A Nortox, uma empresa brasileira e familiar, com 70 anos de história, está conseguindo driblar a “crise do agro”, registrando crescimento nas vendas de seus defensivos agrícolas. E não é só isso. A companhia com sede em Apucarana, no Paraná, está pronta para dar novos saltos, no Brasil e no exterior.

Um dos sinais evidentes do plano de crescimento é a mudança no comando da empresa. O fundador, Humberto Amaral, virou presidente do Conselho de Administração da Nortox.

Para o cargo de diretor presidente contratou Romeu Stanguerlin, que foi executivo da Syngenta por mais de 20 anos e CEO da Adama por 7 anos, até janeiro, quando assumiu o comando da companhia paranaense.

No ano passado, a Nortox alcançou receita de R$ 2,9 bilhões, um crescimento de 11,5% em relação a 2024. Para esse ano, a previsão é crescer entre 8% e 10% e ultrapassar os R$ 3 bilhões , mesmo com o mercado “andando de lado”.

Durante encontro com jornalistas esta semana, os executivos da empresa mostraram o plano para dobrar de tamanho até 2030. A maior parte do negócio, 90%, é baseada em defensivos agrícolas, mas a companhia atua também em nutrição e sementes.

“Olhando em termos de futuro, dobrar de tamanho vem também de uma expansão internacional. Nós queremos que, lá na frente, 10% do nosso faturamento venha da operação internacional da Nortox”, afirmou Stanguerlin, em conversa com o AgFeed.

A trilha internacional já foi iniciada. Há vários anos a empresa está presente no Paraguai. No Chile, a Nortox atua com a venda da linha de nutrição, exclusivamente.

Há também um escritório no Uruguai, mas a investida mais recente foi no México. Para liderar o negócio por lá foi contratado Javier Valdes, um executivo que também trabalhou por muitos anos na Syngenta.

“Tem um outro país que a gente está olhando uma aquisição”, revelou o CEO, ao AgFeed. Ele não dá detalhes de qual seria o foco, o fato é que seria um país da América Latina. O fundador Humberto Amaral deixa claro que a Argentina segue descartada em função da falta de segurança jurídica de longo prazo para investir.

Hoje a empresa calcula que menos de 4% da receita venha de fora do Brasil. Quando “dobrar de tamanho” e chegar aos R$ 6 bilhões de receita, segundo Romeu Stanguerlin, a ideia é obter “entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões” da operação internacional.

“Tem muitas empresas em alguns países na América Latina, que são empresas como a Nortox, só que menores. Então, essas empresas, às vezes, têm uma linha de biológicos, uma linha de fertilizantes, têm alguns registros. É mais fácil para fazer o primeiro footprint”, descreveu ele, ao mencionar os diferentes caminhos para a expansão, que podem ser via M&A ou com a instalação de um escritório próprio, do zero.

A estratégia no Brasil, com novos produtos

O CEO da Nortox lembrou que, apesar dos planos internacionais, 90% da receita seguirá vindo do Brasil, por isso terá como prioridade a implantação da estratégia para seguir crescendo acima do mercado dentro do País.

Como será possível dobrar de tamanho se a área plantada de grãos já não cresce mais como antes? O executivo responde.

“O crescimento vem pela quantidade de novos produtos. Toda vez que você coloca um produto novo no seu portfólio, você agrega nisso. No ano passado, a Nortox teve 39 (novos) registros no Brasil”, ressaltou.

Foi a companhia que mais obteve registros junto ao Ministério da Agricultura (Mapa) em 2025. Esse ano a previsão é obter o aval para cerca de 20 produtos, mas a maior aposta em inovação deve ser ampliada daqui para frente.

A Nortox não trabalha com pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas, mas vem investindo em aprimorar produtos que já tiveram a patente vencida, por meio de novas formulações e combinações entre diferentes princípios ativos.

