Uma das mais poderosas Big Techs do planeta, o Google tem olhado cada vez mais de perto o avanço da inteligência artificial e outras tecnologias digitais no segmento que domina boa parte das cadeias globais de produção de grãos, fibras e energia, o agro brasileiro.

E tem bem clara a rota que pretende usar para ampliar sua presença no setor: conquistar as agtechs, startups de tecnologia voltadas a agro, pelo bolso, oferecendo a elas uma "decolagem assistida" rumo ao Google Cloud, seu serviço de computação em nuvem.

A busca pelas agtechs passa pela oferta de até US$ 350 mil em créditos, através do Google for Startups Cloud Program, para as jovens empresas desenvolverem soluções de inteligência artificial (IA).

Com o benefício, a ideia é reduzir os custos de desenvolvimento e permitir que companhias emergentes testem e ampliem a escala de modelos de IA sem arcar inicialmente com toda a infraestrutura tecnológica necessária.

"É um programa global em que o Google Cloud oferece até US$ 350 mil em créditos de nuvem para cobrir custos de desenvolvimento de IA nos dois primeiros anos, removendo a barreira financeira para testar e escalar modelos complexos", afirma Alexandre Mandl, líder de Agribusiness do Google Cloud Brasil.

Segundo dados apresentados pelo executivo, mais de 60% das startups de inteligência artificial generativa do mundo são clientes do Google Cloud. Entre as empresas participantes do Google for Startups Cloud Program, 97% permanecem utilizando a plataforma após o encerramento dos créditos, de acordo com a companhia.

No agronegócio brasileiro, a iniciativa é acessível por meio da parceria entre o Google Cloud e a PwC, que mantém um ecossistema de cerca de 700 startups vinculadas ao AgTech Innovation Hub, em Piracicaba (SP).

A parceria com a PwC foi anunciada em setembro de 2025 e marcou a instalação da primeira Google Cloud AI Experience Zone do Brasil no hub de Piracicaba, onde startups podem experimentar ferramentas como Gemini e Gemini Enterprise.

"A parceria entre Google Cloud e PwC no AgTech Innovation Hub alia tecnologia de ponta e visão de negócios para acelerar a transformação digital no agronegócio", afirma Mandl.

A colaboração integra uma iniciativa global entre as duas empresas, que já haviam desenvolvido, segundo elas, mais de 120 agentes de inteligência artificial para clientes de diferentes setores.

Além dos créditos em nuvem, as startups elegíveis podem acessar arquiteturas de referência, orientação técnica e mentorias. Pelo ecossistema da PwC, também encontram oportunidades de aproximação com grandes empresas e investidores, no Brasil e no exterior.

O movimento acompanha a internacionalização do AgTech Innovation Hub, que vem estruturando conexões entre startups brasileiras e clientes da PwC em mercados como Estados Unidos, Nova Zelândia, Emirados Árabes Unidos e Colômbia.

Tecnologia para o mercado

Para Mandl, as agtechs brasileiras enfrentam três obstáculos principais: fragmentação dos dados, limitações de conectividade no campo e dificuldades para desenvolver modelos de negócio financeiramente sustentáveis.

Segundo ele, boa parte das informações agrícolas está dispersa em fotografias, áudios, documentos e sistemas que não se comunicam, o que dificulta sua utilização em escala comercial.

"Com os agentes de IA, as agtechs evoluem de entregadoras de dados e painéis para provedoras de decisão e execução automatizadas", afirma Mandl.

"Para o futuro, a aposta está na interoperabilidade entre múltiplos agentes de clima, crédito, barter e logística e na integração entre IA generativa, sensoriamento remoto e máquinas autônomas", prevê.

IA no campo

Uma das aplicações está no crédito rural. Fundada em 2023, a agtech AgromAI desenvolve modelos de inteligência artificial que analisam imagens de satélite e o histórico produtivo das propriedades para avaliar riscos associados à concessão de financiamentos e seguros agrícolas.

A plataforma utiliza o Google Earth Engine para reconstruir o histórico de culturas e produtividade dos talhões. Segundo o Google Cloud, a tecnologia permite classificar até 10 milhões de hectares por dia e proporcionou ganho de 30% na produtividade dos profissionais de sensoriamento remoto.

Mandl afirma que o cruzamento de imagens geoespaciais com informações da Embrapa e do Ibama permite reduzir análises de risco de dias para minutos.

Outra aplicação ocorre na recuperação de áreas degradadas. A Courageous Land desenvolveu uma plataforma de inteligência agroflorestal que reúne 750 fazendas e aproximadamente 250 mil hectares cadastrados.

A empresa utiliza o BigQuery para integrar informações de campo, imagens de satélite, dados meteorológicos e alertas de incêndio. Com o AppSheet, funcionários registram fotografias, coordenadas e informações sobre plantios mesmo sem conexão à internet, sincronizando os dados posteriormente.

Drones e inteligência artificial também substituem parte dos inventários manuais, reduzindo o tempo e os custos de monitoramento. A empresa não divulgou o percentual dessa economia.

Na indústria, Mandl cita a Suzano, que utiliza inteligência artificial em projetos de melhoramento genético do eucalipto. Segundo o executivo, a tecnologia proporciona ganhos de eficiência entre 30% e 50%, embora não tenha especificado a etapa do processo a que se refere o indicador.

A fabricante de celulose desenvolve com o Google Cloud uma iniciativa para acelerar a seleção de mudas adaptadas a diferentes condições climáticas e de solo. O projeto, ainda em testes, tem como objetivo reduzir pela metade o tempo de desenvolvimento de novos materiais.

No setor público, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) desenvolveu o assistente virtual JoIA, baseado em tecnologias do Gemini, para oferecer informações sobre gestão, custos e clima pelo WhatsApp, com potencial de alcançar 5 milhões de produtores.

Acesso a investidores

Além do desenvolvimento tecnológico, a parceria pretende facilitar a entrada das startups em grandes empresas do agronegócio, que exigem padrões de segurança, governança e integração aos sistemas corporativos.

"Superar barreiras de entrada corporativas, como acesso a decisores e requisitos de segurança e governança, é um grande desafio para as agtechs", afirma Mandl.

A Google Cloud AI Experience Zone servirá como espaço de aproximação entre startups e executivos, enquanto o Google for Startups poderá facilitar conexões com fundos de venture capital.

As empresas também poderão utilizar o Google Cloud Marketplace para comercializar suas soluções internacionalmente.

Resumo

  • Parceria entre Google Cloud e PwC conecta cerca de 700 startups do AgTech Innovation Hub, em Piracicaba
  • Iniciativa oferece créditos em nuvem, suporte tecnológico e acesso a grandes empresas e investidores nacionais e internacionais
  • Primeira Google Cloud AI Experience Zone do Brasil foi instalada no hub; soluções de IA já aceleram análises de risco e processos de concessão de crédito rural