Depois de passar os últimos anos usando leveduras para desenvolver soluções para indústrias de alimentos, bebidas e, mais recentemente, biocombustíveis, a deeptech BioinFood quer levar essa mesma especialidade para o mercado de insumos biológicos.
Para desenvolver essa frente, a empresa, sediada em Campinas (SP), recebeu um financiamento de R$ 7,9 milhões da Finep para continua a desenvolver uma tecnologia para a produção de insumos biológicos utilizando leveduras como base para a entrega de moléculas com atividade biológica nas plantas. A informação foi revelada em primeira mão ao AgFeed pela startup.
A aposta chama a atenção porque as leveduras ainda ocupam pouco espaço nesse segmento.
“Leveduras não são normalmente utilizadas em biológicos, que normalmente são produzidos a partir de bactérias e fungos”, diz Gleidson Teixeira, diretor científico e comercial e cofundador da BioinFood. “Mas como especialistas em leveduras, a gente entende que existem outros potenciais que ainda não foram explorados.”
A tese da empresa é usar a levedura como uma plataforma biotecnológica capaz de produzir moléculas de interesse para a agricultura.
Algumas características que podem facilitar esse processo. "As leveduras possuem baixa exigência nutricional, o que pode ajudar a reduzir custos no escalonamento industrial, além de serem fáceis de manipular geneticamente. Eu consigo mexer em rotas muito mais fáceis que às vezes eu conseguiria mexer em outro organismo, seja uma bactéria, seja um fungo", diz Teixeira.
Isso permite alterar rotas metabólicas para aumentar a produção de determinada molécula ou incorporar à levedura uma característica de interesse.
“Às vezes parece ser mais fácil trazer uma qualidade, um ativo biológico, uma molécula para dentro da levedura do que tentar potencializar essa molécula no organismo de origem”, afirma.
A BioinFood já vem desenvolvendo testes em laboratório. Nos primeiros experimentos, a companhia produziu uma formulação a partir de leveduras e matérias-primas como o melaço de cana e avaliou sua atuação sobre plantas.
Segundo Teixeira, os ensaios indicaram efeito sobre a germinação, mostrando que a molécula produzida manteve atividade biológica. “A molécula alvo que está sendo produzida ali de fato está tendo o efeito sobre a planta”, diz.
Como a prova de conceito já foi demonstrada em laboratório, agora, o foco é levar o protótipo ao campo, com um plano que prevê aprimorar a levedura com engenharia metabólica assistida por IA, escalar o processo em biorreatores piloto-operacional, validar o produto em casa de vegetação e em campo.
É essa etapa que a empresa pretende avançar com o apoio da Finep. O projeto terá duração de três anos e prevê a evolução da tecnologia desde o estágio atual de laboratório até testes em escala piloto e em campo.
A estratégia, porém, não é esperar o fim do período para apresentar uma solução ao mercado. ABioinFood pretende trabalhar com versões sucessivas do produto, aprimorando a plataforma ao mesmo tempo em que realiza testes e aproxima potenciais parceiros.
“Eu acho que a gente tem potencial de apresentar pelo menos três versões no final de três anos de um produto que vai se auto-substituindo”, afirma Teixeira.
A empresa não pretende, no entanto, se transformar em uma fabricante tradicional de bioinsumos. Seu modelo de negócio é baseado no chamado “R&D as a Service”, termo em inglês que significa pesquisa e desenvolvimento como serviço.
Na prática, a BioinFood se aproxima de indústrias, identifica gargalos em produtos ou processos e desenvolve tecnologias em conjunto com os clientes. “Eu continuo sendo um especialista em levedura”, resume Teixeira.
Por isso, a companhia procura uma indústria de biológicos que possa participar das etapas de testes comerciais, definição das culturas mais adequadas para aplicação e estratégia regulatória.
Alguns potenciais parceiros já estão em conversa com a BioinFood, mas ainda não há acordo fechado, segundo Teixeira.
Para os testes iniciais de campo, a deep tech já tem um parceiro, a Conatus Ambiental, startup de Mogi Guaçu (SP) atuante no segmento químico, que participa do desenvolvimento desde antes da aprovação do projeto.
A empresa ajudou na construção do protótipo e deve contribuir principalmente nos testes em plantas e em casa de vegetação.
