Depois de uma primeira onda marcada por produtos formulados com microrganismos vivos, empresas do mercado de bioinsumos começam a avançar sobre uma fronteira mais sofisticada: o uso direto das moléculas produzidas por esses organismos nos produtos.
É nesse espaço que a Bioma, que faz parte do “ecossistema de biológicos” da Cogny, pretende também ganhar mercado.
Mais conhecida pelos inoculantes que produz, a companhia conseguiu recentemente junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária, o registro do primeiro biofungicida à base de metabólitos desenvolvido no Brasil, o Metabolic Protection, que agora está sendo lançado na 15ª edição do Congresso Andav, evento que reúne as empresas de insumos nesta semana, em São Paulo.
A principal diferença em relação aos biofungicidas microbiológicos tradicionais, segundo Luiz Felipe Fiorese, head de marketing e comunicação da Cogny, ao AgFeed, é que, ao invés de aplicar o microrganismo vivo e depender de sua colonização para que ele produza os metabólitos, a tecnologia da Bioma já entrega diretamente as moléculas bioativas de interesse agronômico para a planta.
“Desenvolvemos uma metodologia para estimular os microrganismos a produzirem os metabólitos de interesse agronômico e formulamos o produto diretamente com essas moléculas”, revela Fiorese.
Metabólitos são moléculas produzidas naturalmente pelos microrganismos vivos e que estão relacionadas a diversos efeitos biológicos de interesse para a agricultura.
O interessante é que, embora o Brasil tenha avançado no desenvolvimento de produtos microbiológicos formulados com fungos e bactérias vivos, a categoria de fungicidas baseada estritamente em metabólitos isolados é dominada por produtos estrangeiros. Agora há um competidor brasileiro nesse ringue.
A Bioma levou cinco anos no desenvolvimento da tecnologia, feito em parceria com a Orygen, empresa de pesquisa e desenvolvimento do grupo.
O processo resulta em um blend formado por cerca de 40 metabólitos. De acordo com Fiorese, mais de 20 apresentam ação direta contra os fungos, enquanto outros 17 induzem os mecanismos naturais de defesa da planta.
“Isso permite uma resposta mais rápida, maior flexibilidade de posicionamento no manejo e adiciona uma nova ferramenta aos programas de controle de doenças.”
Como o produto ainda está sendo lançado, a Bioma prefere não divulgar a quantidade de hectares que pretende atingir com a nova tecnologia, mas revela que vai dedicar, nesse primeiro momento, a distribuição do produto para a soja.
“A ideia é consolidar a tecnologia e ampliar sua adoção dentro dos programas de manejo”, diz Fiorese.
O executivo informa, no entanto, que a Bioma já identificou potencial para futuras expansões de registro em outras culturas, como feijão e algodão.
Além do lançamento de uma nova solução em si, o movimento representa uma tentativa de ampliar o campo de atuação da Bioma em um mercado crescente.
Entre os insumos biológicos, os biofungicidas foram a categoria com maior expansão em valor no País no ano passado.
O faturamento avançou 41% e atingiu R$ 1,4 bilhão. Além disso, a área tratada com essa tecnologia chegou a 26 milhões de hectares, alta de 37% em relação ao ano anterior.
Os dados são da CropLife Brasil, associação que reúne empresas de defensivos e biotecnologia.
Mas os dados ainda não distinguem os produtos formulados exclusivamente com metabólitos, indicando que esse segmento ainda está em uma etapa inicial de formação de mercado.
Mudanças na Cogny
Em paralelo às movimentações na Bioma, a Cogny também atravessa um 2026 de reorganização, com mudanças na estrutura comercial de seu ecossistema de empresas.
A estratégia é dar mais musculatura às equipes de vendas a partir das estruturas das duas principais marcas do grupo e, ao mesmo tempo, evitar a sobreposição de ofertas e representantes em uma mesma região — ou até diante de um mesmo cliente. Em alguns casos, as empresas do ecossistema atuam com linhas de produtos semelhantes.
Para isso, a Cogny dividiu o Brasil em duas áreas e passou a definir a atuação de cada marca de acordo com a região e o canal de venda.
A Simbiose, por exemplo, passou a responder pela venda direta das soluções de todo o ecossistema aos produtores rurais no Brasil Central. A Bioma, por sua vez, ficou responsável pelos negócios com distribuidores e cooperativas na mesma região.
A nova configuração comercial já começa a se refletir em acordos com outros players do setor. Durante a Agrishow, em maio deste ano, a Cogny anunciou uma parceria entre a Biojet, uma das empresas do ecossistema, e a AGCO, fabricante de máquinas agrícolas.
Especializada em equipamentos para aplicação de bioinsumos nas lavouras, a Biojet teve o pulverizador de sulco BJ 1000L homologado para operar embarcado na plantadeira Momentum, da AGCO.
Com a homologação, o equipamento passou a ser o único da categoria comercializado e recomendado pela rede de aproximadamente 400 concessionárias das marcas da AGCO no Brasil.
Em paralelo, uma alteração importante aconteceu nos bastidores da companhia. Jair Swarowsky, executivo que, desde março de 2025 atuava como vice-presidente comercial e de marketing da companhia, deixou a empresa há pouco mais de um mês.
A Cogny agora não tem mais o cargo de VP. Os cargos foram absorvidos por Luiz Felipe Fiorese e Derik Chamberlain, diretor comercial da companhia.
As bases deixadas por Swarowsky, no entanto, continuam. Além das mudanças comerciais que foram implementadas pelo antigo gestor, a companhia, por exemplo, segue focada em seu processo de internacionalização para países da América Latina, como Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai, e também para a Europa.
Resumo
- Bioma lança biofungicida à base de metabólitos após cinco anos de pesquisa e mira ampliar presença no mercado de biofungicidas
- Produto reúne cerca de 40 metabólitos e chega primeiro à soja, com planos de registro para culturas como feijão e algodão
- Tecnologia, até aqui utilizada apenas por multinacionais, foi totalmente desenvolvida no Brasil