Belo Horizonte (MG)* - Os preços mais baixos da soja, associados aos custos de produção mais altos ao longo do último ano, comprimiram as margens de produtores de todos os tamanho e de diferentes partes do Brasil.

Na Natter, grupo agrícola de Mato Grosso que opera 50 mil hectares no Estado considerando safra e safrinha, não foi diferente. Na empresa comandada por Rafael Bortoli, sobrinho de Eraí Maggi Scheffer, fundador do Grupo Bom Futuro, um dos maiores operadores agrícolas do Brasil, a combinação de preços mais baixos e custos elevados trouxe problemas de rentabilidade para a produção de soja e do milho na última safra.

“Praticamente a gente não está tendo margem. Soja e milho não estão dando margem para o resultado, em função dos preços baixos, custos elevados”, revelou Bortoli ao AgFeed esta semana, durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em Belo Horizonte (MG). “Na última safra a gente fechou média de R$ 108 o saco de soja.”

Para a safra 2026/2027, a empresa deve ampliar a área de soja de cerca de 30 mil para 32,4 mil hectares, aumento de aproximadamente 8%, em função principalmente da disponibilidade de áreas de arrendamento próximas às operações já existentes em Mato Grosso, explica Bortoli.

A expectativa do empresário é de que, agora, as margens voltem a ficar positivas. “Se a soja reagir mais do que já reagiu – e hoje a gente já consegue algo em torno de R$ 120, R$ 130 dependendo da região para o ano que vem - a gente consegue ter um retorno financeiro”, diz Bortoli, que prevê ainda nesta safra o plantio de cerca de 15 mil hectares de milho e 1,5 mil hectares de algodão.

O interessante é que, mesmo diante de um cenário bastante desafiador no negócio agrícola, a Natter deve encerrar 2026 com crescimento de cerca de 20% no faturamento, que deve superar R$ 400 milhões, segundo Bortoli.

O que explica, então, esse resultado? A diversificação das operações.

Afinal, a Natter não se restringe aos cerca de 50 mil hectares cultivados com soja, milho e algodão, considerando safra e safrinha.

A empresa hoje também produz tilápias, comercializadas sob a marca Saciatta, e fabrica biofertilizantes, que levam o rótulo Ambios.

“É o negócio de tilápia e a Ambios que estão puxando os resultados para cima este ano”, resume Bortoli. “Até porque esses negócios tem um bom espaço para crescimento”.

A estratégia por trás dos dois negócios passa por um conceito que a companhia tenta aplicar a diferentes áreas da operação: a economia circular.

A empresa produz os alevinos, que são levados aos tanques e transformados em tilápias. Depois, os peixes são abatidos em frigorífico próprio, e os resíduos do processamento são aproveitados como matéria-prima para a fabricação dos biofertilizantes da Ambios.

Os produtos, por sua vez, retornam às lavouras da Natter, onde são utilizados no manejo do solo e das plantas. O resultado das lavouras volta para dentro da própria operação, na forma de grãos que ajudam a alimentar os peixes e o rebanho bovino da companhia. “É economia circular na veia”, diz Bortoli.

Ambios ganha espaço

A Ambios ainda representa uma fatia pequena do faturamento da Natter. Neste ano, por exemplo, deve responder por cerca de 8% da receita consolidada, o que corresponderia a aproximadamente R$ 32 milhões – considerando que a receita fique em R$ 400 milhões neste ano.

“Só que a expectativa é de chegarmos a R$ 100 milhões de faturamento daqui a três anos”, projeta o empresário.

Entre 2017 e 2021, a produção de fertilizante da Ambios atendia apenas as áreas agrícolas da Natter e nasceu a partir de uma necessidade interna: desenvolver produtos capazes de melhorar a eficiência das lavouras e reduzir a dependência de insumos químicos.

A vantagem competitiva da companhia em relação a outras do mercado, nota Bortoli, está no fato de que a Ambios pode utilizar a própria área agrícola como campo de testes.

“É como se a gente tivesse um campo experimental de teste dos nossos produtos numa área muito grande, que é algo que nenhuma empresa tem”, afirma.

Agora, a lógica é transformar uma vantagem operacional – a possibilidade de testar as tecnologias em milhares de hectares próprios – em uma nova fonte de receita. E é justamente essa transição que a Ambios começa a fazer agora.

Durante o Congresso Brasileiro do Algodão, por exemplo, a empresa apresentou ao mercado o Regenesis, um protocolo desenvolvido especificamente para a cultura do algodão.

Esse programa reúne três linhas de produtos: Marin Deep, voltado ao condicionamento da atividade biológica do solo, Marin Prime, direcionado ao equilíbrio fisiológico das plantas, e Ingrow, um bioativador natural.

A proposta é que o produtor consiga utilizar diferentes produtos em conjunto, em vez de tratar cada solução de forma isolada.

A promessa da Ambios é de que esse protocolo possa substituir cerca de 15% do que é gasto com outros insumos tradicionais utilizados na agricultura.

Em áreas de soja conduzidas na safra 2025/2026, a empresa relata que a produção que utilizou os insumos produzidos pela Ambios registraram incrementos de, em média, cinco sacas por hectare em comparação aos manejos convencionais.

A tecnologia para o algodão começou a ser desenvolvida há dois anos, diz Bortoli. “Já estávamos validando na safra, dentro das nossas unidades e também no campo, na nossa vitrine biotecnológica que a gente tem lá em Mato Grosso”, conta Bortoli.

Apesar de o principal mercado ainda ser Mato Grosso, a Ambios trabalha para avançar também em Goiás, Bahia, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, além de outros mercados onde a empresa já mantém presença comercial.

