O etanol de milho ganhou escala no Brasil aproveitando uma matéria-prima que o País tem de sobra.
Para continuar crescendo e reforçar a pegada sustentável do biocombustível brasileiro, porém, as usinas terão de olhar cada vez mais para outro insumo essencial à operação – e que exige uma dose bem maior de planejamento e capital: a biomassa, essencial para geração de energia térmica das operações e que provém preferencialmente de florestas plantadas de eucalipto.
A diferença está, sobretudo, no tempo necessário para colocar essa matéria-prima à disposição da indústria.
Enquanto a oferta de milho consegue responder mais rapidamente aos sinais do mercado, uma mata de eucalipto precisa começar a ser formada anos antes de a madeira chegar às caldeiras.
Uma usina de etanol de milho geralmente leva entre 12 e 24 meses para ficar pronta. Uma floresta plantada, por sua vez, precisa de seis a sete anos até atingir o ponto de colheita.
Esse descompasso entre o relógio da indústria e o da floresta tem coocado a biomassa no centro das decisões de investimento das companhias que planejam a instalação de novas unidades ou ampliações de capacidade industrial.
O assunto foi tema do painel “Biomassa e sustentabilidade do setor”, realizado durante o TECO 2026, principal evento da cadeia de biocombustíveis na América Latina, promovido pela Novonesis nesta semana, em São Paulo.
A discussão reuniu Marcelo Schmid, sócio da consultoria Index, Victor Bertin, gerente de planejamento e comercialização florestal da Dexco, Eduardo Paiva, diretor executivo da CerradinhoBio, e Daniel Ruschel, key account manager da ICM.
E os números apresentados durante o painel ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Em um exercício feito pela Dexco, formar 300 mil hectares de florestas ao longo de seis anos exigiria aproximadamente R$ 10,5 bilhões.
Além do capital, seriam necessárias 365 milhões de mudas, cerca de 800 trabalhadores e uma frota entre 80 e 90 tratores.
A estimativa considera um investimento de R$ 35 mil por hectare ao longo de duas rotações. Apenas na primeira, segundo Bertin, o desembolso ficaria entre R$ 20 mil e R$ 25 mil por hectare.
Diante de uma conta desse tamanho, a discussão deixa de ser apenas sobre as vantagens ambentais do biocombustível brasileiro e passa também pela sustentabilidade financeira e quem financiará a formação dessa nova base florestal.
“Quem vai pagar a conta? A princípio eu vejo que isso fica uma parte com o dono da usina, até com a questão de garantia, enfim, de negócios com fundos. E a outra parte é com quem realmente está plantando”, afirmou Bertin.
Para Marcelo Schmid, da consultoria Index, a floresta plantada deve ser olhada pelo mercado das usinas de etanol de milho como investimento, e não custo. “É um investimento que vai retornar lá no ano certo, quando se tiver uma floresta que não é suscetível a pragas, que tem uma alta produtividade.”
O exemplo da CerradinhoBio
Na CerradinhoBio, essa equação começou a ser enfrentada antes mesmo de algumas expansões industriais saírem do papel. A experiência dos últimos anos levou a companhia a incorporar a biomassa ao planejamento dos projetos, em vez de tratá-la como uma compra a ser resolvida apenas depois que a planta estivesse pronta.
A empresa, que possui uma usina de cana-de-açúcar e etanol de milho em Chapadão do Céu (GO) e duas exclusivamente dedicadas à produção de etanol de milho em Maracaju (MS), foi aumentando gradualmente sua capacidade de processamento de cereal enquanto estruturava, em paralelo, a base necessária para abastecer as caldeiras.
“Poderíamos ter colocado plantas maiores, mas a gente veio com cautela justamente porque não tinha biomassa sobrando onde a gente estava, a biomassa está longe”, afirmou Eduardo Paiva, diretor executivo de originação da CerradinhoBio.
No Mato Grosso do Sul, por exemplo, essa preparação começou anos antes da entrada em operação da unidade de Maracaju, no início de 2024. Segundo Paiva, a CerradinhoBio passou pelo menos dois ou três anos adquirindo ativos florestais antes de colocar a fábrica para funcionar.
“Já vínhamos comprando bastante ativo, bastante floresta, segurando realmente o capital investido nisso”, afirmou.
É justamente essa necessidade de antecipar investimentos que muda a conta de uma nova planta de etanol de milho.
Segundo o exercício apresentado por Paiva, uma unidade capaz de processar 1 milhão de toneladas de milho precisa de algo entre 11 mil e 12 mil hectares de eucalipto para garantir seu abastecimento.
