A multinacional alemã Boehringer Ingelheim, uma das maiores empresas globais do setor de saúde animal, estuda ampliar para a pecuária de corte um modelo de certificação que já ajuda a reduzir o uso de antimicrobianos em fazendas leiteiras. O que parece um contrassenso, pois ela própria comercializa esse tipo de medicamento, faz parte de uma estratégia mais ampla.

José Peron, diretor de Saúde Animal da Boehringer Ingelheim no Brasil, explica que a companhia aposta na prevenção para melhorar a eficiência produtiva e enfrentar a resistência antimicrobiana.

“O que estamos fazendo é para prevenir doenças, evitar que elas aconteçam. Se houver uma doença, também temos o tratamento”, garante.

O primeiro passo foi dado na pecuária leiteira com a Certificação em Biosseguridade (CBS), desenvolvida pela empresa em parceria com a Embrapa Gado de Leite.

O programa estabelece 140 protocolos e pontos de controle para reduzir riscos sanitários, prevenir doenças e racionalizar tratamentos.

“Começamos pelo leite por ser um sistema mais contido, estamos tendo bons resultados e planejamos levá-los à pecuária de corte”, diz Peron.

Fazendas leiteiras tendem a funcionar como unidades mais fechadas, nas quais é mais simples definir protocolos e controlar a entrada de animais e pessoas.

O CBS certificou as duas primeiras propriedades em 2024, as fazendas Colorado e Santa Luzia, e, segundo a empresa, outras 160 demonstraram interesse. “Estamos vendo a aplicabilidade e temos, inicialmente, uma oportunidade muito grande de escalar isso”, afirma.

Certificação para corte

A pecuária de corte representa uma etapa mais complexa – e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para um mercado bem maior.

Um mesmo bovino pode passar por propriedades distintas nas fases de cria, recria e engorda, o que exige um modelo capaz de acompanhar diferentes elos da cadeia.

“O corte tem um sistema mais difícil porque as porteiras geralmente não são fechadas. O sistema precisa certificar de ponta a ponta”, explica.

É nesse ponto que Peron vê uma convergência com o avanço da rastreabilidade dos rebanhos brasileiros. “O Brasil vem avançando no seu programa nacional de identificação de bovinos e bubalinos. É a direção da rastreabilidade de ponta a ponta. É tudo convergente.”

A estratégia também ganha relevância diante do aumento das restrições internacionais ao uso de antimicrobianos. Desde 3 de setembro, a União Europeia (UE) proibiu o Brasil de exportar produtos de origem animal, como carne de aves, suínos e bovinos, para aquele mercado.

O bloco europeu não reconhece os protocolos brasileiros sobre a ausência do uso de antimicrobianos promotores de crescimento ou reservados à medicina humana.

“O desafio que estamos tendo hoje é conseguir demonstrar, por meio de práticas auditáveis e controláveis, que aquilo que o consumidor europeu deseja já está sendo feito aqui”, afirma.

A expansão do modelo de certificação para a pecuária de corte, entretanto, ainda não tem prazo estabelecido.

Impacto positivo

Os resultados das primeiras propriedades leiteiras certificadas mostram, segundo a empresa, que a adoção de protocolos sanitários reduz o uso de antibióticos e eleva a eficiência.

Na Fazenda Colorado, uma das maiores do País na produção de leite, localizada em Araras (SP), 100% das vacas recebiam antibióticos no momento da secagem até 2016.

A partir de 2024, com a certificação, cerca de 64% passaram a receber exclusivamente selante de teto e apenas 36% necessitaram de antimicrobianos. No período, o rebanho em lactação cresceu de 1,7 mil para 2,4 mil vacas.

"Mesmo com o crescimento do rebanho, os tratamentos de mastite diminuíram", pontua Sérgio Soriano, diretor da Fazenda Colorado.

Já na Fazenda Santa Luzia, em Passos (MG), o CBS contribuiu para reduzir em cerca de 50% o uso de antibióticos nos casos de mastite clínica e em 70% nos casos de Tristeza Parasitária Bovina (TPB).

Nesta fazenda, a mudança evita ainda o descarte de cerca de 244 mil litros de leite por ano. A valores atuais, o volume representa mais de R$ 660 mil.

"O maior ganho está no leite que deixa de ser descartado pelo prazo de carência após uso de antibióticos”, apontou Maurício Coelho, da Santa Luzia.

A certificação acrescenta outra dimensão à estratégia comercial dos produtores ao comunicar as boas práticas dentro da porteira a compradores e consumidores. Nesse sentido, o programa pode funcionar também como instrumento de reputação e acesso a mercados.

“Comunicar com o selo do CBS converte biosseguridade em preferência do consumidor”, finaliza Alexandre Sardo, gerente de Marketing e Trade da marca Xandô, produzida na Fazenda Colorado.

Resumo

  • Boehringer Ingelheim avalia expandir para a pecuária de corte o modelo de certificação de biosseguridade criado para fazendas leiteiras
  • Programa desenvolvido com a Embrapa estabelece protocolos para prevenir doenças e reduzir o uso de antimicrobianos nas propriedades
  • Na pecuária de corte, a certificação pode se integrar ao avanço da rastreabilidade e facilitar o acesso a mercados internacionais