Depois dos grandes produtores, chegou a vez da Faria Lima entrar na expansão agrícola de brasileiros na Bolívia.
A Riza Asset, gestora com cerca de R$ 25 bilhões sob gestão, estruturou um fundo de US$ 20 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 100 milhões, para comprar e desenvolver cerca de 22 mil hectares no Beni, região do norte do país, próximo à fronteira com o estado de Rondônia.
Segundo revelou Paulo Mesquita, sócio da Riza e líder da área de agro da gestora, ao AgFeed, o veículo é operado em parceria com a Yata Investment Management, que já atua na região há quatro anos. A ideia é transformar áreas de pastagem em terras para produção de soja e milho e vender os ativos ao longo de um ciclo de oito anos. A captação está aberta e deve ser encerrada em outubro.
O movimento coloca o mercado financeiro na mesma rota que vem sendo percorrida por produtores brasileiros nos últimos anos. Nomes como Eraí Maggi Scheffer, do Grupo Bom Futuro, e Mônica Marchett, do Grupo Mônica, ampliaram a presença na Bolívia, atraídos por disponibilidade de terras, potencial agrícola e preços inferiores aos de regiões produtoras brasileiras.
A diferença é que, no caso da Riza, o investidor não precisa comprar uma fazenda ou participar diretamente da produção. Entra por meio de um fundo, enquanto a operação local, a "mão na massa", fica nas mãos da Yata.
Mesquita diz que investiu em terras no país pela primeira vez como pessoa física há alguns anos junto à Yata, e agora as gestoras se juntaram para organizar um veículo estruturado com o mesmo fim.
"O fundo vai comprar áreas em uma região de cerrado mas de muita chuva, com solos argilosos e tudo mais. Compramos esses 22 mil hectares para desenvolver um fundo de oito anos", explicou o gestor, em entrevista concedida à reportagem durante o Congresso Andav 2026.
Paulo Mesquita vê o Beni como uma região ainda menos desenvolvida dentro da agricultura boliviana. Enquanto o departamento de Santa Cruz - onde Maggi faz sua aposta na região da Chiquitania - já possui uma produção consolidada e vem recebendo uma nova leva de agricultores brasileiros, o Beni ainda tem pouca soja, mas reúne disponibilidade de terras, chuvas regulares e potencial de expansão da infraestrutura.
A produção de soja e outras culturas começou a ganhar escala em Santa Cruz ainda nas décadas de 1980 e 1990, com a chegada de produtores brasileiros, principalmente do Sul do Brasil. Hoje, segundo o sócio da Riza, é um mercado com menos oportunidades de aquisição de grandes áreas a preços capazes de sustentar a tese de desenvolvimento buscada pela Riza.
Na Chiquitania, o AgFeed apurou que Maggi intensificou as compras de terras no ano passado e já teria entre 30 mil e 40 mil hectares na Bolívia.
Em março, durante o Fórum Empresarial Brasil-Bolívia, na Fiesp, o produtor defendeu investimentos em infraestrutura e comparou os desafios logísticos da região aos enfrentados pelos agricultores que desbravaram Mato Grosso há cinco décadas.
O Beni é mais uma etapa etapa desse processo. “Essa região está começando agora”, disse Mesquita. O departamento faz fronteira com Rondônia e fica a aproximadamente 200 quilômetros da divisa brasileira. De lá até Porto Velho, por exemplo, são cerca de 600 quilômetros.
A família Marchett é uma das pioneiras na incursão brasileira. Iniciou a operação com soja e hoje possui quase 100 mil hectares no país, entre agricultura, armazenagem, pecuária e genética.
No Beni, Mônica Marchett trabalha em um projeto de cerca de 60 mil hectares, com áreas experimentais de soja e cana-de-açúcar e um modelo baseado na integração lavoura-pecuária-floresta.
Uma fonte do setor estimou que propriedades no norte da Bolívia poderiam custar até 20% menos que áreas semelhantes do outro lado da fronteira, em Rondônia. Os preços, porém, variam bastante de acordo com infraestrutura e localização.
Há relatos de negócios realizados por cerca de US$ 50 por hectare em regiões mais remotas. Em áreas com melhor logística e infraestrutura, o valor pode chegar a US$ 1,5 mil por hectare. A transformação da pastagem em área agrícola também exige investimento: produtores estimam cerca de US$ 300 por hectare para a conversão.
