O mercado de algodão vem comemorando a recuperação dos preços da commodity, puxada em boa parte pela alta do petróleo. Mas a inflação provocada pela elevação dos preços dos combustíveis nos principais mercados consumidores, pode gerar um efeito colateral prejudicial ao setor.
O alerta é do diretor da área de algodão da ADM, Alex Kurre, em entrevista à série SpeedCast, produzida pelo AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte.
Segundo Kurre, o mesmo petróleo que sustenta a cotação da pluma no curto prazo pode, pela via da inflação, derrubar o consumo têxtil global. E, por consequência, a demanda pelo algodão brasileiro.
A lógica do executivo começa com o que todos já veem. "O lado positivo é que o poliéster fica mais caro. Então, isso é favorável para o algodão", resumiu Kurre. A fibra sintética, produzida a partir do petróleo, é a concorrente direta da pluma, e o barril caro a encarece, deslocando demanda para o produto natural.
O problema, porém, está em um ponto que o executivo diz não ser "tão fácil" de ver. O petróleo mais caro já tem reflexo nos Estados Unidos e na Europa, os dois principais mercados têxteis do mundo, trazendo a inflação de volta.
E, segundo ele, quando a carestia aperta o orçamento do consumidor. "Com a inflação, o têxtil é o primeiro a ser prejudicado, vamos dizer, porque você vai pagar sua conta de alimentos, serviços, celular. Por último, vem o têxtil, a roupa", analisou.
Para Kurre, a decisão do consumidor, cabe em uma pergunta simples: "Fico com mais um ano essa calça jeans ou não? Vou comprar uma roupa nova ou não?". É esse comportamento de adiamento de compra, com a renovação menos frequente do guarda-roupa, que representa o risco de demanda para o algodão, justamente no momento em que a oferta brasileira cresce a cada safra.
O meio termo saudável
O movimento recente da cotação ilustra o desequilíbrio que preocupa o executivo. O contrato de dezembro/26 chegou a tocar US$ 0,94 por libra/peso e já recuou para a casa de US$ 0,85 a 0,87. "O US$ 0,94 começa a ser inviável para a indústria", disse Kurre.
Na ponta oposta, o cenário também não se sustenta. "O algodão a US$ 0,50 é ótimo para a indústria, entre aspas, mas você prejudica o lado produtor".
A saída, para ele, está no equilíbrio. "A gente tem que começar a achar um meio termo onde fique saudável, não só para o produtor, mas também para a indústria. O algodão muito para cima prejudica a indústria e acaba embolando um pouco esse meio campo", afirmou.
A cautela com a demanda já se reflete na postura comercial da ADM. O executivo explica que a trading não tem meta fixa de volume e prefere "navegar de acordo com o que a gente está sentindo na contraparte", evitando "dar um tiro no escuro".
"A preocupação da demanda existe. Então, a gente vai um pouco no lado seguro da operação, para depois não ter que fazer muito malabarismo", disse.
A aposta da ADM
O alerta sobre a inflação não muda, porém, a tese da ADM sobre o Brasil no mercado de algodão. A trading americana, que começou a atuar no segmento no Brasil fazendo barter há 15 anos, hoje origina entre 60% e 70% do seu volume global no País, bem à frente de países tradicionais na produção da pluma, como Austrália e Estados Unidos.
"A ideia é continuar apostando aqui no Brasil", disse Kurre. O País, explicou, tem uma vantagem estrutural na escala e na flexibilidade da produção. O executivo lembrou que a Austrália depende de água para irrigação e os Estados Unidos têm suas limitações.
Já no Brasil, a produção é majoritariamente de sequeiro e pode ser ampliada rapidamente caso o mercado demande. "Se o produtor do Mato Grosso quiser virar a chave e falar 'olha, quero plantar mais 200 mil, 300 mil hectares', ele vira e tem capacidade para isso", pontuou.
Para a próxima safra, a expectativa do executivo é que o Brasil produza algo entre 4 milhões e 4,5 milhões de toneladas exportadas. Com um consumo interno de 700 mil a 800 mil toneladas, as exportações poderiam chegar na faixa de 3,5 milhões de toneladas exportados por todas as tradings, o que representaria um crescimento de 20% a 25%.
O gargalo portuário
Se a inflação traz o risco de demanda, a logística segue como o desafio crônico da oferta. Kurre relata que já existe previsão de falta de espaço em navios, o único canal para levar o algodão à Ásia. Quando outras commodities competem pelo mesmo espaço, como o açúcar e, em algumas épocas do ano, a celulose, o algodão ainda consegue ser mais competitivo, "mas preocupa, sempre é uma preocupação".
Nos portos, Santos segue como o principal corredor, e as tradings trabalham para ampliar a saída via Salvador. O limite, diz o executivo, é que "não é toda hora que o armador coloca o navio em Salvador, então, a gente fica um pouco refém de algumas saídas".