Muitas vezes, os investidores olham para o mercado de ações com uma abordagem setorial. Bancos, energia elétrica, petróleo. Mas nesta sexta-feira, 4 de setembro, e no decorrer de toda essa semana, essa lógica não valeu para as três gigantes brasileiras processadoras de carnes.
No último pregão da semana, as três companhias tiveram desempenhos bastante distintos nos pregões das Bolsas de Valores de São Paulo e de Nova York, refletindo os impactos do bloqueio temporário imposto pela União Europeia às carnes brasileiras.
A que mais recuou nesta sexta-feira foi a ação ON da MBRF, que caiu 3,70%. De acordo com analistas, a empresa é a mais exposta ao mercado europeu.
Além disso, em uma análise técnica, os investidores podem sentir facilidade em fazer uma troca de ativos dentro do setor. Isso porque, em 30 dias até ontem, a ação da MBRF era a que tinha melhor desempenho entre as três.
No caso da JBS, o papel negociado em Nova York também fechou em baixa, mas de menor intensidade, de 0,84%.
Segundo os agentes de mercado, a JBS é a maior e mais diversificada em termos de receitas entre as três. Por isso, os impactos operacionais para a companhia acabam sendo compensados por outros mercados.
Mesmo assim, a ação da JBS caiu pouco mais de 4% na semana, com o movimento iniciado a partir de quarta-feira, quando foi anunciado o bloqueio por parte da União Europeia.
Já a Minerva teve um comportamento diferente, especialmente nesta sexta-feira. A ação ON da companhia fechou o último pregão da semana em alta de 4,2% e, assim, zerou as perdas acumuladas na semana.
Analistas afirmam que a Minerva é a menos impactada pelo bloqueio europeu, por dois motivos. A União Europeia tem participação próxima de 1% nas exportações da companhia. E caso não queira perder mercado no Velho Continente, a Minerva pode redirecionar sua linha de exportação para as operações que possuí nos vizinhos brasileiros, principalmente Argentina e Uruguai.
O Brasil exporta cerca de US$ 2 bilhões por ano em produtos de origem animal para a União Europeia. Nesta categoria estão inclusos, além de bovinos e aves, suínos, pescados e mel.
Apesar do valor final representar cerca de 5% das exportações totais globais de carnes brasileiras, o mercado europeu compra produtos de maior valor agregado que outros mercados.
Segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a União Europeia paga, em média, US$ 10 por quilo de carne brasileira, enquanto a China, por exemplo, paga uma média de US$ 6,50 por quilo.
Situação ainda indefinida
Nesta sexta-feira, pouco mudou após o anúncio feito na última quarta-feira sobre a suspensão das importações de carne brasileira pela UE.
Em nota divulgada no dia do bloqueio, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirma que, desde que entraram em vigor as novas exigências sobre uso de antimicrobianos pela UE, vem trabalhando juntamente com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para reverter a situação.
A entidade conta que está em execução um novo protocolo para uso desses produtos, conforme as exigências do mercado europeu.
“O protocolo, que faz parte das garantias oficiais brasileiras, já está em processo de execução junto à cadeia, sendo que 100% das empresas associadas à ABIEC e habilitadas ao mercado europeu estão aderidas”, diz a Abiec.
Resumo
- MBRF, JBS e Minerva tiveram desempenhos distintos na Bolsa após o bloqueio temporário da União Europeia às carnes brasileiras
- MBRF foi a mais pressionada, enquanto JBS teve queda moderada e Minerva recuperou as perdas da semana
- Mercado europeu paga mais pela carne brasileira, tornando o bloqueio relevante apesar de representar parcela menor das exportações