Uma nova estratégia está em curso em uma das maiores operações pecuárias do País. Depois de arrendar um confinamento pertencente à família Bertin, em Sabino (SP), no início de 2025, a MFG Agropecuária decidiu reorganizar seus negócios desde o fim do ano passado, concentrando investimentos nas unidades próprias e encerrando as atividades em parte das estruturas arrendadas.
A empresa de confinamentos de Marcos Molina, fundador da Marfrig e atual presidente do Conselho de Administração da MBRF, deixou de operar as unidades que arrendava em Pereira Barreto (SP) e Campo Verde (MT) no fim do ano passado, após não chegar a um acordo comercial com os proprietários.
Desde então, tem direcionado recursos para ampliar e modernizar suas estruturas próprias, com o objetivo de manter o volume anual de abate entre 300 mil e 320 mil cabeças de gado.
"A estratégia da empresa, hoje, é investir nos nossos confinamentos próprios", explica Vagner Lopes, gerente sênior de confinamentos da MFG, em entrevista ao AgFeed.
Ao todo a MFG opera seis confinamentos, sendo que apenas o de Sabino é arrendado. Entre as unidades próprias estão os confinamentos de Campo Novo do Parecis (MT), Cotegipe (BA), Coxim (MS), Mineiros (GO) e Tangará da Serra (MT).
Os confinamentos ficam sempre próximos de frigoríficos da MBRF, que é a única cliente da MFG.
É em Mato Grosso que a MFG concentra parte dos investimentos para compensar o encerramento das operações arrendadas.
Em Tangará da Serra, a empresa está trabalhando para, nos próximos dois anos, elevar a capacidade estática de 21 mil para 30 mil cabeças. Já em Campo Novo do Parecis, a previsão é ampliar a estrutura de 26 mil para 30 mil animais.
Com as ampliações, a MFG pretende preservar seu ritmo de produção, mesmo com a redução do número de unidades em operação. "A ideia é manter agora em 2026 o que vínhamos fazendo nos últimos anos", afirma Lopes.
Segundo o executivo, a decisão de deixar os confinamentos de Pereira Barreto e Campo Verde foi motivada pela falta de um acordo comercial para a continuidade dos contratos de arrendamento. "Não chegamos no que queríamos e aí resolvemos investir nas nossas plantas", diz.
A companhia não revela quanto está destinando à ampliação das unidades próprias. Lopes afirma apenas que se trata de valores elevados. "São valores logicamente altos, investimentos significativos."
Enquanto avança com os projetos de expansão, a MFG também concluiu a adaptação de sua operação mais recente, em Sabino, no interior paulista.
Arrendada da família Bertin, a unidade começou a operar sob a gestão da companhia em maio de 2025, depois de receber investimentos entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões para adequar a estrutura ao modelo operacional da MFG.
O confinamento possui capacidade estática de 18 mil cabeças, mas, já no primeiro ciclo, a empresa conseguiu trabalhar com um volume entre 20 mil e 21 mil animais, graças ao aumento do giro.
Os investimentos foram concentrados principalmente na fábrica de ração, além de melhorias nas áreas de nutrição, sanidade e infraestrutura. Segundo Lopes, todas as adaptações previstas foram concluídas neste ano.
"Hoje a gente já concluiu 100%. Esse ano concluímos 100% de tudo que precisava ser feito", afirma.
Mais tecnologia para aumentar o giro
A redução no número de unidades, portanto, não significa apenas uma mudança física no tamanho da operação, ressalta Lopes. A MFG também vem investindo em gestão e tecnologia para aumentar a eficiência dos confinamentos.
Segundo Lopes, a rotina operacional passou a ser cada vez mais orientada por indicadores em tempo real, que permitem acompanhar desde o consumo de ração e o ganho de peso até o rendimento de carcaça e os custos por cabeça, incluindo despesas com diesel e energia.
A lógica é usar essas informações para determinar com maior precisão o momento de abate. Se o animal já atingiu o ponto ideal, a empresa consegue antecipar a saída e evitar dias adicionais de permanência no confinamento.
“Quando você aumenta o giro, você otimiza o tempo de abate. Então, você sabe de fato quando o animal está pronto para abate, pode acelerar o abate dele e não precisa ficar gerando diárias extras”, afirma.
A companhia também vem incorporando equipamentos para automatizar e dar mais precisão às diferentes etapas da operação. Entre eles estão câmeras capazes de estimar o peso dos animais e o ganho de peso, além de sistemas instalados nos currais para acompanhar o recebimento do gado.
A MFG também passou a investir em equipamentos de distribuição de ração com telemetria, buscando aumentar a uniformidade da alimentação e reduzir ineficiências no processo.
Para Lopes, o conjunto de medidas permite extrair mais da estrutura existente sem necessariamente depender da expansão física dos confinamentos.
“É investimento em gestão, indicadores e também estrutura de forma geral. Fabril, máquinas, equipamentos”, resume.
A empresa não revela quanto já investiu nesse processo. Segundo o executivo, porém, os recursos destinados à compra de equipamentos e às melhorias estruturais são “significativos”.
A expectativa é que o ganho de eficiência ajude a pagar parte desses investimentos. “Se eu estou abatendo um boi de 20 arrobas e estou imprimindo uma tecnologia melhor, seja ela de baixo custo ou alto custo, eu quero que esse animal de 20 vá para 21 arrobas. Quero produzir uma arroba a mais para, obviamente, pagar esses investimentos”, diz.
Certificação entra na estratégia
Além da eficiência operacional, a MFG vem ampliando o foco em rastreabilidade, bem-estar animal e certificação de fornecedores, conta Vagner Lopes.
Recentemente, a empresa passou a trabalhar apenas com fornecedores que apresentem certificações relacionadas à sustentabilidade, bem-estar animal e responsabilidade socioambiental.
O movimento ainda está em implementação gradual, explica Lopes, e está relacionada à mudança no perfil de consumidores e às exigências de mercados importadores.
A intenção é que a empresa já esteja preparada para uma eventual ampliação das exigências de rastreabilidade e certificação ao longo da cadeia.
“Quando o mercado vier com essas exigências mais fortes, a MFG já está um passo à frente, já está preparada”, afirma.
O projeto não se limita aos animais que chegam ao confinamento. A empresa também pretende levar a discussão aos pecuaristas parceiros, de forma a ampliar a rastreabilidade desde a criação do animal até o abate.
A companhia também mantém testes com alternativas aos protocolos tradicionais de utilização de antimicrobianos, tema que entrou no noticiário nos últimos meses com a restrição imposta pela União Europeia.
No confinamento de Tangará da Serra, por exemplo, a MFG vem realizando experimentos com produtos naturais e avaliando os impactos sobre desempenho zootécnico, custos e resultados financeiros.
A ideia é testar as alternativas antes que uma eventual mudança nas exigências de determinados mercados obrigue a cadeia a se adaptar de forma mais rápida.
“Tem o possível, o que é aplicável e o que é possível dentro da operação”, afirma Lopes. Segundo ele, a companhia vem avaliando os resultados dos testes antes de ampliar sua utilização.
Resumo
- MFG encerra operações em dois confinamentos arrendados e concentra investimentos na ampliação de unidades próprias
- Empresa amplia capacidade em Mato Grosso e aposta em tecnologia para manter abate de até 320 mil cabeças por ano
- Companhia investe em rastreabilidade, certificação de fornecedores e alternativas ao uso de antimicrobianos