O Brasil é o maior exportador de algodão do mundo pelo segundo ano consecutivo. E, segundo o diretor da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), Gregoire Negre, essa posição veio para ficar.
Em entrevista ao SpeedCast, série do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão, Negre fez um raio-x do cenário internacional para a fibra e não escondeu o otimismo. "A competitividade do algodão brasileiro é a melhor que tem hoje em dia no mundo", afirma.
O executivo francês, conhecido no Brasil como Greg, lembra que a Anea foi criada com o papel de incentivar as exportações e promover a fibra brasileira no exterior. O esforço, diz ele, levou a um resultado histórico.
"Antigamente, era sempre os Estados Unidos que eram os principais exportadores mundiais de algodão. E já é o segundo ano consecutivo que o Brasil passa a ser o primeiro", afirma. "E realmente, pelas perspectivas de mercado, o Brasil está aqui para ficar nessa posição e continuar crescendo, porque a competitividade do algodão brasileiro é incomparável com qualquer outro lugar do mundo que produz algodão."
Negre reconhece que, quando se trata de qualidade, "sempre tem coisas para melhorar", mas destaca que o Brasil já ganhou a confiança dos consumidores finais, no caso, as fiações, que hoje estão acostumadas ao padrão do algodão brasileiro. Sua visão é pragmática.
Para ele, o País não precisa disputar o segmento premium. "O mundo não precisa de um só algodão. Muita gente conhece o algodão do Egito, por exemplo, que é um algodão de fibra longa. Mas o mundo não precisa de um volume grande desse algodão muito premium", diz.
Ele cita também o Pima americano como o outro grande nome desse nicho — um mercado pequeno e específico, para certos tipos de camisetas, no qual o Brasil não precisa competir.
O ponto de melhoria, para ele, está na padronização. "O Brasil precisa melhorar a parte de padronização. Se conseguir nos próximos anos, vai dar ainda mais confiança ao consumidor, a fiação, para usar ainda mais algodão brasileiro, porque aí vai ter mais uma padronização e homogeneização do algodão que será exportado."
A logística que acompanhou o crescimento
Os números da Anea mostram que o Brasil exportou cerca de 3,2 milhões de toneladas no ano passado. As perspectivas da entidade apontam para 3,4 milhões no próximo ciclo, com potencial de crescimento ainda maior, segundo Negre.
Para o executivo, a logística danos atrás o crescimento vinha acompanhado de temores em relação a um gargalo logístico, mas hoje esse problema foi minimizado. "Há muito tempo teve preocupação na capacidade do Brasil na logística da exportação, porque o Porto de Santos, quando chegava no pico da safra, chegava a travar", lembra.
O trabalho nas operações de Santos e a abertura de novas rotas mudaram o jogo. O Porto de Salvador, que antes exigia cabotagem até Santos, encarecendo a operação, hoje conta com linhas diretas para os destinos e vem crescendo a cada ano.
A certificação Abralog, feita em Santos, também ajudou a padronizar as operações de exportação e a dar fluidez ao fluxo. Hoje, Santos ainda responde por mais de 90% das exportações de algodão brasileiro. "O Porto de Santos, hoje em dia, a gente pode falar que é a capital da exportação do algodão no mundo, sem dúvida."
Salvador, por sua vez, já responde por cerca de 5% e pode ir além. "A gente pode imaginar, sonhando, que 75% do algodão produzido na Bahia poderia ser exportado por Salvador. Isso não é uma coisa totalmente absurda", diz Negre, lembrando que ainda há trabalho a fazer, principalmente na retroárea do porto.
O desafio, adverte, é que á medida que a infraestrutura por lá se moderniza, o corredor atrai a concorrência, com outras cargas, como frutas, começando a disputar espaço com o algodão.
Demanda estável
No cenário global, Negre faz uma leitura que chama de “honesta”. Segundo ele, a demanda por algodão ficou estável nos últimos anos e a fibra natural não conseguiu ser competitiva diante das sintéticas. "Enquanto, nos últimos 10 anos, o consumo de fibra sintética mais que duplicou, o do algodão continuou sendo estável", reconhece.
Dentro dessa estabilidade, entretanto, houve uma mudança decisiva: justamente o crescimento do algodão brasileiro, que assumiu a liderança das exportações mundiais e cuja demanda, ele aposta, "é para continuar".
O comportamento das fiações, aponta, também mudou. Se antes os compradores faziam as encomendas até com um ano e meia de antecedência, hoje esse prazo fica entre 3 e 5 meses.
Essa janela mais curta, diz, dificulta a vida das tradings e dos produtores, mas traz um efeito colateral positivo. Nos últimos meses, mercados como Paquistão, Bangladesh, Turquia e, mais recentemente, Vietnã, cresceram muito comprando principalmente algodão brasileiro.
A China segue como o principal destino do algodão brasileiro, mas ele ressalta que o mercado chinês tem suas regras próprias. As importações são feitas principalmente pelo sistema de cotas — sem cota, não se pode importar, ou se paga uma taxa muito alta.
Nos últimos meses, analisa Negre, Pequim segurou as cotas, trabalhou com a produção nacional e passou a vender o estoque da reserva estratégica do governo a preços que chegaram a quase US$ 1,30 e hoje estão em torno de US$ 1,05, contra os cerca de 90 cents do mercado internacional.
"Essa demanda, a gente está percebendo que alguma hora vai ter que ajustar. Ou o preço mundial tem que subir ou o preço que está na China tem que descer", explica. "A questão é qual algodão a China vai comprar. Será que eles vão comprar mais algodão brasileiro ou um algodão mais americano? Isso, a gente sabe, vai ser uma decisão política e não necessariamente uma decisão econômica."
E é aqui que a competitividade brasileira volta ao centro: como Turquia, Paquistão e Bangladesh deram total preferência ao algodão brasileiro nas compras recentes, o mercado sabe qual fibra oferece a melhor relação custo-benefício. Resta saber se a geopolítica seguirá a mesma lógica.
Por isso, havia grande expectativa em torno da recente reunião entre os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Xi Jinping, da China. "Todos os olhos estavam nessa reunião", diz Negre.
Os primeiros efeitos do encontro começaram a ser conhecidos apenas na segunda-feira, 28 de setembro, dias após a gravação da entrevista com Negre. A China divulgou um comunicado em que informava a redução de tarifas para alguns produtos agrícolas americanos, mas nem algodão nem soja, dos dos principais itens da pauta exportadora brasileira, foram contemplados.
A leitura da Anea para um cenário como esse, avaliado como uma possibilidade por Negre no SpeedCast, é de que a reserva chinesa terá de entrar no mercado para recompor seu estoque estratégico e deve privilegiar o algodão brasileiro.
"Isso é uma ótima notícia para o mercado brasileiro, porque a China sempre foi um grande parceiro do Brasil em termos de importação e eles foram muito quietos nos últimos meses", diz.
A consequência prática é dupla, segundo o diretor da entidade. O basis, diferencial entre o preço de Nova York e o do algodão brasileiro, deve se manter, sustentado pela demanda firme. E o gargalo muda de lugar. "Agora a dificuldade vai ser como esse algodão vai conseguir sair, porque a pressão vai ficar na parte de logística", alerta Negre.
"Do jeito que a China geralmente compra, são volumes muito grandes em um período relativamente curto. Então a pressão passa para os nossos parceiros de Santos, que vão ter que trabalhar muito forte para exportar um volume muito grande de algodão brasileiro para a China."