Com receita anual na casa de R$ 1,5 bilhão em 2025 e expectativa de bater em R$ 2,3 bilhões este ano, a UP2Tech é uma companhia consolidada no mercado brasileiro de tecnologia como uma das grandes fornecedoras de equipamentos eletrônicos.
Há mais de dois anos, entretanto, o fundador e CEO do grupo, Rodrigo Abreu, o Kalu, percebeu uma oportunidade em conectar uma população de mais de 240 milhões de bovinos da pecuária brasileira.
E, desde então, vem investindo alto na start-up iBoi, cujo negócio consiste na comercialização de um sistema que utiliza brincos eletrônicos para o rastreamento e monitoramento dos animais, extraindo dados de localização e sanidade de cada indivíduo.
Mais do que uma ferramenta para gestão dos rebanhos, ele acredita que, uma vez conectado, o boi se torna um ativo financeiro e passa a ter valor em operações junto a bancos e fundos de investimento, por exemplo.
O produto iBoi foi lançado em 2024, transformado em uma empresa no ano passado e sua tese foi testada em pilotos de operações fiduciárias no mercado de capitais.
Mas a escala pretendida por Kalu ainda não veio e, por isso, o projeto ganhou um novo formato nos últimos meses, dentro de uma reformulação corporativa das suas empresas, agora reunidas sob a denominação UP2Group.
A UP2Tech continua sendo a marca usada no mercado de eletrônicos, mas a empreitada rural passa a ficar sob o guarda-chuva da IoTera, companhia que vai abranger os negócios do iBoi e também uma nova empreitada criada para ajudar a alavancar a conectividade no campo, fundamental para que o projeto de digitalizar a pecuária possa operar plenamente.
Sob o comando do executivo Felipe Antonelle, experiente quadro com passagem por empresas como Jacto, Totvs e Solis, a empresa já vem operando também com a oferta de projetos e instalação de redes privadas de conectividade rural.
“Só com o 4G a gente não vai atingir os 235 milhões de animais que a gente tem no Brasil por falta de conectividade”, afirma Antonelle, vice-presidente executivo da companhia.
Em outra frente, a iBoi acaba de lançar a quinta geração de seus brincos, atraindo para o negócio um parceiro estratégico, a chinesa Quectel, uma das maiores fabricantes de tecnologia de comunicação do mundo, com faturamento global de US$ 3,4 bilhões e capacidade produtiva de 25 milhões de unidades por mês.
O dispositivo, que carrega chipset da Qualcomm e conectividade via eSIM (chip virtual que se conecta às redes das operadoras), ganhou sensor de temperatura, contador de passos e uma bateria repensada que pode durar até dois anos, conforme a configuração do cliente.
Os números divulgados por Antonelle mostram a dimensão da aposta. A empresa acabou de firmar um pedido de 60 mil peças da quinta geração com a Quectel. Segundo ele, esses brincos vão atender a uma demanda reprimida enquanto as vendas da quarta geração ficaram suspensas.
“A gente está falando em conectar 60 mil animais até dezembro”, afirma. No ano que vem, a meta é de 300 mil brincos, número que ele considera “super factível”, com 70% a 80% disso atrelado a operações financeiras. Em três anos, o alvo é 1 milhão de brincos, atingindo finalmente o número que Kalu havia estipulado inicialmente para este ano.
Além dos novos contratos para instalação dos brincos, a transição vai exigir a substituição dos equipamentos das gerações anteriores, fabricados por outro fornecedor que agora será desligado.
“Não dá para ter dois produtos fazendo a mesma coisa com fornecedores diferentes”, justifica Antonelle, que não revela o volume atual em operação por orientação jurídica, em razão de um processo em curso.
Quando o AgFeed noticiou a "desmama" da iBoi como empresa independente, em junho do ano passado, a companhia tinha 80 mil brincos em operação em cinco estados e projetava fechar o ano com 250 mil.
A entrada no segmento de construção de redes vem da constatação de um gargalo antigo do agro digital: sem sinal, não há brinco que funcione. Hoje, esse mercado já tem algumas empresas consolidadas, como a Solis, da qual Antonelle foi um dos fundadores, e a Sol by RZK, além das iniciativas das próprias operadoras de telecomunicações.
O diferencial da IoTera, segundo o executivo, é a agilidade. Com parcerias com empresas como Nokia e Arqia, ele diz ser capaz de colocar uma rede de fazenda de pé em 15 a 20 dias. “É mais fácil do que esperar seis meses a operadora se mexer e colocar a rede lá”, afirma.
O modelo de negócio inclui a elaboração do projeto, a compra e instalação de antenas e demais componentes eletrônicos.
Onde já existe rede pública ou privadas, como a malha que a própria Sol by RZK construiu com a Claro no Mato Grosso e que, segundo Antonelle, cobrindo cerca de 10 milhões de animais, os brincos da iBoi já vão com chip da operadora conectado. Onde não existe, a IoTera constrói.
