Quando a 051 Capital decidiu separar sua operação de investimentos em terras agrícolas e colocar mais de R$ 1,5 bilhão de quatro fundos debaixo do guarda-chuva da recém-criada Tane Capital, no ano passado, parecia que a gestora estava deixando o agronegócio para trás.

Não demorou muito para voltar, só que, desta vez, trocou a posição de compradora de fazendas pela de credora de produtores rurais.

Em vez de adquirir terras e apostar em sua valorização, a gestora passou a estruturar operações de crédito e reestruturações financeiras, mas colocando a propriedade rural como uma das principais garantias para emprestar.

“Quando a Tane ainda era 051, a nossa ideia era fazer deals de equity. A gente não olhava deals agro na parte de crédito, era focado em terra”, disse Flávio Aragão, sócio da 051 Capital, ao AgFeed.

Ele cita que a casa, com ampla expertise em reestruturação e special sits, passou a olhar o setor por essa ótica, acompanhando também a legislação sobre RJs de produtores rurais ganhar mais corpo para reduzir as incertezas de operar nesse segmento.

A 051 começou a fazer os primeiros negócios no ano passado e acelerou neste ano. Segundo o executivo, a gestora já estruturou mais de R$ 350 milhões em operações ligadas ao agronegócio. E com a safra 2026/2027 se aproximando do período de plantio, o telefone começou a tocar com mais frequência nas últimas semanas.

Aragão diz que a casa tem sido procurada por produtores que ainda não conseguiram levantar os recursos necessários nem mesmo para comprar os insumos. Em alguns casos, são operações de grande porte.

“É assustadora a quantidade de produtor que ainda não comprou nada. Tivemos conversa com produtor de 30 mil hectares que não tinha nada comprado. Outro de 14 mil hectares na mesma situação”, afirmou.

A gestora passou a enxergar nesse cenário uma janela específica. Na divisão feita internamente pela 051, produtores menores, com dívidas entre R$ 20 milhões e R$ 50 milhões, são os que hoje encontram mais dificuldade para acessar alternativas de financiamento.

Dos R$ 350 milhões em operações até agora, Aragão cita que é uma grande de R$ 200 milhões e outras nessa faixa entre R$ 20 milhões e R$ 50 milhões.

A lógica, segundo ele, é que se tratam de negócios grandes demais para depender apenas de soluções pontuais, mas ainda pequenos para despertar o interesse de grandes bancos de investimento ou estruturas mais robustas do mercado de capitais. “É um deal que cabe no bolso”, resumiu Aragão.

A ideia da 051 é ocupar justamente esse espaço, estruturando operações caso a caso e com garantia real. A preferência é por terras.

A lógica, nesse ponto, tem uma ligação direta com a experiência acumulada pela gestora em sua antiga tese de investimentos agrícolas. Antes, a 051 comprava fazendas porque acreditava na valorização desses ativos. Agora, usa o conhecimento sobre esse mercado para avaliar a garantia de uma operação de crédito.

“Em vez de comprar terra, fazemos crédito entendendo que, no pior cenário, tenho a terra, que é uma garantia que nós gostamos. Se tiver que arrendar por alguma questão, não tem problema", explicou.

A estrutura que a gestora busca montar tem características relativamente padronizadas. Em uma das operações citadas pelo executivo, o crédito foi concedido a CDI + 8%, com quatro anos de carência e dois anos adicionais para pagamento. A garantia em terras, segundo ele, equivale a cerca de duas vezes o valor da operação.

“Meu deal é esse. Se vier encaixando nesse modelo, a gente faz. Se não vier, dificilmente vamos seguir o negócio".

A 051 também diz não estar interessada apenas em emprestar dinheiro novo. Parte das operações envolve produtores que já carregam um passivo elevado e precisam reorganizar suas dívidas antes de conseguir voltar ao campo.

É o caso de uma operação que a gestora acompanha desde março e que pode se transformar em uma das maiores recuperações judiciais do Matopiba, segundo Aragão, que não entrou em mais detalhes. O produtor, cujo nome não foi revelado, acumulou um passivo próximo de R$ 1 bilhão e, inicialmente, resistia à ideia de entrar em recuperação judicial.

Segundo Aragão, a conversa começou meses atrás, quando a avaliação da 051 era de que uma reestruturação formal seria inevitável. O produtor discordava e acreditava que conseguiria encontrar outra solução para o problema.

“Ele dizia que não queria ir para RJ porque iam falar que ele era picareta. É um produtor antigo, sério. Mas não tinha alternativa”, afirmou Aragão.

A gestora agora discute a estrutura da operação com os credores. Além desse caso, a 051 analisa outros três negócios na faixa entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.

Por enquanto, a estratégia segue sem uma meta formal de volume ou um fundo exclusivo para crédito agrícola, mas a estimativa é que R$ 1,5 bilhão em dívidas passíveis de reestruturação já tenham passado pela empresa. A ideia é continuar selecionando operações individualmente e, se o fluxo continuar crescendo, transformar essa atuação em uma plataforma mais estruturada, como a criação de um fundo temático.

A 051, aliás, já vem recebendo abordagens de investidores e instituições interessadas em alocar recursos nas operações que está estruturando, mas Aragão diz não estar disposto a ampliar a carteira a qualquer custo.

Ele cita que a gestora também foi procurada recentemente para financiar projetos de irrigação, por exemplo, e decidiu não seguir com algumas das operações. Não porque os projetos fossem necessariamente ruins, mas porque, na avaliação da 051, o custo do crédito não fechava a conta para o produtor. “Fazer deal por fazer deal não faz sentido”, disse.

Enquanto as reestruturações e operações de crédito começam a ganhar corpo na 051, hoje com mais de R$ 5,5 bi sob gestão, a estratégia de investimentos em terras agrícolas permanece concentrada na Tane Capital.

Liderada por Bernardo Reis e Marconi Silva, a Tane nasceu com quatro fundos e cerca de R$ 1,5 bilhão em patrimônio sob gestão. A casa ficou com a tese que a dupla havia ajudado a desenvolver dentro da 051: a compra de propriedades rurais, a valorização dos ativos e, posteriormente, sua venda. A 051 permaneceu como sócia minoritária da nova gestora.

Resumo

  • A 051 já estruturou mais de R$ 350 milhões em operações de crédito agro e mira produtores com dívidas de R$ 20 milhões a R$ 50 milhões
  • Gestora usa terras como principal garantia e busca operações com retorno de CDI + 8% e cobertura de até duas vezes o valor emprestado
  • Além de uma operação próxima de R$ 1 bilhão no Matopiba, 051 analisa outros três negócios de R$ 20 milhões a R$ 30 milhões