Em tempos de discussões calorosas sobre mudanças climáticas, ESG, agricultura regenerativa e outros termos modernos em relação a produção agrícola no planeta, o tema em questão traz mais um item à pauta, sem modismo: a exaustão do modelo fitossanitário da agricultura atual.

O sistema de produção da maior parte das culturas de interesse comercial no Brasil, principalmente commodities, possui uma relação muito intensa com a fitossanidade das plantas. Isso se deve essencialmente ao fato de estarmos em zona tropical, com baixa amplitude térmica quando comparada a outras de clima temperado, como EUA e UE, onde o inverno rigoroso quebra o ciclo de vida da maior parte das pragas, doenças e ervas daninhas que acometem plantas.

Ainda assim, somos detentores de altas produtividades, também graças aos cuidados com sanidade que protegem os cultivos desses organismos indesejados.

Desta forma, o mercado de fitossanidade no Brasil é o maior do mundo, atingindo quase US$ 20 bilhões em vendas da indústria e seus revendedores no seu maior ano, 2022, segundo dados do Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal). Em 2025, o valor total vendido a agricultores ficou na casa dos US$ 18 bilhões.

A aplicação de defensivos químicos, quando feita preventivamente ou de forma calendarizada, seja de inseticidas, fungicidas ou herbicidas, trabalha contra a natureza. Ela, soberana, nos mostra que o caminho para o desequilíbrio pode ser rápido e doloroso. Vale lembrar que a monocultura por si só já é fator de desequilíbrio ambiental, na medida em que uma floresta nativa perene habita o balanço ideal entre plantas e seus inimigos naturais.

Quando optamos por apenas uma espécie vegetal, em grandes áreas, eliminamos boa parte da biodiversidade que mantém o sistema em harmonia. A consequência chega em forma de explosões de populações de pragas, doenças e ervas daninhas de difícil controle.

Na maioria das vezes, tenta-se controlar tudo isso com o velho e famoso agrotóxico, hoje renomeado agroquímico. Esquece-se, porém, que tratar malezas preventivamente com químicos agrava ainda mais o desbalanço, e a resposta pode vir em forma de resistência aos mesmos.

Organismos em população normal, quando diante de escassa concorrência ou predação, proliferam de forma exponencial, tornando-se pragas incontroláveis. Ainda mais, já diria Darwin, os poucos indivíduos naturalmente resistentes às moléculas químicas repetidamente aplicadas a campo sobrevivem ao tratamento.

As mesmas aplicações passam a não controlar a população subsequente que, imune, cresce rapidamente e ataca ou retira energia das plantas. Pragas e doenças primárias, quando não controladas, podem comprometer até 90% da produção de uma fazenda.

Os devidos tratos culturais para uma safra ou ciclo de uma cultura, mirando o controle dessas populações, guardam pouca relação com o planejamento orçamentário ou predição de gastos com os insumos necessários. Os agricultores enfrentam os desafios na medida em que aparecem e cuidam, a todo momento, para não perder produtividade.

É assim com boa parte dos desafios fitossanitários no Brasil. Mas a boa notícia é que dá para fazer diferente, se pensarmos em ferramentas preventivas, especificamente defensivos naturais, biológicos. Estes, quando produzidos com alta tecnologia e cuidado, podem ser aliados imprescindíveis no combate às principais pragas e doenças do agro. Ainda não ervas daninhas, pois os bioherbicidas não saíram das bancadas de P&D até o momento. Virão, com certeza, na sequência do que já existe no mercado.

Biodefensivos ocupam hoje algo em torno de 7% do mercado de proteção de plantas no Brasil, segundo recente pesquisa da Kynetec. Pequeno, porém promissor, este novo segmento cresce a taxas superiores a 30% ao ano, segundo a mesma fonte. Enquanto os químicos tradicionais flutuam dentro da mesma base há anos, dependendo de clima e incidência de pragas e/ou doenças.

A agenda que se faz necessária, portanto, traz o famoso, mas pouco explorado MIP (Manejo Integrado de Pragas), em sua versão moderna, como MIPD, incluindo o “D” de doenças. Imperativa, porém mais técnica, a prática exige conhecimento e sua consequente difusão entre fundações e instituições de pesquisa, empresas do ramo, consultores, agrônomos e agricultores.

Uma vez adotado, o manejo preventivo com biológicos traz boa parte do equilíbrio de volta ao ecossistema das principais culturas. E mais, incrementa a produtividade na maioria dos casos, pois não agride a planta principal, como fazem insumos de origem química, sejam defensivos ou fertilizantes.

Na esteira dessa tendência, há que se acrescentar que boa parte das moléculas químicas em uso no Brasil já foram banidas nos EUA e UE, pelo grau de agressividade e toxicidade ao homem e ao meio. Segundo dados de Anvisa, Ibama e Mapa, mais de 13 ingredientes ativos químicos já foram proibidos no Brasil na última década (o que perfaz um número exponencialmente maior de marcas comerciais do mesmo ativo) e há uma lista com outras 10 moléculas no forno.

Muitas delas largamente utilizadas no país inteiro. Bom pelo lado da sustentabilidade, mas sem o devido planejamento de substituição delas, os banimentos podem ao mesmo tempo deixar o agricultor sem opções de tratamento a pragas e doenças importantes. Mais um motivo para acelerar a adoção de técnicas alternativas, como o uso de biológicos.

Outras tecnologias podem e devem entrar em campo, como a biotecnologia de sementes por exemplo. Uma planta de soja geneticamente modificada, que controla por si só lagartas devoradoras de folhas, evita milhares de toneladas de inseticidas químicos anualmente.

A digitalização da agricultura também caminha a passos largos para aumentar o nível de informação de cada hectare, requerendo assim otimização (e consequente menor uso) de insumos.

Não se trata aqui de tentar convencer a comunidade agrícola a abandonar o uso de agroquímicos. Sabemos da necessidade inerente ao nosso ecossistema e da responsabilidade da indústria em pesquisar e oferecer ao mercado moléculas mais seletivas e menos tóxicas.

A evolução que se exige hoje passa pela transição do uso de uma mesma tecnologia para a hibridização do sistema.

Calendarizar o uso de bioinsumos e utilizar agroquímicos somente quando necessário já é um excelente começo. Traçando um paralelo entre sanidade vegetal e saúde humana, prevenir o ataque de pragas e doenças e, se preciso, remediar.

Ademais, as crescentes exigências de rastreabilidade e sustentabilidade das lavouras ditam novas regras para todos os envolvidos na cadeia de produção de alimentos, fibra e energia: indústria, revendas, cooperativas e agricultores. Porém, na maioria das vezes de forma imperativa, não enchem o bolso de ninguém.

Os bioinsumos chegaram para mudar a equação, mostrando na prática diminuição de custos totais durante os ciclos das culturas e aumento de produtividade. Aí sim a conta fecha, onde os adeptos ao MIPD podem certificar ao mercado que estão, safra a safra, elevando a lucratividade da agricultura nacional e diminuindo sua dependência a intempéries ou volatilidade de preços. Com mais sustentabilidade.

Gustavo Ranzani Herrmann é CEO da Koppert do Brasil.