A partir do próximo dia 18 de setembro, três estudantes goianos viverão uma semana dos sonhos para qualquer empreendedor: passarão por uma imersão em alguns dos templos da tecnologia ndo Vale do Silício, na Califórnia (EUA).
A programação inclui experiências em empresas como GitHub, Google e AWS e é parte da premiação que conquistaram ao vencerem a categoria Green Tech & Agtech na 14ª edição da Campus Mobile, realizada pelo Instituto Claro.
Seu projeto, o aplicativo WiMilk, ataca uma das principais dores dos produtores de leite. Através de um software “turbinado” por inteligência artificial, eles criaram uma ferramenta capaz de identificar sinais de mastite bovina antes que a doença se manifeste clinicamente.
O WiMilk foi desenvolvido por Giovanna Vargas Barbosa, recém-formada em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), ao lado de Luca Plaster, formado em Ciência da Computação pela UFG, e Pedro Viana, ainda cursando Ciência da Computação na PUC Goiás.
Essa combinação de experiências e formações em diferentes instituições do estado permitiu transformar um desafio do campo em um produto tecnológico de destaque. O projeto foi um dos vencedores em meio a 417 trabalhos inscritos, que reuniram 894 estudantes de todas as 27 unidades federativas do país.
A ideia nasceu ainda na graduação, época em que Giovanna já prestava consultoria e estagiava em fazendas de leite. No dia a dia, a estudante notou um gargalo comum a várias propriedades do setor:
“As vacas costumam ter mastite bovina com recorrência, além de outros problemas, como podais (relacionados aos cascos e patas dos animais) e estresse térmico, que afetam muito a produção do leite”, detalha Giovanna.
Focada em melhorar a produtividade e a saúde do rebanho, ela deu início ao projeto percebendo que a atividade não recebia o mesmo nível de inovação que outras áreas. “Todo mundo queria criar soluções para os desafios da agricultura, que era mais rentável, ou da pecuária de corte. A pecuária de leite precisa de uma atenção, principalmente em relação a doenças.”
O WiMilk opera com a combinação entre visão computacional e sensores de identificação eletrônica instalados em pontos estratégicos da propriedade, como salas de ordenha e áreas de alimentação.
A IA analisa padrões de alimentação, descanso e movimentação dos animais. Mudanças sutis nesse comportamento funcionam como um alerta precoce, enviado diretamente ao celular do produtor antes que a mastite evolua para um quadro mais grave.
“O maior prejuízo da pecuária leiteira mundial é a mastite bovina. Através disso, a análise comportamental foi a principal solução que tivemos para esse tipo de problema, principalmente em fazendas de médio e grande porte.”
Um estudo publicado em 2024 na Journal of Daily Science, mais conceituada revista científica do mundo na área de pesquisa sobre leite e laticínios, mapeou em 183 países, perdas anuais de aproximadamente US$ 65 bilhões causadas por doenças em bovinos leiteiros.
Desse total, cerca de US$ 13 bilhões foram atribuídos à mastite clínica e US$ 9 bilhões à mastite subclínica, totalizando aproximadamente US$ 22 bilhões por ano, ou 34% das perdas analisadas. Os autores estimaram ainda prejuízos médios de US$ 72,13 por vaca/ano para a mastite clínica e US$ 50,33 por vaca/ano para a forma subclínica
Segundo a equipe do projeto, o uso do aplicativo permite reduzir em até 60% o uso de antibióticos no rebanho, além de melhorar o bem-estar animal e diminuir as perdas econômicas causadas pelo descarte de leite contaminado.
A operação principal do WiMilk acontece na fazenda do cantor Amado Batista, em Goianápolis (GO), onde mais de 600 animais vivem sob monitoramento e a equipe concentra o acompanhamento no período pós-parto, treinando o modelo com vacas holandesas e girolando.
Um segundo teste, em uma propriedade de Varjão, também em Goiás, com pouco mais de 200 cabeças, já trouxe um resultado significativo: 92% de acurácia no treinamento da inteligência artificial.
"Estamos no final do MVP (Produto Mínimo Viável). Nós temos muitas imagens para o treinamento da IA e a nossa meta é mais de 5.000", projeta Giovanna.
Segundo as estimativas da equipe, quando o WiMilk atingir maior robustez, uma propriedade com 150 vacas poderá economizar R$ 83 mil em um ano. Esse valor combina uma redução de 60% no uso de antibióticos com um salto de 25% na longevidade produtiva do rebanho.
O caminho até o pódio
O WiMilk avançou sem patrocínio institucional, bolsas ou orientação acadêmica formal. Segundo Giovanna, essa independência vem da origem plural dos fundadores.
"Como cada um veio de uma instituição diferente, optamos por não nos vincular a uma única universidade. Tudo foi construído com base nas nossas próprias vivências", explica.
Sem o apoio tradicional, os sócios uniram a experiência no campo com conhecimentos em robótica, hardware e software para adaptar a tecnologia à realidade do agronegócio.
Os próximos passos do WiMilk já estão desenhados em um plano de negócios de dois anos, período também vinculado à prestação de contas junto à Fapeg. A agência de fomento contemplou os estudantes em outra premiação.
Os recursos desta conquista serão investidos na compra de equipamentos e em cursos nas áreas comercial e jurídica.
A equipe já contratou mais pessoas para a anotação de dados à inteligência artificial e projeta concluir o desenvolvimento ainda neste ano para iniciar a comercialização em 2027.
O WiMilk é apenas o segundo projeto de Goiás a vencer o programa em 14 edições. "É um peso enorme carregar a mensagem de que Goiânia tem potencial", afirma a Giovanna.
Agora, o grupo planeja usar a imersão no Vale do Silício para abrir portas entre o agronegócio goiano e o mercado dos Estados Unidos. "A expectativa é fazer essa conexão, pois temos muito potencial de crescimento e de exportação", completa a veterinária, com empolgação.
Antes da vitória atual, a equipe já havia conquistado R$ 60 mil no Agro Startup 2025, promovido pelo Senar e pelo Sebrae, considerado por Giovanna "a nossa primeira grande conquista com o WiMilk".
Depois vieram reconhecimentos internacionais sem premiação em dinheiro, como o prêmio do BRICS, que rendeu à startup um showroom na China e outro em São Francisco.
No próprio Campus Mobile, o prêmio veio em camadas: primeiro R$ 2.500, depois mais R$ 9.000 e, por fim, a viagem para a Califórnia, com hospedagem, passagens, alimentação e transporte totalmente cobertos.
"Nós ganhamos muito mais do que dinheiro, porque eles bancaram hospedagens, passagens, todo o conforto, transporte, alimentação. Nós ficamos totalmente despreocupados com essa questão", conta a veterinária.
O Campus Mobile é uma premiação que tem como objetivo incentivar estudantes universitários e recém-formados a desenvolverem soluções tecnológicas com potencial de impacto social em diversos segmentos, entre eles, o agronegócio.
A iniciativa conta com o apoio institucional da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e do beOn Claro, hub de inovação da companhia.
Resumo
- Aplicativo desenvolvido por estudantes de Goiás usa IA e visão computacional para detectar sinais precoces de mastite bovina
- WiMilk já monitora mais de 800 animais e alcançou 92% de acurácia em testes realizados em propriedades goianas
- Startup venceu o Campus Mobile e fará imersão no Vale do Silício antes de iniciar a comercialização da tecnologia, prevista para 2027