Ampliando horizontes
A aposta no mercado de insumos biológicos representa uma nova etapa para a Bioinfood, fundada em 2018.
Criada por Teixeira, Osmar Netto e Gabriel Galembeck – três sócios com forte experiência em genética, biotecnologia, fermentação e inovação industrial – a empresa nasceu com a proposta de levar biotecnologia desenvolvida no Brasil para a indústria.
"Percebemos que a gente tem inúmeras indústrias muito fortes, mas que temos pouca inovação. Não temos uma inovação "pra valer", dependemos muito de tecnologia estrangeira", argumenta Teixeira.
Para dar cabo ao que era um desejo de mudar o cenário de inovação industrial, a deep tech obteve diversas fontes de recursos nos últimos anos. Além da Finep, a BioinFood conseguiu recuersos de instiuições como Fapesp, via PIPE (Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), CNPq-Rhae, GFI (The Good Food Institute), Fundo JBS pela Amazônia e Embrapii, em captações que totalizaram R$ 8,3 milhões.
Até aqui, a BioinFood soma mais de 20 projetos com clientes e parceiros em 8 países: Brasil, Paraguai, Colômbia, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, China, Áustria e França.
Nos primeiros anos, a empresa concentrou sua atuação principalmente nas indústrias de alimentos e bebidas, trabalhando com leveduras, processos fermentativos e tecnologias para aproveitamento de coprodutos industriais.
Um dos projetos desenvolvidos pela companhia usa engenharia genética e fermentação de precisão para transformar casca de aveia em xilitol, adoçante de baixo valor calórico.
A tecnologia, desenvolvida em parceria com a indústria paranaense SL Alimentos, especializada no processamento de cereais integrais, recebeu um prêmio na Fi South America em 2025. O projeto envolve desde a modificação genética da levedura até o desenvolvimento do processo de fermentação, purificação e cristalização do xilitol.
Com o tempo, a BioinFood passou a receber também demandas de setores mais próximos do agro.
“É impossível trabalhar com levedura e bioprocesso no Brasil e ignorar biocombustível e agronegócio”, avalia Teixeira.
Foi assim que surgiu uma frente voltada aos biocombustíveis, na qual a empresa busca aplicar sua especialidade em leveduras para desenvolver microrganismos adaptados à produção de biocombustível.
Para desenvolver essa frente, a startup conseguiu, no começo do ano, um financiamento de R$ 3,2 milhões pela Finep, a partir do Programa de Apoio à Comercialização de Propriedade Intelectual.
"Hoje é o segundo maior mercado de biocombustível do mundo. E a gente não tem levedura brasileira sendo comercializada aqui", ressalta.
A lógica da BioinFood é fugir de soluções generalistas. “Eu não quero fazer a melhor levedura do mundo, eu quero fazer a melhor levedura para o seu processo”, afirma Gleidson.
Teixeira lembra que, enquanto na fabricação de cervejas, por exemplo, a levedura fica em um ambiente climatizado, na fabricação de etanol as leveduras ficam expostas ao sol, sob altas temperaturas. “Pode ser que ninguém tenha esse desafio dentro do processo e você tenha. Minha levedura ajudaria a indústria a mitigar esse problema”, diz.
A expansão para novos mercados vem acompanhada também de um aumento da estrutura.
Instalada atualmente no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas, a BioinFood planeja ampliar sua área própria de pesquisa e desenvolvimento de cerca de 200 metros quadrados para 750 metros quadrados até meados de 2027.
A equipe começou este ano com seis funcionários e ampliou seu contingente, que hoje tem 15 funcionários. Até 2030, a meta é ter entre 30 e 35 profissionais, mantendo um perfil fortemente voltado à pesquisa.
“Nosso negócio é massa crítica, é inovação. A gente precisa de pessoas que estejam construindo e resolvendo desafios”, diz Gleidson Texeira.
Resumo
- BioinFood recebeu R$ 7,9 milhões da Finep para desenvolver soluções biológicas baseadas em leveduras
- Projeto prevê testes em laboratório, escala piloto e campo e ideia é chegar às indústrias de biológicos
- Biotech também recebeu financiamento da Finep para estudo de uso de levedura em biocombustíveis