Se uma planta desse porte demanda entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,5 bilhão de investimentos totais, a formação da floresta necessária para sustentá-la pode adicionar cerca de R$ 300 milhões ao projeto.
Na prática, é um investimento adicional próximo de 20% do capital aplicado na própria unidade industrial. “Você precisa ter isso para investir na floresta”, afirmou Paiva.
O problema é que essa conta também ficou mais cara nos últimos anos. Com a expansão das indústrias de celulose e de outros consumidores de madeira pelo Centro-Oeste, aumentou a demanda por áreas aptas ao cultivo de eucalipto – e, junto com ela, o preço dos arrendamentos.
No Mato Grosso do Sul, onde muitas indústrias de papel e celulose estão implantando fábricas com inaugurações previstas para os próximos anos, os valores praticamente dobraram em menos de uma década, disse Paiva.
“Se nós olhássemos há seis ou sete anos atrás, a gente já arrendava a terra para eucalipto, terras mais mistas, por R$ 700 ou R$ 800. Hoje, você vai na região e a pessoa fala em R$ 1,2 mil, R$ 1,3 mil para arrendar. É uma conta que, para nós, não fecha fácil.”
Além de mais caro, o desembolso ocorre anos antes de a indústria começar a consumir a madeira. Por isso, a CerradinhoBio vem combinando diferentes alternativas para reduzir a exposição a uma única fonte de abastecimento.
Além dos ativos próprios, a companhia trabalha com áreas arrendadas, produtores parceiros e biomassas alternativas. Outra frente é tentar aproximar produtores rurais desse mercado.
A proposta não é convencê-los a substituir soja e milho pelo eucalipto, mas apresentar a floresta como uma alternativa para diversificar o uso de determinadas áreas da propriedade.
“O que a gente tem tentado fazer não é nem o produtor sair da soja e do milho e entrar na biomassa, e sim diversificar um pouco os seus investimentos”, afirmou Paiva.
Segundo Paiva, considerando os ativos próprios da CerradinhoBio, a biomassa pode chegar à indústria por valores entre R$ 250 e R$ 330, dependendo da distância percorrida.
Quando a companhia precisa recorrer ao mercado, essa mesma conta pode subir para R$ 450, R$ 500 ou até R$ 550.
A distância entre a floresta e a usina ajuda a explicar a diferença. Ao contrário de outros segmentos consumidores de madeira, a indústria de etanol tem menor capacidade de absorver fretes longos sem comprometer a conta da biomassa.
“Para nós 100 quilômetros é longe, 120 quilômetros é longe, 150 quilômetros é longe. O papel e celulose anda isso, 200, 250 quilômetros, eles conseguem logicamente andar. A conta para nós pesa muito, a gente não fecha isso”, afirmou Paiva.
É justamente para reduzir essa exposição que a CerradinhoBio pretende aumentar a participação dos ativos próprios no abastecimento nos próximos anos.
A companhia hoje adquire biomassa de terceiros, além de fazer o arrendamento de áreas e fomento de plantio via parcerias.
Mas a ideia é que, já a partir de 2028, a companhia esteja trabalhando com 53% de ativos próprios e, a partir de 2030, trabalhe apenas com ativos próprios.
Dexco leva máquinas para plantar florestas
Se as usinas estão avançando sobre o negócio florestal para garantir biomassa, o movimento inverso também começa a acontecer: empresas que já atuam no segmento agora estão seguindo a expansão do etanol de milho pelo Centro-Oeste.
É o caso da Dexco, controlada pela Itaúsa, mais conhecida por marcas de piso e louças como Deca, Hydra e Portinari, mas que também possui uma operação florestal relevante.
A companhia mantém 296 mil hectares de florestas plantadas em estados como São Paulo, Minas Gerais e Alagoas e começou, mais recentemente, a formar uma nova operação em Mato Grosso, justamente de olho na demanda criada pelas usinas de etanol de milho.
O plantio começou em novembro do ano passado, em Rondonópolis (MT), e havia alcançado 1,4 mil hectares até março, disse Victor Bertin, gerente de planejamento e comercialização florestal da companhia no painel.
A chegada a uma nova fronteira, porém, exige adaptar o conhecimento acumulado em regiões onde a cadeia florestal já está consolidada às condições do Centro-Oeste. “A gente traz histórico de outras regiões, mas temos que aprender também”, afirmou Bertin.
A Dexco já conduz quatro experimentos no Estado para identificar quais materiais genéticos melhor respondem às características de cada região, buscando combinar maior produtividade com resistência ao déficit hídrico e a doenças.
