Com a interrupção das exportações de carne bovina brasileira para a União Europeia, em função das exigências quanto ao controle do uso de antimicrobianos na cadeia produtiva, o Brasil pode deixar de faturar mais de US$ 380 milhões, cerca de R$ 1,96 bilhão, até o fim deste ano.
O valor é uma estimativa a partir dos dados divulgados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com a média da receita com as vendas para o bloco entre janeiro e agosto de 2026. Este cálculo, obviamente, pode sofrer alterações por causa da sazonalidade dos mercados.
Sem expectativa de uma solução de curto prazo para a retomada dos embarques para o bloco, um processo que pode demorar até dois anos, segundo advertem autoridades sanitárias do bloco europeu.
Para que isso aconteça, a Comissão Europeia, braço executivo da UE, confirmou que um sistema adequado de rastreabilidade bovina precisa estar implementado desde o nascimento do animal.
Isso significa que, mesmo que o Brasil resolva todas as questões apontadas, apenas a carne oriunda de animais nascidos após a adoção das medidas poderá ser exportada para o bloco.
Essa decisão se dá também em um contexto de pressão dos agricultores europeus contra a abertura do mercado aos produtos brasileiros e da assinatura do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. “Hoje tem uma série de demandas que pedem esse controle da cadeia, da origem, da cadeia de fornecimento”, afirma Fernando Sampaio, colíder da Força-Tarefa de Rastreabilidade e Transparência da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
No Brasil, uma alternativa viável seria o cruzamento de dados públicos, associando, por exemplo, as informações territoriais do Cadastro Ambiental Rural (CAR) aos registros de movimentação de rebanhos da Guia de Trânsito Animal (GTA).
Essa sugestão está entre os principais pontos do estudo inédito “Avançando com a Rastreabilidade Socioambiental: Panorama da Integração CAR-GTA no Brasil”, publicado esta semana pela Coalizão Brasil.
“É preciso uma solução de larga escala, com custo baixo e que pode ser implementada num prazo curto. Mas têm desafios: a GTA, por exemplo, não é centralizada e cada estado tem o seu banco de dados, que não é público”, analisa Sampaio.
O documento mostra que o Brasil precisa se preparar para atender as atuais e futuras demandas para a cadeia produtiva.
As exigências comerciais globais de sustentabilidade, contudo, estão colocadas no presente. “Uma das recomendações do estudo é que esse cadastro ambiental seja inserido no cadastro do produtor na defesa agropecuária. Isso daria acesso à localização geográfica, permitindo um controle na cadeia - se está em terra pública, terra indígena, que não tem desmatamento ilegal”, observa Sampaio.
Para evitar prejuízos comerciais imediatos, a Coalizão – composta por mais de 400 organizações – defende que o cruzamento de dados públicos existentes seja usado para monitorar os ciclos produtivos da pecuária (cria, recria e engorda) até o abate.
Segundo o especialista, a conformidade socioambiental tornou-se exigência de grandes compradores, mercado financeiro, investidores e até do Ministério Público Federal. Assim, diz Sampaio, “a ideia é de ter, principalmente, uma ferramenta de avaliação de risco e garantia de origem na pecuária, usando informações que já estão disponíveis”.
“O que a gente ganha é a possibilidade de atender essas demandas de mercado com um instrumento público de rastreabilidade”, afirma, lembrando que o Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR, na sigla em inglês) entra em vigor nos próximos meses.
O documento traz, ainda, um raio-x da integração entre o CAR e a GTA em oito estados que lideram a produção pecuária nacional: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rondônia, São Paulo e Tocantins. Na análise comparativa, um padrão comum ficou evidente: em nenhum destes estados o principal gargalo da integração CAR-GTA é tecnológico.
Deles, apenas o Pará possui exigência normativa de CAR ativo como condição para a emissão da GTA. Nos demais estados, a vinculação entre CAR e GTA, quando existe, ocorre por consulta técnica ou operacional (MT, MS, MG), alinhada ao princípio sanitário dos mercados importadores.
Já Minas Gerais, embora apresente um pequeno percentual de análises do CAR concluídas (cerca de 16% da base, segundo informações de 2025 do CPI/PUC-Rio), se destaca por construir uma arquitetura robusta para a integração de dados entre instituições públicas.
Para viabilizar avanços no setor, a rede propõe a adoção de uma rota híbrida, que combina uma diretriz nacional mínima, coordenada pelo governo federal. Nela, seriam realizados pilotos nos estados, com integração e-GTA-CAR, inclusão do CAR no cadastro da propriedade no órgão de defesa, validação automática de coordenadas do imóvel de origem e um painel simples de risco com histórico de entradas dos últimos 36 meses para trânsito e abate.
Esses pilotos devem operar sob a governança de grupos de trabalho interinstitucionais, como Defesa Agropecuária, Meio Ambiente e Procuradorias, padronizando procedimentos e alinhando o tratamento de dados. O prazo recomendado para a execução da migração seria de três anos.
“O produtor que consegue demonstrar toda a cadeia de produção dele, que está operando dentro da legalidade, ele vai ter uma matéria-prima pra oferecer que naturalmente vai ser mais buscada. E, com certeza, isso pode ter um reflexo no preço”, diz Sampaio.
Segundo Sampaio, a Coalizão pretende voltar ao Ministério da Agricultura para entregar essa proposta. Além disso, há conversa também, já em andamento com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, que está cuidando do CAR. “Eles ficaram interessados nessa história”.
Resumo
- Estudo propõe integrar dados do Cadastro Ambiental Rural e da Guia de Trânsito Animal para rastrear a cadeia bovina
- Iniciativa busca atender exigências de sustentabilidade e rastreabilidade da União Europeia para as exportações brasileiras
- Coalizão Brasil defende pilotos estaduais e uma diretriz nacional para criar um sistema público de avaliação de risco e origem