Belo Horizonte (MG)* - Os produtores brasileiros de algodão estão reforçando a artilharia na disputa com o poliéster, fibra sintética derivada do petróleo que hoje domina a produção têxtil global.
Desta vez, a estratégia é colocar os microplásticos no centro do debate, associando a valorização das fibras naturais às preocupações ambientais e de saúde pública.
É com esse discurso que a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) lançou, nesta quinta-feira, 24 de setembro, o movimento "Microplástico é o fim da linha", durante a 15ª edição do Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em Belo Horizonte (MG).
A campanha busca conscientizar os consumidores sobre a presença de microplásticos no cotidiano e seus possíveis impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente.
Ao mesmo tempo, pretende estimular escolhas de consumo mais conscientes e defender políticas públicas capazes de estimular a valorização das fibras naturais pela indústria têxtil.
Para Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa, a questão vai além da disputa comercial entre o algodão e seus concorrentes sintéticos e deve ser tratada também como um problema de saúde pública.
"[O microplástico] contamina o meio ambiente e contamina as pessoas. Estamos aqui fazendo o lançamento dessa campanha para que venham políticas públicas que defendam o uso da fibra natural de algodão em prol da saúde humana", afirmou Piccoli em entrevista coletiva a jornalistas.
Para embasar sua tese, a Abrapa menciona que uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com a Universidade Livre de Berlim, por exemplo, identificou fibras e partículas de microplásticos no cérebro humano.
De acordo com a FMUSP, a pesquisa identificou fibras e partículas de microplásticos em oito de 15 amostras coletadas dos cérebros de 15 pessoas falecidas, que residiam em São Paulo. O plástico mais comum encontrado foi o polipropileno, usado especialmente em roupas, embalagens de alimentos e garrafas.
A Abrapa, no entanto, admite que possíveis efeitos dessa exposição à saúde ainda estão sob análise, sem permitir, por ora, uma conclusão definitiva sobre os efeitos do microplástico no corpo humano.
“A identificação de microplásticos no organismo ou de associações com determinados desfechos não significa, por si só, comprovar causalidade. As evidências existentes reforçam a necessidade de atenção, pesquisa e prevenção”, avalia a Abrapa.
De acordo com Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa, uma das primeiras frentes do movimento será a conscientização dos consumidores, incentivando a leitura das etiquetas das roupas e a preferência por peças produzidas com fibras naturais.
“[Queremos] fazer um alerta à sociedade que olhem na etiqueta quando vão comprar suas roupas. Usem roupas que contenham fibra natural de algodão, porque senão, fibras sintéticas estarão fazendo mal à sua saúde”, disse Piccoli.
Em paralelo, a Abrapa pretende estimular pesquisas científicas sobre os efeitos dos microplásticos e defender a criação de políticas públicas que incentivem o uso do algodão.
O movimento já nasce com a participação de entidades ligadas a outras fibras naturais. Além da Abrapa, integram a iniciativa a Ayraa Eco Friendly, a Associação Brasileira de Criadores de Corriedale (ABCC), a Associação Brasileira de Criadores de Merino Australiano (ABCMA), a Associação Brasileira de Criadores de Ideal (ABCI) e a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos Naturalmente Coloridos (ABCONC).
Apesar de a proposta almejar a mobilização de toda a cadeia, porém, o movimento ainda não conta com a participação formal de varejistas e indústrias de confecção, justamente alguns dos principais atores envolvidos na definição das matérias-primas utilizadas nas roupas que chegam ao consumidor.
A ausência chama a atenção porque, pouco antes do lançamento da campanha, representantes de duas grandes empresas do setor, Lojas Renner e Dudalina, marca pertencente à Veste S.A., participaram de um painel sobre sustentabilidade no próprio Congresso Brasileiro do Algodão. Renata Viacava, diretora de marcas da Veste, também acompanhou o lançamento do movimento.
Para a executiva, a proposta da campanha está alinhada à estratégia da Dudalina, que, segundo ela, já utiliza algodão na composição de 71% de seus produtos.
"Essa é uma exigência do nosso cliente, que busca por qualidade, ao mesmo tempo que o algodão se conecta muito com o nosso clima aqui no Brasil. Ele possui controle térmico, durabilidade e sofisticação", afirmou Viacava ao AgFeed.
Questionado pelo AgFeed sobre a participação dessas empresas na iniciativa, Piccoli afirmou que a intenção é ampliar gradualmente a adesão à campanha, incorporando outros elos da cadeia produtiva. “É um movimento que a gente está lançando aqui para agregar toda a sociedade organizada”, disse.
O presidente da Abrapa destacou que tanto a Renner quanto a Dudalina já utilizam algodão brasileiro em suas confecções e conhecem a qualidade e a disponibilidade da fibra produzida no País.
"São empresas que usam muito algodão brasileiro em suas confecções e gostam do que usam, sabem que o algodão brasileiro tem qualidade, que nós temos matéria-prima suficiente para atender à demanda da indústria têxtil nacional e internacional", afirmou.
"Convidaremos outras empresas, toda a sociedade, para se engajar nesse movimento em prol da fibra natural do algodão brasileiro", concluiu Piccoli.
*O repórter viajou a convite da Abrapa
Resumo
- Abrapa lança campanha para debate sobre uso de microplásticos por consumidores e indústria
- Movimento quer ampliar pesquisas sobre os impactos dos microplásticos no meio ambiente e saúde pública
- Ideia é também conscientizar público geral sobre a escolha das fibras