O desempenho das empresas do agronegócio de capital aberto na B3 pode ser acima da média em seus respectivos segmentos, segundo relatório do Itaú BBA com a visão sobre algumas empresas do setor para 2027.
De acordo com o banco, as preocupações climáticas e a volatilidade macroeconômica continuarão movimentando o mercado no próximo ano, podendo manter em alta os preços das commodities agrícolas – e, assim, ajudando a incrementar os números das companhias.
Produzido após as apresentações da Commodities Conference, encontro com empresas de capital aberto e não listadas, especialistas e investidores do setor, o documento destaca, no entanto, a importância de monitorar as implicações operacionais para as companhias, em termos de produtividade.
Segundo o relatório, as margens de esmagamento de soja seguem sendo o principal tema entre os investidores. “A desalavancagem permanece como tema nas discussões com as equipes de gestão, refletindo a necessidade de equilibrar ciclos recentes de investimento e o aumento gradual das operações em meio a um cenário de custo de capital ainda elevado”, resume o banco.
Outro ponto de destaque do documento são os mercados de açúcar e etanol, que registram forte valorização de preços nos últimos meses.
O banco aponta que o atual cenário continua favorável aos produtores, com melhores perspectivas de produtividade na região Centro-Sul. Mas as chuvas acima da média podem afetar os volumes de moagem nesta safra, reduzindo os dias de colheita e interrompendo as operações das usinas.
Para os analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama, do time agro do Itaú BBA, as preocupações estão na atual fase de baixa do ciclo pecuário no Brasil, o que pode pressionar, futuramente, os custos de insumos.
Isso em função da recuperação do ciclo da carne bovina nos Estados Unidos, em contraste com uma perspectiva menos favorável para o setor de aves, à medida que a oferta se normaliza e os custos de grãos para ração aumentam.
O cenário também está menos favorável para as exportações de carne bovina, o que reflete incertezas quanto à dinâmica das cotas de importação da China e restrições que afetam o acesso à União Europeia.
O relatório aborda um possível descompasso temporal entre a recuperação do setor de carne bovina nos EUA e os custos mais elevados de grãos, o que leva os investidores a adotarem cautela até que haja uma maior visibilidade no setor.
No mesmo documento, o Itaú BBA traz cenários específicos para cinco empresas do agronegócio com capital aberto na Bolsa de Valores: SLC Agrícola, 3tentos, São Martinho, JBS e MBRF.
A desalavancagem permanece como a principal prioridade financeira da SLC Agrícola, com a expectativa de que a força sazonal do segundo semestre sustente a geração de caixa.
Segundo o relatório, a empresa tem gerenciado ativamente seu perfil de dívida, alongando prazos de vencimento e melhorando a estrutura de passivos.
Além disso, a companhia “não descarta potenciais iniciativas que incluem operações de sale-leaseback (venda com arrendamento de volta), o que poderia acelerar o processo de desalavancagem e proporcionar flexibilidade financeira adicional, mantendo as terras sob sua operação”, diz o texto.
O Itaú BBA recomenda a compra da ação da SLC Agrícola, estipulando um preço-alvo de R$ 19 no fim do ano de 2026. Nesta segunda-feira, os papeis da companhia fecharam a R$ 17,58.
O mesmo preço-alvo (R$ 19) foi previsto para a 3tentos, mas para o fim de 2027 (a cotação atual está pouco acima dos R$ 10) e também com indicação outperform, que corresponde a uma recomendação de compra.
O relatório destaca que o foco da empresa está na aceleração operacional dos ativos existentes e no fortalecimento do fluxo de caixa.
A 3tentos mantém o foco na aceleração de projetos nas operações de milho, que devem contribuir para os resultados. Segundo o banco, a prioridade da companhia é otimizar os atuais investimentos antes de dar início a novos projetos de expansão, mantendo uma abordagem na alocação de capital e na gestão do balanço patrimonial.
Para a São Martinho, o Itaú BBA manteve recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 21 por ação para o fim de 2027, uma valoriação modesta diante dos atuais R$ 18,50.
Segundo a análise do banco, a empresa tem aproveitado o atual cenário de preços para acelerar as operações de hedge para a safra. Um ponto positivo para a São Martinho é que o melhor desenvolvimento da cana soca pode reduzir parcialmente a necessidade de investimentos em renovação do canavial.
A empresa, segundo o banco, espera manter sua estratégia de concentrar as vendas de etanol no período de entressafra e “o ativo biológico da unidade Santa Helena já apresentou melhora na produtividade, impulsionada por melhores condições de chuva e maior TCH (toneladas de cana por hectare), reduzindo a necessidade de obter matéria-prima de terceiros ou por meio de áreas arrendadas”, resume.
O desafio das carnes
Outra ação recomendada é a da JBS, prevendo um preço-alvo de US$ 18 no fim de 2026, um ganho de quase 50% em relação ao fechamento desta segunda (US$ 12,06).
No Brasil, os volumes de carne bovina devem permanecer mais baixos após o término da atual cota para a China, antes de se recuperarem em direção ao quarto trimestre.
A companhia, diz o Itaú BBA, acredita ter mantido um bom desempenho em termos relativos, enquanto as fortes exportações devem sustentar as perspectivas.
De acordo com o documento, a JBS reafirmou a importância de manter flexibilidade em relação a capital de giro, investimentos e despesas financeiras, enquanto trabalha para alcançar um perfil mais consistente de geração de caixa e distribuição de dividendos.
Para finalizar, o relatório aponta um preço-alvo da ação da BRF de R$ 23 para o fim do ano de 2027, com posição neutra (market perform). Os papeis foram negociados no patamar de R$ 16,75 nesta segunda.
A empresa projeta uma melhora no terceiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior, apesar do início fraco, e espera que o quarto trimestre também se beneficie de uma dinâmica setorial mais favorável.
Para 2027, segundo o banco, a BRF vislumbra um cenário favorável, embora os preços no mercado interno e os custos de ração permaneçam como variáveis-chave.
A empresa vê margem para repassar custos mais elevados, contando também com o aumento significativo na relação de preços entre frango e carne bovina.
Resumo
- Itaú BBA avalia que ações de empresas do agronegócio podem ter desempenho acima da média até 2027
- Banco destaca impactos de commodities, clima, juros e desalavancagem sobre os resultados das companhias
- Relatório analisa SLC Agrícola, 3tentos, São Martinho, JBS e BRF, com recomendações e preços-alvo distintos