“Hoje a gente já está com um time bom no mercado, já tem uma estrutura comercial para conseguir atingir esse público”, afirma Bortoli.

Além do algodão, Bortoli enxerga na pecuária outra oportunidade de crescimento para a Ambios, especialmente com o uso de biofertilizantes no manejo das pastagens.

“No nosso produto principal, a base, que é o Ingrow, a gente consegue ter um incremento de quase 20% da produção de matéria verde. É muito alto.”

O ganho permite melhorar o manejo rotacionado das pastagens e aumentar a capacidade de suporte das áreas, medida em unidades animais (UA) por hectare.

A estratégia também beneficia a própria Natter, que possui um rebanho de aproximadamente 15 mil cabeças de gado e pretende ampliar a atividade por meio da integração lavoura-pecuária.

Tilápia também acelera

Uma outra frente que ajuda a explicar o crescimento da Natter é a piscicultura. No ano passado, a empresa produziu cerca de 3,7 mil toneladas de tilápia e, agora, pretende chegar a 6 mil toneladas em 2026. “E, para o próximo ano, a expectativa é superar 7 mil toneladas”, conta Bortoli.

A produção está concentrada em dois frigoríficos de peixes próximos ao município de Campo Verde (MT), cuja capacidade total é de aproximadamente 8 mil toneladas anuais.

O aumento na produção se explica porque a Natter fez melhorias como a introdução de tanques escavados com aeração, no qual a água rica em matéria orgânica recebe oxigênio de forma contínua para alimentar microrganismos benéficos, contribuindo com a produtividade.

“Sem aeração a gente já tem um fluxo bom de água, a gente consegue ter um número bom de peixe por metro quadrado, mas, com a aeração, a gente consegue mais do que dobrar na mesma área”, explica Bortoli.

Com maior densidade de peixes nos tanques, a companhia também consegue entregar animais maiores ao frigorífico, elevando o rendimento da operação industrial sem aumentar na mesma proporção a estrutura necessária.

Bortoli explica que o breakeven da operação de tilápias fica próximo das 25 toneladas por dia. “E a gente já está chegando nessas 25 toneladas por dia de produção. Já começamos a entrar no ponto de equilíbrio e trazer margem positiva para o negócio.”

Os principais mercados da tilápia produzida pela Natter são Mato Grosso e também Brasília e Distrito Federal. A presença dos produtos da Natter chega a São Paulo, mercado onde a empresa tem mais dificuldade de penetração em função da forte concorrência vinda do Sul do Brasil – o Paraná é o maior produtor de tilápias do Brasil.

“As grandes cooperativas do Paraná e do Sul do Brasil suprem muito bem São Paulo. A gente tem um mercado muito competitivo ali”, avalia.

Por ora, a ideia é ampliar o market share em Mato Grosso. Hoje, Bortoli avalia que 30% do mercado de tilápias local corresponde aos produtos da Saciatta, marca do grupo. “Queremos aumentar a nossa margem de participação do mercado em Mato Grosso.”

Brinde com vinho

A diversificação da Natter também ultrapassou as fronteiras de Mato Grosso e chegou ao Rio Grande do Sul, de onde vem parte das raízes da família Bortoli.

Em Lajeadinho, comunidade próxima ao município de Veranópolis, na Serra Gaúcha, o grupo mantém a Vinuta, uma vinícola idealizada pelo pai de Rafael, José Maria Bortoli, o Zeca Bortoli, que aposta em uma produção de pequena escala, mas de maior valor agregado.

“A gente buscou o que tem de mais moderno hoje em tecnologia para fazer vinho de qualidade”, conta Bortoli. Atualmente, a Vinuta conta com vinhos tintos e espumantes, produzidos a partir de variedades como Malbec, Merlot, Pinot Noir, Tannat e Chardonnay.

As uvas são adquiridas de produtores selecionados de diferentes regiões do Rio Grande do Sul, incluindo Pinto Bandeira e a Campanha Gaúcha, importantes pólos da vitivinicultura local.

“A gente sempre ouve falar que o Brasil não é tão bom pra produção de vinho. Mas isso é mito. Na verdade, é só fazer o manejo certo e você ter o cuidado certo na hora da colheita, colhendo no tempo certo e esperar ela chegar na graduação correta de grau brix”, avalia Bortoli.

Com uma uva com maior grau de brix, há melhor qualidade de fermentação, explica o empresário. “E, assim, você consegue fazer um vinho top de qualidade. Tenho muita convicção que a gente vai brigar de frente com os melhores vinhos chilenos e com os melhores vinhos argentinos.”

Mas a intenção é começar a produzir a própria matéria-prima. Os primeiros parreirais foram implantados este ano. “E a gente vai começar a produzir nossa própria uva daqui uns quatro anos”, estima Bortoli.

A operação também funciona como mais uma vitrine para a Ambios, avalia o empresário. Os produtos de biotecnologia desenvolvidos pela empresa são utilizados no manejo dos vinhedos, conectando a atividade vitivinícola aos demais negócios do grupo.

A Vinuta já comercializa seus rótulos no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso, onde mantém um centro de distribuição. O próximo passo é ampliar a presença em mercados como São Paulo, sem necessariamente aumentar a escala da produção.

“Nós não queremos ser um negócio muito grande. O nosso negócio é um ateliê no vinho: pouca unidade, mas muito bem feito”, afirma Bortoli.

*O repórter viajou a convite da Abrapa

Resumo

  • Grupo Natter deve ter crescimento de 20% em faturamento, somando mais de R$ 400 milhões
  • Resultado positivo deve ser puxado pela diversificação para setores como piscicultura e biofertilizantes
  • Margens de soja e milho foram afetadas negativamente pelos preços mais baixos dos grãos