Foi uma longa gestação, com cada passo acompanhado com atenção pelo mercado e o nascimento ocorreu como o previsto. A Vylor, spin-off de genética agrícola emancipada da Corteva, estreou oficialmente nesta quinta-feira, 1º de outubro, já como uma gigante e com ambição de ser ainda maior.

Na primeira entrevista já como líderes da nova empresa, William Weber, presidente, e Anelcindo Souza, diretor de Marketing da Vylor no Brasil e no Paraguai, deixaram clara sua meta de ampliar sua liderança em milho e quase dobrar sua participação no mercado de licenciamento de soja no Brasil até 2030 – o que, se efetivado, tornará o País o meior mercado da companhia no mundo, à frente inclusive da matriz americana.

A principal estratégia da Vylor é conciliar o histórico de um século, já que a companhia herda também o know-how da Pioneer, com novas ferramentas de biotecnologia, em especial a edição gênica, também conhecida como CRISPR.

“Nossa missão é impulsionar a agricultura através de ciência para continuar alimentando o mundo. A Vylor está nascendo hoje para inaugurar uma nova era da agricultura como spin-off da Corteva em sementes, genética avançada e biotecnologia”, resumiu Weber, durante o GAFFF (Global Agribusiness Festival), em São Paulo.

A recém-nascida já surge com números globais expressivos: mais de 3 mil cientistas, 137 unidades de pesquisa e um portfólio de tecnologias avaliado em US$ 19 bilhões (R$ 98,9 bilhões). Em 2025, a área de sementes e biotecnologia da Corteva, que virou a Vylor, faturou US$ 9,8 bilhões (R$ 51,14 bilhões). A companhia afirma ainda destinar globalmente o equivalente a 10% de suas vendas a pesquisa e desenvolvimento.

No Brasil, segundo a companhia, quatro em cada dez plantas de milho carregam tecnologias da Vylor, enquanto sua participação no mercado de licenciamento de soja já está na casa dos dois dígitos.

“Queremos chegar a 30% do mercado de soja até 2030. Isso seria quase dobrar a participação que temos hoje. No milho, sem dúvida nenhuma, também vamos ampliar nossa participação, com outras ofertas para o agricultor e novos lançamentos de híbridos que estamos fazendo”, revelou Souza.

“CRISPR first”

As novas tecnologias em edição gênica têm papel central na estratégia. “O CRISPR consegue acelerar muito. Em um processo de melhoramento convencional, estamos falando de cerca de dez anos para conseguir modificar uma característica de uma planta. Com a edição gênica, em alguns casos podemos reduzir esse período para dois anos”, frisou Souza.

A velocidade também se apoia na dimensão do banco genético herdado pela companhia. A Vylor afirma contar com mais de 1 milhão de linhagens de milho acumuladas ao longo de um século de melhoramento, material que pode ser combinado às ferramentas de edição gênica, análise de dados e inteligência artificial.

Nesse sentido, o pipeline de desenvolvimentos e lançamentos da Vylor é robusto. A companhia trabalha com 12 plataformas tecnológicas até 2035, distribuídas principalmente entre controle de insetos, tolerância a herbicidas, doenças e condições ambientais extremas. Quatro tecnologias devem ser lançadas comercialmente até 2032.

“Com a estrutura já existente e a tradição das marcas, esperamos ter uma comercialização muito rápida. Algumas de nossas linhas têm retenção acima de 90% dos clientes”, disse Weber.

O primeiro lançamento está previsto para a temporada 2028/2029 com o Abranvo, uma nova plataforma para milho. A proposta é aumentar o vigor inicial das plantas, o enchimento de grãos e a eficiência fotossintética, especialmente sob condições de estresse.

Para a soja, a companhia prevê para o início da próxima década, entre 2030 e 2032, uma nova geração de tecnologias, com novas proteínas para ampliar o controle de pragas e doenças.

A área internacional de P&D da Vylor também se dedica a culturas além de soja e milho, com pesquisas envolvendo trigo, sorgo, canola, arroz e mostarda indiana, além da possibilidade de aplicação das novas tecnologias em outras culturas.

“Como empresa, somos líderes no avanço da edição gênica. Se fôssemos um país, estaríamos apenas atrás da China”, resumiu.

Contra a resistência

A edição gênica também será usada pela Vylor para desenvolver plantas com resistência a múltiplas doenças. Inicialmente direcionada ao milho, a estratégia busca incorporar um conjunto de características de resistência a materiais genéticos de alto desempenho, preservando seu potencial produtivo. A abordagem é chamada pela companhia de MDR, sigla em inglês para Multiple Disease Resistance.

“Não iremos controlar apenas uma ou duas doenças, mas sim um pacote de doenças que é importante para aquela genética de alta performance”, explicou Souza.

Segundo o executivo, a edição gênica permite atuar com precisão sobre o DNA da planta e incorporar mecanismos de defesa que atuem durante seu desenvolvimento.

O milho será a primeira cultura a receber a tecnologia, mas a Vylor pretende posteriormente estender a abordagem a outras espécies. A aposta nessas tecnologias também acompanha a expectativa de crescimento da operação brasileira.

Licenciamento

O licenciamento, que tinha peso importante nos negócios na era Cortevam deve continuar uma das principais frentes de crescimento da Vylor no Brasil. O modelo permite levar genética e biotecnologias desenvolvidas pela companhia a sementes comercializadas por outras empresas, ampliando seu alcance para além das marcas próprias Pioneer e Brevant.

“Um dos nossos grandes investimentos e focos é o licenciamento de tecnologia e também de genética de soja”, afirmou Souza. A estratégia permite ampliar a presença das tecnologias da Vylor entre os produtores também por meio dos portfólios de outras empresas de sementes.

Resumo

  • Brasil é segundo maior mercado da Vylor e prioridade para expansão
  • Spinoff tem portfólio avaliado em US$ 19 bilhões em genética e biotecnologia agrícola
  • P&D da empresa pode acelerar desenvolvimento de novas características genéticas de dez para dois anos