A inteligência artificial (IA) já participa do desenvolvimento de defensivos, sementes e máquinas agrícolas, mas sua aplicação na gestão das propriedades rurais brasileiras ainda é incipiente.

Para Luciano Döll, diretor de experiência e sucesso do cliente e cofundador da Inbix, consultoria paranaense que atua na implantação de IA em empresas, a tecnologia tem potencial para transformar justamente uma das maiores fragilidades do agronegócio nacional, que é a gestão das fazendas.

"Ainda existe um nível de maturidade baixo quanto à aplicação da inteligência artificial", afirma o executivo, que também é professor de tecnologia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

E a demanda existe. Nos últimos 90 dias, a Inbix atendeu mais de 30 empresas em projetos de adoção de IA, das quais aproximadamente 20% a 30% pertencem ao ecossistema do agronegócio.

Embora já atenda cooperativas, concessionárias de máquinas e fornecedores de insumos, a companhia ainda não observa uma aplicação consolidada de IA na gestão de propriedades rurais, especialmente entre médios e pequenos.

"Eu diria que ela está começando a chegar numa camada de cooperativas e revendas e a gente começa a ser provocado para entrar efetivamente na propriedade rural", diz Döll.

A inteligência artificial já está presente em equipamentos agrícolas, sistemas de agricultura de precisão, no desenvolvimento de tecnologias para o campo e até mesmo em ferramentas digitais de uso pessoal.

No entanto, o avanço é menos evidente nas atividades administrativas de produtores rurais, como compras, análise de crédito, planejamento financeiro e organização de processos.

Segundo Döll, mais da metade das empresas com as quais a Inbix mantém contato ainda está em fase de educação e sensibilização sobre o tema.

Mesmo organizações que já contrataram ferramentas de IA enfrentam dificuldades para incorporá-las à rotina dos funcionários.

É o caso da cooperativa Cocari, que utiliza o ambiente digital do Google, mas procurou a consultoria para capacitar equipes no uso de ferramentas de inteligência artificial generativa.

"Tem funções de IA em máquinas dentro das fazendas que ninguém sabe usar", relata Döll, ao reproduzir a avaliação de um cliente.

Entre os clientes da Inbix estão também cooperativas como Castrolanda, Agrária e Aurora, além de concessionárias agrícolas e empresas de outros segmentos do agronegócio.

Economia de R$ 2,4 milhões

Uma experiência mais avançada ocorreu na Bouwman Livestock & Agricuture, revenda de máquinas agrícolas no Paraná.

A empresa criou um núcleo interno de inteligência artificial, com funcionários capacitados para desenvolver aplicações voltadas aos próprios problemas operacionais.

Segundo a Inbix, 11 projetos colocados em operação na revenda apresentaram potencial estimado de economia superior a R$ 2,4 milhões.

Entre as aplicações está uma ferramenta de análise de crédito que combina informações internas da empresa com critérios utilizados na avaliação dos compradores.

O diferencial, segundo Döll, é permitir que profissionais das áreas de negócios desenvolvam soluções sem depender exclusivamente dos departamentos de tecnologia.

"Não foi o responsável da TI. Foi o usuário que tinha a dor, que tinha o problema, unido à ferramenta certa", afirma.

Para dentro da porteira

A consultoria pretende levar esse modelo às propriedades rurais por meio de cooperativas e concessionárias, aproveitando a relação de confiança que essas organizações mantêm com os produtores.

Uma concessionária New Holland atendida pela Inbix já discute a seleção de uma fazenda para desenvolver um projeto-piloto.

A resistência dos produtores, segundo ele, envolve também preocupações com governança, confidencialidade e proteção de informações financeiras e comerciais.

A consultoria desenvolveu uma metodologia de implantação de 100 dias, que prevê capacitar 20 profissionais e criar 30 aplicações ou ferramentas internas, parte delas desenvolvida pelos próprios funcionários.

Para Döll, a sucessão familiar poderá acelerar a adoção da tecnologia nas fazendas.

A nova geração de produtores tende a demonstrar maior interesse pela gestão empresarial, enquanto seus antecessores concentravam conhecimento sobretudo nas operações agrícolas.

"Esse cara já veio numa pegada de inteligência. Ele quer gerir, não quer operar", afirma.

Resumo

  • IA avança no agronegócio, mas ainda é pouco explorada nas gestão de fazendas
  • Revenda de máquinas agrícolas estima potencial de economia superior a R$ 2,4 milhões
  • Inbix aposta em cooperativas para levar IA às propriedades rurais e prepara projeto-piloto