“Uma parte de Mato Grosso é mais seca, então é um manejo diferente, um material genético diferente. Outra parte é um pouco mais úmida e tem problema com doença, então precisamos ter material resistente. É muito dinâmico”, afirmou.
Na avaliação do executivo, simplesmente levar para o Estado um material genético já disponível no mercado pode não entregar o desempenho esperado. “Posso colocar, mas provavelmente não vou ter a produtividade esperada.”
E a escala, nesse caso, não depende apenas de colocar mais hectares de eucalipto no chão. Para Bertin, será necessário aumentar a mecanização das operações para acompanhar a velocidade de crescimento das usinas – e também garantir produtividade.
“Não basta só plantar, a gente precisa ter produtividade. E não é só questão de custo. Preciso mecanizar para eu poder ter escala, para eu poder ter um crescimento”, afirmou o executivo.
Na Dexco, esse processo passa pelo uso de drones, plantio e irrigação mecanizados e adubação aérea. A companhia desenvolveu, por exemplo, um equipamento de irrigação que inicialmente atendia apenas uma linha de plantio e agora consegue operar três, com uso de inteligência artificial.
A empresa também passou a utilizar aviões para fertilização das florestas e preparou cinco pistas neste ano para viabilizar a operação.
“Não tem como plantar floresta em escala se não tivermos também a mecanização”, disse Bertin.
A necessidade de mecanizar ajuda a colocar em perspectiva novamente aquele exercício dos 300 mil hectares.
Para formar uma base florestal desse tamanho em seis anos, além dos R$ 10,5 bilhões, seriam necessárias 365 milhões de mudas, cerca de 800 trabalhadores e até 90 tratores.
“E também não é qualquer muda, né? Não é sair comprando por todos os viveiros que tem Brasil afora, e ir plantando. Precisa ter um material genético adequado.”
Por isso, embora o investimento na primeira rotação possa variar entre R$ 20 mil e R$ 25 mil por hectare, Bertin defende que o hectare não seja a principal unidade utilizada para avaliar a eficiência econômica da floresta.
“O custo nunca deve ser feito por hectare. E sim reais por metro cúbico produzido. Esse é o ponto mais importante.”
Olho na fábrica
Se Dexco e CerradinhoBio mostraram como ampliar e estruturar a oferta de biomassa, a americana ICM, especializada no projeto e construção de biorrefinarias, levou a discussão para dentro da fábrica: uma maneira de aliviar a pressão sobre a base florestal é reduzir a quantidade de biomassa necessária para produzir cada litro de etanol.
A lógica passa pela eficiência térmica. Quanto menos vapor uma planta precisa para operar, menor é a quantidade de madeira necessária para alimentar suas caldeiras.
Entre as tecnologias apresentadas por Daniel Ruschel, key account manager da ICM, durante o painel, estão evaporadores de múltiplos efeitos, integração entre processos térmicos, peneiras moleculares de baixa pressão, membranas para desidratação do etanol e sistemas de recompressão mecânica de vapor.
Em comum, as soluções procuram reaproveitar a energia que já está circulando pela fábrica.
Em um evaporador de múltiplos efeitos, por exemplo, o vapor produzido em uma etapa é utilizado como fonte de calor na seguinte. Segundo Ruschel, a tecnologia permite evaporar 2,8 quilos de água para cada quilo de vapor utilizado.
Já a recompressão mecânica recupera vapores de baixa pressão e eleva novamente sua pressão e temperatura com equipamentos movidos a eletricidade, permitindo que essa energia retorne ao processo.
“Eu estou deixando de produzir vapor vivo na caldeira e reaproveitando o calor da destilaria”, afirmou Ruschel.
Mas reduzir o consumo de biomassa também cria outra equação para as usinas brasileiras, destacou ele. Como muitas unidades produzem a própria eletricidade a partir do vapor gerado nas caldeiras, diminuir demais essa produção pode reduzir também a geração de energia.
Por isso, segundo Ruschel, a solução não é simplesmente levar o consumo de vapor ao menor nível tecnicamente possível, mas encontrar o equilíbrio econômico de cada planta.
“O ponto ótimo é você produzir o mínimo de vapor para pelo menos gerar a sua própria energia. Sem vender para a rede, mas também não comprar da rede.”
Resumo
- Com avanço do etanol de milho, setor discute investimentos e planejamento para ampliar oferta de biomassa às usinas
- Dentro das plantas, eficiência térmica e eletrificação entram na estratégia para reduzir o consumo de biomassa na produção
- Assunto foi tema de painel do TECO 2026, evento promovido pela Novonesis em São Paulo