O encontro com jornalistas em São Paulo, por exemplo, teve como principal objetivo apresentar dois produtos chamados de “exclusivos”, que estão sendo lançados pela empresa.

São inseticidas que reúnem dois ingredientes ativos em uma única formulação, usando a tecnologia chamada OD (oil dispersion), que busca dar mais estabilidade e melhorar a performance do produto no campo.

Um deles é o Typhoon, que combina metomil e clorantraniliprole, indicado principalmente para o combate da cigarrinha, do percevejo e das lagartas na produção de milho. O outro é o Tempus, que associa clorpirifós e clorantraniliprole, recomendado para situações que envolvem lagartas maiores e de difícil controle.

A empresa testa seus produtos em campos experimentais próprios – Arapongas (PR), Primavera do Leste (MT) e Itumbiara (GO) – e também com uma rede de parceiros, em diversas regiões no Brasil.

Stanguerlin destacou que já tem 60 pedidos de registro de novos produtos protocolados junto ao Mapa, aguardando aprovação.

O plano de crescimento da empresa é também baseado nesta “taxa de inovação”. A Nortox ainda vende agroquímicos “commodity” como glifosato e tantos outros, que as vezes já vêm prontos de outros países, ou então a mistura da matéria-prima é feita aqui, pela empresa brasileira.

O CEO diz que entre 35% e 40% da receita já está relacionada a produtos mais elaborados. “Nós gostaríamos que 65%, 70% do nosso negócio viesse desse nosso novo pipeline”, aponta.

“Moléculas chinesas” a caminho

Um dos segredos do modelo da empresa são as “alianças estratégicas”, principalmente com grupos de países como China, Índia e Japão.

O AgFeed mostrou recentemente que o avanço dos defensivos chineses no mercado brasileiro, em breve, não se dará apenas via moléculas já conhecidas, os chamados genéricos ou pós-patente. Há ambições para apresentar e registrar no Brasil novas moléculas que vêm sendo desenvolvidas por grandes empresas chinesas.

Tudo indica que a Nortox também deve se beneficiar deste movimento. Segundo Stanguerlin, muitas das companhias chinesas que saíram do modelo B2B e passaram para o B2C no Brasil enfrentaram dificuldades.

O longo prazo entre produzir, trazer para o Brasil e receber do agricultor exige destas empresas uma condição diferente de capital de giro.

“Se ela vem pro Brasil, ela tem que produzir em fevereiro e março. Mandar pro Brasil pra chegar em junho, julho e agosto. O que que acontece em junho, julho e agosto? Ela vai vender esse produto pra receber em maio do ano que vem. Então o que que acontece? O ciclo do retorno do dinheiro para esse fornecedor chinês, que antes era de 60 dias (quando opera com parceiro nacional, como a Nortox), virou 18 meses”, explicou.

O executivo acredita que a chegada das novas moléculas desenvolvidas na China também será facilitada por um parceiro local, um relacionamento que a Nortox já tem há muitos anos.

O diferencial da companhia paranaense, ele diz, é o fato de ser uma das poucas nacionais que faz “síntese química” aqui no Brasil, ou seja, produz os ingredientes, se necessário. Isso também é um ponto a favor na hora de agilizar os registros.

O CEO admite que a Nortox “ainda não” está vendendo novas moléculas chinesas. “Mas nós temos algumas parcerias com empresas que estão desenvolvendo algumas moléculas que vão chegar aqui”.  A estimativa é já encaminhar para registro estes produtos entre 2028 e 2029.

Resumo

  • Presente em 5 países, fabricante brasileira de defensivos Nortox estuda fazer uma aquisição em mais um mercado da América Latina
  • Companhia tem plano de expansão para dobrar de tamanho até 2030 e alcançar faturamento de R$ 6 bilhões
  • Nortox lançou dois novos produtos ao mercado com foco nas pragas do milho e projeta crescimento entre 8% e 10% nas vendas este ano