A lucratividade do confinamento bovino brasileiro cresceu 80,8% entre 2019 e 2025, segundo levantamento da Ponta Agro, empresa de tecnologia voltada para a pecuária, que monitora dados de mais de 30,1 milhões de animais.

O avanço equivale a um crescimento médio anual de 3,74% ao ano no período. Os dados estão na prévia da segunda edição do Report Confinamento, que ainda será lançada pela empresa, mas à qual o AgFeed teve acesso.

A pesquisa mostra que o maior salto da série ocorreu em 2024, quando o lucro ultrapassou R$ 1,5 mil por cabeça.

Os dados vieram dos cerca de 6,4 milhões de bovinos gerenciados pela empresa em suas plataformas, o equivalente a 57,14% da produção de pecuária intensiva brasileira, entre terminação intensiva a pasto e confinamento.

A base histórica usada no estudo reúne informações sobre origem, desempenho, sanidade, alimentação, custos, manejo e movimentação dos animais.

A alta da lucratividade não veio de um único fator. Segundo Paulo Dias, CEO e fundador da Ponta Agro, a virada do ciclo pecuário e a valorização da arroba ocorreram ao mesmo tempo em que a demanda internacional pela carne brasileira ganhou força. Mas, para ele, o comportamento dos custos de alimentação foi determinante para ampliar a margem dos confinamentos.

“A diária alimentar ficou mais baixa, preço de arroba de venda, mercado externo e interno comprando, tudo de bom teoricamente para a produção de pecuária no Brasil”, afirma.

Segundo o executivo, um dos principais diferenciais de 2026 tem sido o comportamento da diária alimentar, que representa uma parcela relevante do custo de produção do confinamento. Desde o início do ano, o indicador acompanhado pela Ponta vem recuando.

Ao mesmo tempo, a arroba produzida passou a deixar uma margem maior. Dias ressalta que o cálculo do estudo considera a lucratividade da arroba produzida dentro do confinamento, e não inclui o resultado da compra do boi magro e da venda do animal terminado.

Na avaliação do executivo, a margem acumulada desde 2019 mostra uma mudança estrutural na gestão da atividade. “Tempos atrás não tinha essa gordura. Tinha custo alto, diária alimentar alta”, afirma.

Além dos preços, Dias atribui parte da melhora à profissionalização dos confinamentos e ao avanço no uso de tecnologia. Segundo ele, produtores passaram a tomar mais decisões com base em dados, reduzindo a dependência do tradicional feeling.

“O pecuarista está aumentando a gestão interna, e a dificuldade do tradicionalismo não sobreviveu. Gerou uma dinâmica empresarial nunca vista no país”, afirma.

Diferenças regionais

A melhora da rentabilidade, porém, não ocorreu de maneira uniforme entre as principais regiões produtoras. Segundo Dias, a Ponta identifica diferenças claras entre Centro-Oeste e Sudeste, tanto na estrutura de custos quanto na disponibilidade de animais e na formação do preço de venda.

No Centro-Oeste, a maior oferta de milho e outros ingredientes permite trabalhar com dietas mais concentradas em alimentos considerados nobres. No Sudeste, por outro lado, os confinamentos recorrem com maior frequência a uma variedade de coprodutos, o que aumenta a complexidade nutricional.

“O Centro-Oeste tem disponibilidade de alimento de qualidade, silagem de milho muito maior do que o Sudeste, que trabalha com coprodutos”, afirma. “O Sudeste é desde farelo de amendoim, casca de amendoim, casca de cana, na média 16 produtos. O desafio nutricional do Sudeste é diferente do Centro-Oeste”, continuou.

A origem dos animais também muda de uma região para outra. Enquanto o Centro-Oeste conta com uma cadeia mais integrada de cria e recria, os confinadores do Sudeste dependem mais da compra de animais de outros estados.

Historicamente, isso ajudou o Sudeste a registrar maior lucratividade, também favorecido pelo preço de venda da arroba. Mas essa diferença diminuiu ao longo de 2026.

No meio do ano, segundo Dias, o Centro-Oeste chegou a apresentar margem superior à do Sudeste depois que frigoríficos alteraram estratégias comerciais e contratos a termo, reduzindo temporariamente a diferença de preço entre as regiões.

“Até meio do ano, o comportamento do Sudeste era mais lucrativo. Quando vimos essas manobras do mercado, o Centro-Oeste se posicionou e capturou lucratividade, se igualou ao Sudeste”, afirma.

Nos últimos meses, porém, a valorização do boi no Sudeste voltou a ampliar a diferença de margem entre as duas regiões.

Margem deve continuar até o fim do ano?

Olhando até o final de 2026, Dias não vê grandes riscos de aumento dos custos de alimentação. A entrada da safrinha de milho e uma safra de cana considerada volumosa devem ajudar a manter a disponibilidade de ingredientes.
A alimentação representa, segundo ele, entre 75% e 80% do custo de produção do confinamento. “Do ponto de vista nutricional, não vemos stress por preço de insumos”, afirma.

O principal ponto de atenção está na reposição dos animais. O preço dos bezerros subiu e a retenção de fêmeas reduziu a disponibilidade de animais para entrada no sistema, pressionando o custo da recria e do confinamento.

“Outro ponto é reposição e compra de animal de entrada. Não sinaliza redução dos valores. O ponto de atenção maior é preço de reposição".

Do lado da venda, o cenário é menos favorável. A arroba recuou cerca de R$ 20 nos últimos dois meses, embora tenha apresentado alguma recuperação na semana passada.

Ainda assim, Dias acredita que a rentabilidade atual pode ser preservada até o fim do ano. “Possivelmente vamos manter a casa de lucro que temos hoje”, afirma.

Resumo

  • Lucro por cabeça ultrapassou R$ 1,5 mil em 2024, o maior patamar da série acompanhada pela Ponta Agro
  • Alimentação mais barata e valorização da arroba impulsionaram margens, que avançaram 80,8% entre 2019 e 2025
  • Ponta vê rentabilidade sustentada até o fim de 2026, mas alerta para alta no custo de reposição dos animais