A narrativa convencional sobre o agronegócio brasileiro costuma colocar o milho em posição de coadjuvante em relação à soja. A realidade, porém, aponta para um cenário mais complexo e repleto de oportunidades: o grão se tornou um dos eixos de uma transformação produtiva, industrial e energética no País, com conexões diretas com o desenvolvimento regional, a segurança energética e a sustentabilidade.

De cultura historicamente associada à subsistência e ao consumo regional, o cereal avançou para se consolidar como um sistema produtivo de alto valor agregado e estratégico para o Brasil no cenário macroeconômico.

Essa evolução se insere em um movimento mais amplo de ganhos de produtividade. Segundo o Economic Research Service, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, Brasil e China estão entre os líderes mundiais em crescimento da produtividade agrícola nas últimas décadas.

No caso específico do milho, dados do Ministério da Agricultura e Pecuária mostram que a produção brasileira saiu de cerca de 20 milhões de toneladas na década de 1970 para patamares superiores a 140 milhões de toneladas nas safras recentes.

Para o ciclo 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma colheita total de 140,5 milhões de toneladas, somadas as três safras — um dos maiores volumes da série histórica.

Essa evolução agronômica é fortemente impulsionada pelo aumento da demanda interna. Embora a alimentação animal ainda concentre a maior parte do consumo, o mercado doméstico vem registrando uma ascensão acelerada da indústria de etanol de milho.

Segundo projeção da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), a produção desse biocombustível deve passar de 791,43 milhões de litros na safra 2018/19 para 9,9 bilhões de litros em 2025/26, volume que já representa 22% da produção total de etanol do Brasil.

Com investimentos planejados de R$ 40 bilhões para a próxima década, segundo levantamento da Unem, o etanol de milho conecta diretamente a lavoura aos debates globais de descarbonização, transição energética, ESG e mobilidade limpa.

O impacto geográfico é igualmente relevante: a região de Sorriso, em Mato Grosso, já produz mais etanol do que a de Ribeirão Preto, em São Paulo, um dos pólos mais tradicionais da cana-de-açúcar no País.

Além de contribuir para a diversificação da matriz energética, essa atividade industrial eleva a rentabilidade das fazendas, pois converte o milho em energia renovável e gera subprodutos de alto valor proteico, usados na alimentação da pecuária intensiva de corte e leite.

Com isso, o grão passa a atuar também como elo direto na cadeia de valor da proteína animal, ajudando a amortecer pressões de preço sobre os produtores em períodos de maior oferta na colheita.

Para que todo esse potencial genético e industrial seja plenamente convertido em receita líquida e sustentabilidade financeira nas propriedades, o controle de perdas físicas e a preservação da qualidade dos grãos durante a colheita mecânica se tornaram fatores determinantes.

Isso vai além da produtividade: grãos íntegros, com menor índice de danos mecânicos e baixa presença de impurezas, contribuem para aumentar a eficiência do processamento industrial e o aproveitamento do amido, principal matéria-prima utilizada na produção do biocombustível.

Nesse contexto, a John Deere passou a oferecer no País a plataforma de milho CR, fabricada em Horizontina (RS), com versões de 12 a 27 linhas e integração às colheitadeiras inteligentes das séries S5, S7 e ao modelo de alta capacidade X9. A solução reúne uma série de recursos desenvolvidos para adaptar a operação em tempo real às variações da lavoura – resultando em alta qualidade de colheita e perdas mínimas.

Na prática, a tecnologia reduz a necessidade de ajustes manuais e ajuda a manter o fluxo constante de material, reduzindo perdas, danos aos grãos e oscilações operacionais em janelas de colheita cada vez mais estreitas. A plataforma também contribui para o manejo de resíduos com o processamento eficiente dos talos, reforçando o papel dos restos culturais na proteção da área e na eficiência do plantio direto.

A evolução da cultura do milho no Brasil reflete a maturidade de um setor que conecta diretamente a produção no campo às demandas globais por sustentabilidade, ESG e mobilidade limpa. Esse novo patamar, sustentado por recordes de produção e projeções de investimentos de grande escala, exige um monitoramento cada vez mais rigoroso da eficiência financeira das propriedades.

Portanto, o uso de alta tecnologia desempenha um papel fundamental: ao reduzir perdas físicas na colheita e aprimorar o manejo da palhada, a inovação no campo garante que o enorme potencial agronômico do grão seja plenamente convertido em rentabilidade estável e sustentável para o produtor.

Greta Griffante é gerente global de Marketing para colheita de grãos na John Deere.