A área agropecuária financiada nas linhas de custeio no âmbito do Plano Safra no Brasil encolheu 25,8% em 12 meses até julho, segundo um levantamento da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), a partir de dados do Banco Central.

O indicador passou de 34,2 milhões de hectares em julho de 2025 para 25,4 milhões de hectares financiados um ano depois.

O valor liberado nas operações de custeio caiu 12%, de R$ 205,8 bilhões para R$ 181,1 bilhões. Já o número de contratos recuou 10,3%, de 867.035 para 777.849.

Em nota técnica, a Farsul ressaltou que os próximos meses serão decisivos para medir a dimensão da continuidade de retração do desempenho do crédito rural e eventuais efeitos negativos na safra 2026/2027 e também sobre a atividade econômica, Produto Interno Bruto (PIB) e balança comercial do País.

Em relação aos dados apurados até julho deste ano, a entidade avalia que, na prática, o crédito está cobrindo uma área menor, enquanto o valor desembolsado por hectare aumenta, em um cenário de custo de produção e dinheiro mais caros.

"O crédito concedido está cobrindo menos hectares a um custo maior por hectare, reflexo direto do encarecimento do dinheiro”, diz a federação dos agricultores gaúchos.

A retração também não é homogênea entre as culturas, destaca a Farsul. Soja, milho e bovinos, que juntos respondem por 87,8% da área financiada para custeio no País, registraram quedas de 25,8%, 27,4% e 25,5%, respectivamente.

Culturas com menor participação no crédito nacional, mas relevantes no Rio Grande do Sul, estado de atuação da entidade, apresentaram recuo ainda mais forte. A área financiada para trigo caiu 44,1% e a de arroz, 34,7%.

Rio Grande do Sul

Em comparação com o restante do Brasil, os agricultores gaúchos são mais dependentes do crédito rural e hoje sofrem mais com a conjuntura negativa.

Em 12 meses, a área financiada no Estado caiu 29,3%, acima da média nacional, que foi de 25,8%.

O valor liberado recuou 18,3%, para R$ 23,1 bilhões, enquanto o número de contratos caiu 16,4%, para 189.655.

A soja, responsável por 46,2% da área financiada no estado, teve queda de 35,2% no tamanho de áreas financiadas. No trigo, o recuo chegou a 52%, enquanto o arroz registrou baixa de 32,2%.

A combinação preocupa a Farsul especialmente porque soja, trigo e arroz têm participação relevante na produção gaúcha e atravessam simultaneamente uma redução no financiamento.

Outro indicador que chama atenção da Farsul no Estado é o nível da parcela da carteira de crédito rural em atraso, inadimplência, prorrogação ou renegociação, que chegou a 41,3% em julho. No Brasil, esse percentual era de 23,5% no mesmo período.

Há dois anos, em julho de 2024, os níveis de atraso ou renegociação eram de 28,6% no Rio Grande do Sul e 11,8% no País.

A Farsul relaciona parte da deterioração da carteira gaúcha às enchentes de abril e maio de 2024, que afetaram a capacidade de pagamento de produtores locais.

Dos R$ 45 bilhões classificados como carteira estressada no Estado, 51,8% estão renegociados e 31,5% prorrogados. A inadimplência formal representa 7,5%.

No Brasil, a carteira considerada estressada soma R$ 207,4 bilhões. Desse total, 51,6% estão renegociados, 22,1% inadimplentes, 15,6% prorrogados e 10,8% em atraso.

Juros e regras mais rigorosas jogam contra

Para a entidade, três fatores ajudam a explicar a retração no Rio Grande do Sul e no Brasil: juros ainda elevados, com a Selic em 14% ao ano, deterioração da carteira de crédito rural e mudanças nas regras de provisionamento dos bancos.

No Plano Safra 2025/2026, as taxas de custeio chegam a aproximadamente 14% ao ano, enquanto as linhas de investimento superam 13%.

Com o custo de captação mais alto, o espaço para o governo subsidiar taxas de crédito rural também fica mais limitado, avalia a Farsul.

Ao mesmo tempo, produtores com histórico recente de atraso, prorrogação ou renegociação passam a enfrentar maior cautela das instituições financeiras.

Nesse ponto, a Farsul chama atenção para os efeitos da Resolução CMN 4.966/2021, que entrou em vigor em janeiro de 2025 e alterou as regras de provisionamento para perdas de crédito.

A norma aproximou a contabilidade bancária brasileira do padrão IFRS 9 e passou a exigir uma avaliação mais prospectiva do risco das operações. Os bancos agora precisam incorporar variáveis macroeconômicas, como desemprego, inflação e juros, e classificar cada operação em um de três estágios de risco, do reconhecimento inicial até a deterioração mais grave.

