Os fundamentos do mercado do algodão – e do agronegócio brasileiro em geral – permitem ter uma visão mais otimista para a safra 2026/2027.
A avaliação é do analista da Consultoria Agro do Itaú BBA Francisco Queiroz, que fez um raio-x do momento da fibra em entrevista à série SpeedCast, iniciativa do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte.
"A turma tem um pouco de medo de ser muito otimista, então não fala que está melhorando, que está despiorando", disse Queiroz, para quem a recuperação das margens na próxima safra é real, porém ainda tímida.
O ponto de partida da análise é a retomada dos preços dos últimos dois meses e meio. Segundo Queiroz, o movimento tem lastro em fundamentos, e não apenas em especulação.
Entre esses fundamentos está, por exemplo, a constatação de que a safra americana vem aquém da expectativa. Segundo o analista, com o início da colheita, os números "podem ser até um pouco piores do que o USDA está projetando hoje".
Do outro lado do Pacífico, a China, relevante por produção e por consumo, também tem uma safra menor e uma expectativa de importação em torno de 1,5 milhão de toneladas, um patamar positivo.
Assim, somando os dois grandes players globais, o resultado é uma queda de disponibilidade global de algodão, combinada com uma sinalização de demanda que deve crescer.
"No final do dia, a gente vê, sim, uma redução de estoques, e isso é um cenário que segue sendo construtivo para preço", resumiu o analista, que projeta um panorama favorável para a safra 2026/2027.
Queiroz ressalta ainda outra variável, que fica de fora da equação clássica de oferta e demanda: o prêmio de risco geopolítico que incide sobre o petróleo. Como o óleo é a matéria-prima da fibra sintética, concorrente direta do algodão, a tensão geopolítica que sustenta o preço do barril acaba, indiretamente, apoiando também os preços da fibra natural.
Do lado brasileiro, o momento é de colheita caminhando para o final com volume recorde e preços positivos. "A gente tem, sim, uma mudança de humor para melhor aqui no mercado de algodão", afirma Queiroz.
Margens melhores
Para o produtor, antes do volume, a questão que importa é a que diz repeito às margens. Nesse quesito, a perspectiva, segundo Queiroz, melhorou. A conta feita pelo time do banco comparou o panorama de preços de abril com o atual e, como o custo não mudou muito no período, a alta dos preços se traduziu diretamente em melhora das margens.
O analista é cuidadoso, no entanto, com o tamanho da recuperação. "Ainda não é nada transformacional. É um panorama melhor do que a gente tinha no começo do ano, mas ainda não é nada que mude de maneira significativa o cenário para 26/27".
O crédito restrito, que pesa sobre o agro como um todo, também deve encontrar alívio gradual. Queiroz lembra que o setor viveu uma desorganização financeira. Produtores que fizeram contas com soja e algodão mais caros viram os preços voltarem por conjuntura de oferta e demanda, apertando as margens.
Com fundamentos melhores e preços em recuperação para o ano que vem, o cenário do agro começa a melhorar como um todo. O crédito tende a acompanhar, embora ainda de forma lenta, apenas “despiorando”, a partir de 26/27.
"Os preços devem ajudar, mas ainda tem a ponta produtividade, que está muito na mão do que o El Niño nos reserva", disse.
Algodão X Milho
Com preços melhores, a pergunta natural é se o produtor volta a expandir área. A resposta do analista é afirmativa. "É quase unânime que a possibilidade é grande de vermos uma área plantada maior na safra 26/27, eventualmente até uma nova área recorde", afirmou Queiroz.
Depois de um pico de 2,3 a 2,4 milhões de hectares plantados e de uma retração na safra 2025/2026, o cenário base do Itaú BBA incorpora o retorno a 2,2 milhões de hectares ou algo ligeiramente acima disso.
O argumento é econômico. Olhando para o Mato Grosso, segundo ele, o binômio soja-algodão está hoje mais rentável do que o binômio soja-milho. Assim, faz sentido, financeiramente, para o produtor que puder plantar mais algodão em detrimento do milho na segunda safra.
A visão da Consultoria Agro do banco contempla crescimento de ambas as áreas, mas com vantagem atual no algodão.
Há, porém, uma ressalva feita pelo analista. Ele lembra que área maior não significa, necessariamente, produção recorde. O determinante é o clima e é aí que mora o risco.
Queiroz pontua que o fenômeno climático El Niño já está ativo e, segundo os modelos de projeção, deve se fortalecer até o final do ano. Para o analista, o impacto tende a ser assimétrico.
A safra de verão, incluindo o algodão da Bahia, a soja e o milho de primeira safra, corre um risco menor. O foco de preocupação é a segunda safra, principalmente o algodão do Mato Grosso, onde a maior parte da área é plantada após a soja.
A pior combinação, descreve o analista, seria uma irregularidade das chuvas agora, atrapalhando o plantio da soja de verão e empurrando o algodão para fora da janela ideal, seguida de um corte das chuvas mais cedo, como costuma ocorrer em anos de El Niño.
"Óbvio que não vamos condenar a safra agora, pelo contrário", ponderou Queiroz. "Mas a gente tem um risco de, eventualmente, esse cenário de perspectiva de área recorde não se confirmar por conta de janela, de questões mais relacionadas ao clima."
O Brasil consolidado na liderança global
A não ser no caso de o El Niño causar quebras mais severas, o analista disse acreditar que a liderança do Brasil no ranking mundial do algodão está consolidada.
Em produção, o país já está à frente dos Estados Unidos. Se a safra americana se confirmar em torno de 2,8 a 2,9 milhões de toneladas, isso equivale somente à produção do estado do Mato Grosso nesta safra. Ou seja, o estado sozinho já seria o quarto maior produtor global. Já a Bahia, que ultrapassou a Austrália, seria o sexto maior.
Em exportação, a liderança também é brasileira. Na última safra, o País exportou um recorde de 3,4 milhões de toneladas, e a projeção do Itaú BBA para a próxima safra é de 3,5 milhões, consolidando e abrindo vantagem sobre os americanos.
"As exportações dependem do nível de produção. Com o Brasil mantendo esses altos níveis de produtividade e produção, a gente tem, com certeza, a disponibilidade e a competitividade para seguirmos à frente dos americanos", afirmou Queiroz, sempre com a ressalva: "se o El Niño permitir".