A Bahia está vivendo uma transformação acelerada na sua cotonicultura. Em entrevista à série SpeedCast – promovida pelo AgFeed em parceria com a AgriConnection e gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte – a presidente da Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra Zanotto Costa, revelou que a área de algodão irrigado no estado está prestes a se tornar maioria.
"A gente está alcançando quase 50% da área hoje de algodão irrigado e devemos ultrapassar na próxima safra", afirmou. "É uma nova realidade, é um novo modelo de cultivo em que o estado vem se destacando."
Três ou quatro anos atrás, contou, esse percentual girava em torno de 20% a 25%. Segundo ela, o salto se consolidou principalmente nas duas últimas safras, com um aumento considerável na safra 2025/2026.
"A Bahia vem se consolidando, hoje é o estado que mais irriga na agricultura no Brasil, ultrapassou inclusive Minas Gerais, que se destacava, e a cultura que deu esse chamado ao irrigado, com certeza, foi o algodão", destacou a dirigente.
A corrida pela irrigação tem, de acordo com Zanotto Costa, fundamentos bem claros. "O primeiro ponto é a disponibilidade hídrica", disse. "A gente tem um aquífero que atende, e tem hoje uma sobra de recurso de água para fornecer", explicou.
Há também, na sua visão, um fator humano relevante. "Eu acredito muito que a irrigação é uma vocação. Essa vocação vai passando de um para o outro, de um vizinho para o outro, de uma geração para outra."
A disponibilidade de energia e o crédito completam o pacote de condições que, segundo ela, levam o produtor a buscar a alternativa.
Mas a questão decisiva é outra. "Não podemos desconsiderar o principal aditivo da irrigação, que é a mitigação do risco climático", afirma a presidente. Com as incertezas climáticas que marcaram as últimas safras, a capacidade de garantir água ao cultivo virou questão de sobrevivência econômica.
O modelo baiano tem uma particularidade técnica, apontou a presidente da Abapa. "A grande maioria da área hoje irrigada na Bahia, a gente chama de irrigação de salvamento", disse Zanotto Costa.
E explicou: "Não é aquela irrigação que substitui completamente o regime de chuva, da necessidade da planta. Há áreas que sim, mas a grande maioria não." Segundo ela, na prática a irrigação funciona como um seguro contra os períodos de veranico e irregularidades pluviométricas e não como substituição total da chuva.
Por isso, pontuou, "ainda é preciso ter um olhar para essa mitigação, para as questões climáticas".
A expansão irrigada, contudo, tem um custo fitossanitário. A irrigação, combinada com a rotação de culturas que o produtor baiano adotou como estratégia de construção de solo, cria condições para a proliferação de pragas e doenças. "Essa rotação de culturas provoca, sim, um aumento de pragas e doenças, uma proliferação mais aguda. E isso tem acontecido", admitiu a produtora, para então exemplificar.
"Eu brinco que foi a época em que a nossa principal praga, a praga que mais preocupava, era o bicudo. Hoje a gente tem a mosca branca, que é uma praga que ataca outras culturas, a soja, o milho, e ela vem podendo trazer prejuízos consideráveis ao algodão, principalmente em relação à qualidade", disse.
O desafio, para ela, exige que a pesquisa caminhe "junto, ao lado dos produtores". E é exatamente isso que eventos como o Congresso Brasileiro do Algodão proporcionam, com empresas de manejo e produtos conectadas ao campo. "Estar muito bem conectados é importante pra sustentabilidade da cultura", resume.
Expansão
Olhando para a próxima safra, a expectativa da Abapa é de continuidade da expansão irrigada. "A gente prevê um aumento do irrigado. A gente ainda não tem certeza sobre a continuidade da área no sequeiro, muito em função também das perspectivas de El Niño", afirmou Zanotto Costa. "Mas a gente acredita, até como informação da associação, que a área geral deve se manter."
O padrão já se repetiu no último ciclo. "Teve um pouco de crescimento, com Uma redução no sequeiro e o aumento no irrigado", lembrou.
A decisão de ampliar a área, a seu ver, tornou-se cada vez mais individual. "O produtor está olhando bem para sua gestão, para os seus negócios, olhando para dentro de casa", explicou a presidente.
O cenário de mercado, admitiu, é de incerteza. "A gente sente falta de uma previsibilidade de demanda até pra que a gente possa entender que o preço da commodity possa continuar sendo favorável, trazendo o mínimo de margem que a gente precisa", afirmou. "É dia após dia", resumiu, citando ainda as questões geopolíticas que atravessam o negócio.
Na prática, isso significa um recuo nos investimentos pesados. "No âmbito de máquinas e investimentos nesse porte, acredito que não. É um momento realmente de recuar, de segurar, do produtor trabalhar com a infraestrutura que ele já tem", disse.
Mas há, na sua visão, uma linha que o cotonicultor não ultrapassa nesse sentido. "Não se pode pensar em corte de tecnologia no campo, como manejo, tecnologias de semente específicas para aquela fazenda, para aquela região".
A atenção se desloca, então, para a mitigação de risco, dentro e fora da porteira, com o produtor buscando, por exemplo, tecnologias de comercialização, proteção de preço, “para poder garantir o mínimo de margem".
Para fechar, a visão de Zanotto Costa sobre o algodão brasileiro é de confiança com responsabilidade. "Eu vejo o algodão brasileiro com muitas oportunidades. O Brasil se consolidou como o maior exportador e agora ele tem um desafio de se manter nessa posição. E é possível se manter com qualidade, com transparência e com rastreabilidade, que é o que a gente já faz, mas precisa cada vez fazer mais e melhor", concluiu a presidente da Abapa.
A trajetória pessoal da dirigente, aliás, espelha a transformação do setor. Filha de produtor que planta algodão desde 2000, ela está no negócio há 20 anos e é a segunda mulher a presidir a Abapa — e a primeira da segunda geração. "A segunda geração já vem liderando o setor, não só na Bahia, mas acredito que no Brasil inteiro", destacou.