O algodão brasileiro se prepara para retomar o fôlego. Após uma safra em que a rentabilidade quase desapareceu e a área plantada foi reduzida, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Gustavo Piccoli, projeta um próximo ciclo de recuperação.
A entidade espera uma ampliação na área plantada na safra 2026/2027 em relação à anterior. "Devemos ter um incremento de 8 a 10% de área plantada na safra 26/27 ", previu Piccoli em entrevista ao SpeedCast, série do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte.
O otimismo, porém, vem com ressalvas. "Isso não significa que teremos aumento de produção. Aí depende de alguns fatores, principalmente no ano de El Niño."
O movimento pode marcar a virada de um ciclo difícil. Segundo o presidente da Abrapa, a safra passada foi de preços baixos e rentabilidade quase inexistente no setor, o que levou a uma redução de 8% na área plantada da safra anterior para a 2025/2026.
Ainda assim, ressaltou, o produtor compensou com o manejo adequado dos cultivos. "Tivemos a felicidade e a competência do produtor de termos aumento de produtividade. Então, esta safra, mesmo plantando um pouco menos que a anterior, nós vamos ter uma produtividade e uma produção maior."
Agora, com os preços indicando "uma rentabilidade um pouco melhor", o agricultor volta a se animar, segundo Piccoli. "Isso faz com que o agricultor retome os níveis de área que tinha há dois anos atrás", explicou.
A retomada, de acordo com ele, deve ocorrer basicamente em áreas que já foram plantadas com algodão e foram abandonadas no ciclo passado por causa da rentabilidade ruim.
Piccoli salientou que o algodão exige alto investimento em algodoeiras e tecnologia, o que torna improvável uma onda de novos entrantes no momento de custos elevados.
Incertezas no radar
Apesar da projeção positiva, Piccoli listou os fatores que mantêm o setor em alerta para a próxima safra, como a continuidade da guerra e da tensão geopolítica, os fertilizantes ainda com preços muito altos e o impacto do petróleo sobre outros elos da produção.
"A gente vê com um pouco de apreensão a próxima safra", admitiu, citando ainda o clima e o El Niño.
Sobre o fenômeno climático, porém, o presidente da Abrapa relativizou o risco para a cultura. "Eu diria que o algodão talvez seja a cultura em que ele tenha menos impacto", afirmou, explicando que o algodão é plantado no Centro-Oeste e no Nordeste, regiões menos expostas ao excesso de chuva.
"O algodão é uma cultura que não requer muita chuva. Então, a gente acredita que na maioria das regiões onde se planta algodão não terá impacto do clima. Terá um impacto de neutralidade, o que favorece a cultura do algodão."
No uso de tecnologia, a aposta é de manutenção do padrão. "O produtor de algodão é um produtor muito tecnificado", destacou Piccoli, que aproveitou o Congresso para alertar os produtores sobre a necessidade de "uma gestão precisa do seu custo de produção".
"A gente sabe que o produtor de algodão só planta algodão se for para fazer bem feito. Então, nós temos certeza de que quem plantar algodão vai usar toda a tecnologia disponível para ter o máximo de produtividade e qualidade."
A pauta que vai além da porteira
A entrevista também trouxe as prioridades que a Abrapa levou ao debate público, incluindo uma carta aberta aos presidenciáveis. Entre as demandas feitas no documento, encaminhado aos candidatos nas eleições presidenciais de outubro, Piccoli citou segurança jurídica, mais investimento em logística para ganhar competitividade nas exportações, desregulamentação e simplificação de processos, além de seguro rural e juros mais baratos.
"Cada vez mais, são muitas as demandas. Nós precisamos discutir a cadeia como um todo para viabilizar e dar sustentabilidade econômica à cultura do algodão."
O presidente da Abrapa também defendeu uma indústria têxtil nacional mais forte. "Hoje, do que nós produzimos, menos de 30% é consumido no País. O resto é exportado, o que é muito bom, mas também seria muito bom se tivesse uma indústria nacional mais forte."
Sobre a competitividade da indústria local, Piccoli foi direto. " A indústria continua tendo problema dos juros muito altos, da concorrência com os importados", afirmou, citando ainda a chamada "taxa das blusinhas" e a competição com as fibras sintéticas.
Foi nesse ponto que o presidente da Abrapa trouxe o argumento que o setor quer levar à sociedade: a defesa da fibra natural. "Estamos levando para a sociedade a oportunidade de saber o que ela está usando", disse, citando estudos científicos que apontam prejuízos das fibras sintéticas, hoje as principais concorrentes do algodão no mercado global, à saúde humana e ao meio ambiente.
"Quando vai comprar a sua roupa, o seu tecido, olhe a etiqueta e consuma produto que tenha fibra natural de algodão brasileiro", sugeriu ele aos consumidores. Para Piccoli, a fibra natural é sustentável e biodegradável, "não tem por que não usar ".
Para fechar a entrevista, o presidente da Abrapa não escondeu a confiança no potencial da cultura. "O algodão brasileiro tem um futuro enorme pela frente ", afirmou. Segundo ele, as fibras sintéticas "soltam microplásticos, que fazem mal à saúde humana", e, na onda de sustentabilidade e cuidado com a saúde, Piccoli vê espaço para crescer.
"Nós temos terra, temos solo, temos produtor tecnificado, temos condições tranquilas de atender a demanda mundial do algodão", concluiu.