A Corteva vê o Brasil como plataforma global para desenvolvimento e exportação de produtos biológicos, um mercado que deve responder por cerca de um terço da proteção de cultivos no mundo na próxima década.

A avaliação é de Brook Cunningham, vice-presidente comercial global, em sua primeira apresentação pública na nova fase da empresa, após a separação da spinoff Vylor, que foi concluída nesta quinta-feira, 1º de outubro.

A executiva participou do GAFFF (Global Agribusiness Festival), que ocorre em São Paulo até hoje.

“Acho que o mercado de biológicos poderá representar um terço do mercado global de proteção de cultivos ao longo da próxima década. No Brasil, poderá ser ainda maior do que isso”, afirma.

O protagonismo brasileiro se apoia na rápida incorporação dessas tecnologias às lavouras e a demanda por mais sustentabilidade.

Segundo a executiva, cerca de 65% dos produtores do país já utilizam algum tipo de biológico, índice que coloca o mercado local na liderança mundial em relação a outras grandes regiões agrícolas.

A próxima onda de crescimento deverá vir principalmente dos biocontroles, segmento que começa a oferecer novas ferramentas para problemas tradicionalmente enfrentados apenas com defensivos químicos.

“À medida que entregarmos cada vez mais biocontroles, acho que é aí que poderemos realmente ver uma aceleração da adoção dos biológicos.”

A aposta da Corteva ganhou escala em 2023, quando a companhia concluiu as aquisições da Stoller e da espanhola Symborg por aproximadamente US$ 1,6 bilhão.

A primeira trouxe uma operação consolidada em fisiologia e nutrição vegetal e forte presença no Brasil. A Symborg acrescentou conhecimento em microbiologia e soluções biológicas.

A combinação formou a base da Corteva Biologicals. O movimento agora combina pesquisa própria, aquisições e aproximação com empresas menores e centros de pesquisa.

“Existem muitas empresas pequenas e médias que possuem competências ou inovações que não temos internamente na Corteva”, diz Cunningham.

A estratégia prevê ainda mais investimentos em negócios em estágio inicial e tecnologias desenvolvidas fora dos laboratórios da multinacional.

Novas moléculas

A expansão dos biológicos não significa, porém, uma retirada da química. A Corteva prepara novas moléculas para enfrentar a crescente resistência de fungos, insetos e plantas daninhas.

Seu pipeline de proteção de cultivos está avaliado em cerca de US$ 11 bilhões. Para os próximos dez anos, estão previstas 12 novas tecnologias, incluindo sete novos ingredientes ativos e cinco produtos biológicos.

Segundo Cunningham, desenvolver e levar uma nova molécula de proteção de cultivos ao mercado custa cerca de US$ 300 milhões e demanda 13 anos, considerando pesquisa, desenvolvimento e processos regulatórios.

O Brasil também aparece no mapa dos principais lançamentos. A executiva cita o Haviza, fungicida direcionado à ferrugem asiática da soja e outras doenças de final de ciclo.

Segundo ela, é o primeiro novo modo de ação levado a esse mercado no país em aproximadamente 14 anos.

“Entregar tecnologia é algo que precisamos fazer ainda mais rapidamente”, afirma.

Brasil como laboratório

Essa busca por velocidade contribuiu para a separação dos negócios da antiga Corteva, concluída ontem.

A operação de sementes e genética passou a integrar a Vylor, enquanto a Corteva concentrou sua atuação em proteção de cultivos, incluindo químicos e biológicos.

Felipe Daltro, presidente da Corteva para a América Latina, reforça que a estratégia empresa passa por evitar soluções padronizadas em um mercado que muda conforme região, escala, cultura e perfil do produtor.

A companhia mantém abordagens distintas para grandes grupos agrícolas, produtores de venda direta, cooperativas e distribuidores.

“Não tem mais uma ferramenta ou uma solução que serve para tudo num país continental como esse e nem em cada hectare da propriedade”, completa Daltro.

Essa diferenciação pode envolver desde a integração entre produtos químicos e biológicos até questões financeiras, tributárias ou de sucessão familiar.

“Cada família tem um momento, está com um tema de sucessão familiar, precisa de uma ajuda com uma reforma tributária, tem que entender a forma como integra melhor o produto biológico com o produto químico”, afirma.

Em um ambiente de juros elevados e crédito mais restrito no Brasil, a companhia também procura alternativas financeiras que permitam ao produtor incorporar as novas tecnologias.

Segundo Daltro, a operação brasileira terá ainda o papel de desenvolver modelos que possam ser replicados em outros mercados. Práticas desenvolvidas no Brasil já começam a ser levadas a países como México, Argentina e Paraguai.

A combinação de agricultura tropical, diferentes escalas de produção e diversidade de culturas transforma o país, segundo ele, em campo de testes para tecnologias e novas formas de relacionamento com o produtor.

“Isso permite muito a gente pegar o conhecimento que existe no Brasil, que nasce aqui dessa agricultura tropical, sustentável, que tem larga escala, média escala, pequena escala, uma variedade incrível, e usar o Brasil como um case e escalar esses cases”, finaliza.

Resultados

Corteva registrou vendas líquidas de US$ 3,85 bilhões em proteção de cultivos no primeiro semestre de 2026, alta de 3,2% sobre igual período de 2025. Os dados foram divulgados ontem, já após a separação entre a Corteva e Vylor

O Ebitda operacional avançou de US$ 731 milhões para US$ 815 milhões, com expansão da margem de 19,6% para 21,2%. Na América Latina, as vendas somaram US$ 861 milhões.

O lucro das operações continuadas após impostos, porém, recuou de US$ 318 milhões para US$ 211 milhões.

O resultado foi impactado por US$ 229 milhões em itens significativos antes de impostos, incluindo US$ 108 milhões relacionados a reestruturação e ativos e US$ 121 milhões em acordos estimados de ações judiciais ligadas a uma investigação da Federal Trade Commission (FTC) dos Estados Unidos.

Resumo

  • Corteva vê o Brasil como polo global para desenvolvimento e exportação de produtos biológicos, com forte adoção no campo
  • Companhia prevê 12 novas tecnologias em proteção de cultivos, incluindo sete ingredientes ativos e cinco produtos biológicos
  • Após a cisão da Vylor, Corteva reforça foco em químicos e biológicos e usa o Brasil como laboratório para soluções replicáveis