Segundo Antonelle, a empresa já tem dez redes privadas em operação, conectando fazendas de grande porte como a Captar Agrobusiness, maior confinamento na Bahia, a Serra Azul, de Rosário Oeste (MT), pertencente ao grupo Bom Futuro, a fazenda Piracicaba, de Luís Felli, projeto pessoal do vice-presidente global da Massey Ferguson, no Maranhão, e fazendas da MEM Agropecuária, da família Manfrim, dona da indústria de rações SpecialDog.
O boi financeiro
A tese da iBoi se apoia em uma conta simples. Segundo Antonelle, o rebanho brasileiro, com dados do IBGE, soma 245 milhões de animais. A um valor médio de R$ 6 mil por cabeça, são R$ 1 trilhão de estoque parado, que não é visto como moeda financeira.
A empresa, então, desenvolveu um modelo, certificado por uma terceira parte, que vincula seus brincos ao ao SISBOV, o sistema oficial de identificação de bovinos e bubalinos, e permite o compartilhamento dos dados de monitoramento com bancos ou fundos.
A partir desses dados, a instituição pode gerar uma CPR, título de dívida que abre as porteiras do crédito ao pecuarista, tendo o animal monitorado como garantia real.
“Isso foi criando escala”, diz Antonelle. Hoje, segundo ele, os bancos já são o principal canal de originação de negócio da iBoi. A operação funciona como um produto “enterprise”. Se o banco tem um cliente que demanda R$ 20 milhões e precisa de 5 mil bois brincados, a iBoi “conecta” os animais, o cliente libera os dados via API e o crédito é liberado. “O pecuarista vai tomar o crédito e aí o banco fala: quer dinheiro? Precisa ter iBoi”, resume o executivo.
Além de vender o brinco, como acontece no modelo atual, Antonelle imagina avançar para um modelo de negócio em que os bancos ainda remunerem a companhia pelo fornecimento dos dados. “A gente não tem isso ainda definido, mas entende que é um potencial muito grande para uma outra fonte de receita”, diz Antonelle.
A plataforma, por sua vez, entrega o que o pecuarista precisa para gerir o rebanho, como captura automática de peso na balança, alertas de movimentação não autorizada, anomalias, temperatura, evasão de áreas, cercas virtuais e o controle do GMD, o ganho médio diário.
“Ele entra na plataforma e vê seu estoque online”, afirma Antonelle. “E aí, realmente, transforma esse animal em um ativo”. Segundo o executivo, o modelo da iBoi é aberto e permite integração com sistemas de gestão pecuária como iRancho e com os ERPs das operações, sem criar competição com eles.
O próximo capítulo
Enquanto avança para uma nova geração de seu produto, a iBoi também já prepara o que espera lançar nos próximos anos. Também dentro da parceria com a Quectel, a companhia está desenvolvendo o que chama de IA Box, uma caixa com inteligência artificial embarcada que processa imagens de câmeras no próprio confinamento, sem depender da nuvem.
Com esse equipamento, promete monitorar bem-estar e sanidade animal – scout de cocho, controle de evasão de bebedouros, identificação de animais dominantes que impedem os demais de se alimentar – e até auditoria de compra no desembarque.
“Muitos animais chegam de madrugada. O cara compra 200, chegam 197. No final do ano, se ele processa 60 mil bois, faltaram 400. Vezes R$ 5 mil, dá um valor financeiro muito interessante”, ilustra Antonelle.
A ambição do grupo é posicionar a iBoi como a “hard tech habilitadora da pecuária”. Segundo o executivo, esse papel, na agricultura, foi ocupado por empresas como a Solinftec, na automação, a Zeus, nas estações meteorológicas, e a Perfect Fly, na aviação agrícola.
“Na agricultura, as indústrias de máquinas evangelizaram muito bem os produtores a entenderem o valor do investimento em tecnologia. Na pecuária, não existe uma empresa pura de hard tech, que desenvolve hardware e inteligência através de imagens e IA. Estamos nos posicionando para ser essa empresa”, afirma.
Todo o investimento (não revelado) no negócio da pecuária é financiado com recursos próprios da UP2Tech. “A gente é uma start-up dentro do grupo. A gente gasta como uma empresa grande, mas fatura como uma stratup”, brinca. Segundo ele, frequentemente a iBoi é procurada por potenciais investidores interessados em se associar ao projeto, inclusive grupos de pecuaristas com propostas de criação de sociedades para alavancar a originação de milhares de animais.
“Só que a gente, de uma maneira muito simples, entende que nós estamos numa construção muito rica, trazendo IoT de escala global para a pecuária brasileira”, conclui.
Resumo
- iBoi lança nova geração de brincos eletrônicos para monitorar bovinos e prevê conectar 300 mil animais em 2027, com meta de 1 milhão em três anos
- IoTera amplia a atuação do grupo em conectividade rural, instalando redes privadas para viabilizar o monitoramento de rebanhos em áreas sem cobertura
- Tecnologia permite usar dados de rastreabilidade e monitoramento do gado como garantia em operações de crédito rural com bancos e fundos