É justamente por isso que o desenvolvimento compõe boa parte da tese do fundo da Riza, que terá prazo de oito anos. Depois da captação e das aquisições, a previsão é gastar cerca de dois anos na abertura de acessos e conversão das pastagens.
A partir do quinto ou sexto ano, começa a venda dos ativos, uma espécie de private equity aplicado à terra: comprar áreas com potencial de desenvolvimento, colocar capital na transformação e capturar a valorização na saída.
“A gestão é feita, vamos dizer assim, a mão na massa é feita pela Yata lá, que tem presença física na Bolívia, e a gente da Riza faz essa conexão com o mercado buscando os investidores”, explicou Mesquita.
A gestora não prevê, por enquanto, um segundo fundo para a Bolívia. A oferta do veículo do Beni ainda está aberta e a prioridade é concluir a alocação antes de buscar novas oportunidades.
O principal obstáculo, segundo Mesquita, não é a falta de investidores interessados na tese, mas sim encontrar propriedades que reúnam, ao mesmo tempo, disponibilidade de terra, qualidade agrícola, potencial de desenvolvimento e segurança fundiária. “Existe uma certa dificuldade em achar os bons ativos regulares em termos fundiários, que têm uma boa qualidade”, relatou.
A operação no Beni é pequena diante dos R$ 5,5 bilhões que a Riza mantém em fundos ligados ao agronegócio. A gestora atua principalmente em crédito e terras agrícolas. No crédito, tem o Fiagro listado RZAG11, com R$ 679 milhões de patrimônio líquido. Na tese de terras, o Terrax, com R$ 1,8 bilhão, concentra estratégias de sale and leaseback, buy to lease e land equity.
Mesquita afirma que a gestora está terminando de alocar o Terrax Vintage, fundo de R$ 400 milhões captado no fim de 2025, e prepara novas captações. Um próximo veículo deve ser estruturado em parceria com o Banco XP, apurou a reportagem.
Nos últimos anos, a gestora também montou fundos em parceria com instituições financeiras como Itaú, Santander e Banco Original, combinando crédito e ativos imobiliários rurais.
A estratégia de terras cresceu em um momento de maior pressão sobre o crédito rural, com produtores recorrendo a recuperações judiciais, alongamentos de dívida e outras formas de reestruturação. Para a Riza, porém, o aumento desses casos não significou uma deterioração equivalente da carteira.
Ao longo dos cerca de seis anos e meio de existência da gestora, Mesquita afirma que a Riza fez mais de R$ 3 bilhões em operações de crédito no agro. Nesse período, houve apenas um único caso de recuperação judicial entre os ativos da casa, mas o executivo afirma que a operação não se transformou em default.
O caso em questão envolve um CRA da Uniggel Sementes, do Grupo Formoso. Segundo o último relatório do Fiagro da Riza, a gestora já adotou medidas para executar a garantia, que envolve alienação fiduciária de terras.
“Foi um evento de RJ que não se traduziu em um default de fato. A gente estava extraconcursal pela garantia, vem recebendo, se ajustando com o produtor”, disse. A expectativa, segundo ele, é liquidar o ativo nos próximos três ou quatro meses sem prejuízo para o fundo.
A gestora também prepara uma nova frente de investimentos em ativos florestais para 2027. A vertical começou em 2022, por meio do fundo Riza Eos, a gestora adquiriu a Eco Brasil Florestas, que tinha cerca de 50 mil hectares de áreas abertas e 35 mil hectares de eucalipto.
“A gente entende que tem uma demanda de investidor institucional brasileiro e internacional para esse tipo de ativo. É um ativo muito estável”, afirmou.
Uma reportagem recente do jornal Valor Econômico informou que a gestora estrutura um Fiagro de aproximadamente R$ 1 bilhão para investir em florestas de eucalipto, com prazo de 15 anos e foco inicial em cinco propriedades, somando 20 mil hectares.
Resumo
- Riza cria fundo de US$ 20 milhões para comprar e desenvolver 22 mil hectares no Beni, na Bolívia
- Veículo é estruturado em parceria com a Yata, e mira conversão de pastagens em áreas de soja e milho e prevê venda dos ativos após oito anos
- Gestora mantém R$ 5,5 bilhões em fundos ligados ao agro, com atuação em crédito e terras agrícolas, e prepara frente de ativos florestais