forma generalizada sobre as lavouras, o plantio de milho de segunda safra poderá atrasar.

“Daqui a 15, 20 dias, se não chover geral, pode atrasar o plantio de milho. A segunda safrinha pode ficar um pouquinho fora da janela se continuar seco.”

Resumo

  • Grupo Scheffer quer saltar de 6 mil para 100 mil hectares de soja e milho na Colômbia em dez anos
  • Projeto apresentado ao novo presidente do país mira repetir a trajetória de MT no Brasil, mas depende de infraestrutura e segurança jurídica
  • Em Mato Grosso, grupo prevê ampliar em 10% a área plantada nesta safra, apesar do início mais lento das chuvas