Embora não seja uma regra específica para o crédito rural, a avaliação da Farsul é de que ela tende a reforçar a cautela justamente nas carteiras que já apresentam sinais de deterioração.

“A norma não trata especificamente de crédito rural. Mas seu efeito prático recai com mais força justamente sobre carteiras que já mostram sinais de deterioração, e é exatamente esse o quadro do crédito rural”, disse a Farsul.

“Com uma regra que obriga o banco a provisionar mais cedo e de forma mais conservadora diante de uma carteira que piora, a tendência natural é de maior cautela na concessão e na renovação de operações para produtores e regiões com histórico recente de atraso, prorrogação ou renegociação.”

A Farsul atentou ainda para a continuidade de uma tendência já observada nos últimos anos: o mercado de capitais ocupando parte do espaço deixado pelo crédito bancário.

O estoque de CPR chegou a R$ 576,4 bilhões em junho, alta de 12% em 12 meses e de 64% em dois anos.

As CPRs, segundo a Farsul, já são o principal instrumento de crédito rural no Brasil, inclusive dentro do próprio Plano Safra.

As LCAs somavam R$ 563,4 bilhões, com recuo de 4% em 12 meses, enquanto os CRAs alcançaram R$ 174,1 bilhões, 9% a mais no período. Os Fiagros, por sua vez, chegaram a R$ 63 bilhões em maio, 81% acima do registrado dois anos antes.

Apesar do crescimento, a Farsul avalia que esses instrumentos não substituem integralmente o crédito bancário tradicional.

A federação lembra que o volume de CPR apresentou desaceleração na safra 2025/26, quando foram registrados R$ 377,8 bilhões em CPRs, 8% abaixo dos R$ 410,2 bilhões da temporada anterior, embora ainda 40% acima do volume da safra 2023/24.

A Farsul ressaltou também que instrumentos como CRA e Fiagro dependem de escala e de acesso ao mercado de capitais, o que tende a favorecer produtores e agroindústrias maiores e mais capitalizados.

“Para o produtor de menor porte, historicamente mais dependente do crédito bancário e do Plano Safra, essa válvula de escape é bem mais estreita”, opinou a federação.

PIB, inflação e balança sob risco

A Farsul ressaltou ainda que o movimento de queda na captação de recursos ocorre num momento em que o setor ainda contribui com resultados positivos no Produto Interno Bruto (PIB) do País e na balança comercial.

O PIB da agropecuária cresceu 2,8% no segundo trimestre de 2026 ante os três meses anteriores e 6,8% na comparação anual. No primeiro semestre, a alta acumulada chegou a 3,6%, enquanto o PIB brasileiro cresceu 2% no mesmo período.

A agropecuária também segue contribuindo para os resultados da balança comercial do País. Em agosto, as exportações do agronegócio somaram US$ 7,4 bilhões, alta de 11,4% em relação ao mesmo mês de 2025.

Segundo a Farsul, esses números refletem em grande medida decisões de plantio e financiamento tomadas em ciclos anteriores.

O alerta da federação é que uma área financiada menor agora pode significar, nos próximos meses, menor área plantada, redução no uso de insumos e eventual impacto sobre produtividade.

Esses fatores, emendou a Farsul, podem chegar ao PIB agropecuário e, por extensão, à atividade econômica como um todo.

O mesmo raciocínio vale para a balança comercial. Menor produção nas próximas safras pode reduzir o volume disponível para exportação, enfraquecendo uma das principais fontes de entrada de dólares do país.

A Farsul destacou ainda um possível efeito sobre os preços dos alimentos medidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A deflação atual do grupo Alimentação e Bebidas contribui para a manter a inflação sob controle, mas é sustentada por uma oferta que resulta de safras plantadas e financiadas anteriormente.

Se o crédito mais escasso levar a uma redução da oferta agrícola nas próximas temporadas, a trajetória pode se inverter, pressionando os preços de alimentos.

"Os efeitos de um crédito mais escasso hoje tendem a aparecer, com defasagem, na safra 2026/2027, no PIB, no saldo comercial, no câmbio e nos preços de alimentos, justamente quando a inflação começa a dar sinais de acomodação", avaliou a federação da agricultura gaúcha.

Resumo

  • Área financiada para custeio caiu 25,8% no Brasil em 12 meses, para 25,4 milhões de hectares, estima Farsul
  • No Rio Grande do Sul, retração chegou a 29,3%, enquanto carteira estressada alcançou 41,3%
  • Farsul alerta para riscos à safra 2026/27, ao PIB, balança comercial e inflação de alimentos