Belo Horizonte (MG)* - A Arena MRV viveu uma noite diferente na última terça-feira, dia 22 de setembro. Em vez da bola rolando e das arquibancadas tomadas pela torcida do Atlético Mineiro, dono da cancha, o estádio recebeu um espetáculo de outro tipo, sob a regência da Koppert, um dos maiores players do mercado de insumos biológicos no Brasil.
Em um evento restrito a clientes, a companhia lançou oficialmente ali o biofungicida Macan, à base de bacillus velezensis, que é voltado ao controle da mancha-alvo, conhecida pelo nome técnico Corynespora cassiicola. Trata-se de uma doença foliar que aparece no algodão e outras culturas agrícolas como soja, milho e feijão.
O produto já vinha sendo apresentado desde junho para produtores de diferentes estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Tocantins, mas agora foi oficialmente colocado no mercado.
A relação entre o biofungicida e o evento em um estádio de futebol está no mote da campanha comercial do produto: “O fungicida que decide o jogo”.
“Ele decide mesmo o jogo, não é marketing. Qualquer cultura que tenha essa doença, a corynespora, pode usar esse produto para o combate”, afirma Rodrigo Rodrigues, diretor comercial da Koppert no Brasil, em entrevista ao AgFeed durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado nesta semana em Belo Horizonte (MG).
O Brasil é o primeiro país a receber o produto, que foi desenvolvido a partir de cepas estudadas na Universidade de Málaga, na Espanha. As pesquisas começaram em 2002. Ao todo, foram 23 anos de desenvolvimento para chegar às prateleiras.
A inserção do Macan deve contribuir para que a Koppert consiga crescer mais que o mercado este ano, missão que não vem sendo tão simples para a companhia.
Isso porque os produtores rurais têm jogado na retranca no processo de compra de insumos ao longo dos últimos meses, em uma tendência que também chegou ao mercado de produtos biológicos.
Na Koppert, esse movimento apareceu no adiamento das compras para a safra de grãos, que neste ano avançaram para agosto, às vésperas do início do plantio.
O cenário, porém, mudou nas últimas semanas, segundo Rodrigo Rodrigues. Com a recuperação dos preços da soja e a chegada das primeiras chuvas em algumas das principais regiões produtoras, o humor do agricultor melhorou e trouxe uma retomada das negociações.
“Os últimos 30 dias para nós têm sido muito bons. O humor do agricultor mudou positivamente, com esse cenário mudando também positivamente para ele”, diz Rodrigues.
Historicamente, explica o executivo, os produtores médios costumam fechar as compras entre abril e maio, no máximo até junho. Já os menores aguardam mais. “Ficam, eventualmente, esperando alguma oscilação do mercado e costumam fechar, realmente, um pouco mais próximo da safra.”
Neste ano, no entanto, a indefinição em relação aos preços das commodities, ao clima e às condições de mercado levou parte dos agricultores a esperar mais para se posicionar. A expectativa de influência do El Niño também contribuiu para a cautela.
“O produtor fica esperando quase que o último momento, aguardando com que as indústrias em geral ali vão reduzir um pouco o preço para ele comprar na melhor circunstância”, diz.
Com as vendas finalmente deslanchando, a expectativa da Koppert é de incrementar o faturamento, que foi de cerca de R$ 900 milhões, em 15% neste ano, segundo Rodrigues.
“Prevemos que seja uma expansão acima do crescimento esperado para o mercado brasileiro de biológicos, que deve crescer 11% e 12% este ano”, diz o executivo.
Com o Macan, a companhia também planeja aumentar a penetração da empresa no cultivo de algodão.
Embora a cultura já esteja entre as quatro principais em faturamento, a Koppert vê espaço para ampliar a presença em regiões produtoras, especialmente com a chegada dos novos produtos.
Rodrigues conta que, até quatro anos atrás, soja, milho, cana-de-açúcar e algodão eram as principais culturas em termos de faturamento.
“Mas, como nos últimos dois ou três anos, a pressão da cigarrinha reduziu, hoje a ordem é soja, cana, milho e algodão”, enumera o executivo.
“Com essas novas tecnologias, vamos criar uma estratégia para ter um acesso mais direcionado ao algodão e levar mais dessa linha para a cultura.”
Questionado pelo AgFeed se o avanço do mercado de biológicos não estaria levando a uma espécie de “commoditização” do setor, com a proliferação de empresas e produtos semelhantes, Rodrigues rejeitou essa leitura.
Para ele, o aumento da oferta não significa necessariamente uma perda de diferenciação, mas expõe uma divisão cada vez mais clara entre empresas que ampliam o portfólio e aquelas que apostam em inovação para se destacar.
“O que está acontecendo é uma popularização de fato. Os insumos biológicos estão mais acessíveis para o agricultor e disponíveis em maior quantidade, seja pelo aumento do número de empresas, seja pela oferta de diferentes ativos biológicos”, afirma.
O executivo reconhece que a concorrência aumentou, mas argumenta que parte desse movimento ocorre sem uma ampliação proporcional da inovação. É justamente nesse ponto que, segundo ele, a Koppert busca se diferenciar.
“O número de concorrentes aumentou muito, mas são muitas empresas fazendo mais do mesmo. Você não tem empresas como a Koppert, trazendo inovação. Todo ano, nós lançamos pelo menos um produto novo no mercado. Isso você não vê por aí”, ressalta.
A operação brasileira da Koppert é hoje uma das maiores da multinacional holandesa. Atualmente, a filial passa por uma transformação interna, iniciada no ano passado, com o objetivo de preparar a estrutura para a entrada de um novo sócio-investidor.
Em agosto de 2025, a Koppert entregou ao Itaú BBA um mandato para selecionar esse investidor, que aportaria um montante estimado em 100 milhões de euros (cerca de R$ 600 milhões, no câmbio atual) na operação brasileira da Koppert.
No final do ano passado, o Itaú BBA fez uma seleção de cerca de 20 potenciais investidores, que, a partir da assinatura de termos de confidencialidade, receberam os prospectos com as informações preliminares sobre a Koppert e seus planos – inclusive um pacote de dados que permitem fazer uma primeira avaliação financeira do valor do negócio.
*O repórter viajou a convite da Abrapa
Resumo
- Koppert lança biofungicida inédito para controle da mancha-alvo em diferentes culturas
- Companhia espera crescer 15% no Brasil, acima da expansão projetada para o mercado de insumos biológicos
- Novo produto reforça a estratégia de inovação e expansão da Koppert, especialmente na cultura do algodão