Maringá (PR) - Em abril deste ano, Paulo Meneguetti iniciou sua 47ª safra de cana-de-açúcar atuando na Usina Santa Terezinha, empresa que é a maior produtora de açúcar do Paraná e que foi criada nos anos 1960 por seu pai e seus tios. E esta temporada, 2026/2027, tende a ser uma daquelas em que a tradicional montanha-russa do setor sucroenergético aponta para baixo.

A combinação de preços menos favoráveis do açúcar no mercado internacional, excesso de oferta de etanol de milho e custos mais altos colocou a Usina Santa Terezinha diante de uma safra de contenção.

Olhando em retrospecto, depois de aproveitar, em 2024/2025, uma combinação favorável de câmbio e preços do açúcar que ajudou a companhia a registrar receita líquida de R$ 3,7 bilhões e um Ebitda de R$ 2,3 bilhões, a temporada seguinte trouxe uma realidade diferente.

Na recém-encerrada safra 2025/2026, a moagem avançou 9,5%, para 12 milhões de toneladas de cana, enquanto o Ebitda ficou em R$ 1,98 bilhão e a receita líquida recuou para R$ 3,5 bilhões. A produção de açúcar chegou a 1,13 milhão de toneladas e a de etanol, a 260 mil metros cúbicos.

Para a safra 2026/2027, o orçamento prevê receita e produções menores: R$ 3,12 bilhões de faturamento, com 1,08 milhão de toneladas de açúcar e 444 mil metros cúbicos de etanol produzidas. Somado a isso, a meta inicial de moagem de 13,8 milhões de toneladas pode não ser alcançada, segundo Meneguetti, por causa das condições climáticas que ameaçam fazer com que parte da cana seja deixada em pé para a próxima safra.

Foi nesse ambiente que o executivo recebeu o AgFeed no escritório da companhia, em Maringá, no Norte do Paraná. Para ele, a palavra que melhor define o momento é “passagem” - um intervalo em que a companhia precisa atravessar um ciclo menos favorável sem comprometer o trabalho de reconstrução que vem sendo feito nos últimos anos.

“Este ano é um ano de passagem, um ano em que a companhia precisa atravessar um ambiente ainda desafiador, com juros elevados, custos pressionados e um cenário de insumos mais caro, sem perder o foco na disciplina operacional e na recuperação gradual da produtividade”, afirmou.

“É um período para segurar a estrutura, ajustar o ritmo dos investimentos e administrar com cuidado os altos e baixos do ciclo da cana".

A recuperação de uma gigante

Para entender por que a palavra reconstrução ganhou tanto peso dentro da Santa Terezinha, é preciso voltar alguns anos. Há uma década, a companhia moía cerca de 18 milhões de toneladas de cana, em uma operação que contava com suas nove usinas em plena operação.

Em 2019, quando somava uma dívida financeira de aproximadamente R$ 4,6 bilhões, a companhia entrou em recuperação judicial, depois de uma sequência de problemas climáticos que afetou a produtividade dos canaviais e pressionou o caixa.

Meneguetti, porém, conta uma história um pouco diferente daquela que normalmente acompanha o início de uma RJ. Segundo ele, a empresa já havia chegado a um acordo praticamente fechado com os bancos para reestruturar suas dívidas quando um dos credores abandonou as negociações.

“Nós estávamos com uma reestruturação de dívidas do setor financeiro pronta, na mesa. Faltando o mínimo de detalhes para assinatura”, afirma. O desenho previa um período de carência e um alongamento da dívida compatível com o fluxo de caixa que a companhia projetava gerar.

O Banco Votorantim, um dos credores, no entanto, deixou a mesa de negociação e entrou com um pedido de execução da sua parte na dívida. Durante três semanas, a Santa Terezinha tentou, junto com outros cinco bancos, convencer a instituição a retomar as conversas. Não houve acordo e, em 22 de março de 2019, a Santa Terezinha protocolou o pedido de recuperação judicial.

A partir dali, a empresa passou a negociar um novo plano com os demais credores. Itaú, Rabobank, Santander, Bradesco e ING participaram da construção da proposta que seria levada à assembleia. Cada instituição colocou suas condições, segundo Meneguetti, e a companhia conseguiu chegar a um desenho aprovado pelos credores.

Depois da aprovação do plano, parte dos créditos foi negociada e mudou de mãos. Hoje, a estrutura de crédito da Santa Terezinha está concentrada em três bancos: BTG Pactual, com 80%, Bradesco, com 15%, e Santander, com 5%.

A posição acionária da Santa Terezinha nunca mudou, citou Meneguetti. Segundo ele, a família permaneceu unida durante o período mais difícil e manteve o compromisso de encontrar uma solução que garantisse a continuidade da empresa.

A companhia também não parou de investir durante a recuperação. Ao longo do processo, foram mais de R$ 2 bilhões destinados às operações de plantio de cana, além da criação de uma biofábrica que hoje produz mais de 11 milhões de mudas por safra.

A recuperação judicial terminou oficialmente em março de 2024, quando a Justiça declarou encerrado o processo. Hoje, o diretor-presidente cita que a alavancagem da companhia (medida pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda), está em 1,2 vez. "Está num nível que era um sonho a gente chegar, mas temos que estar atentos", disse.

O fim da RJ marcou a passagem de uma fase de sobrevivência financeira para outra, de reconstrução operacional.

“A Santa Terezinha está em uma fase de recuperação do canavial. Nós, com as crises passadas, perdemos muita produtividade agrícola e isso trouxe uma elevação dos custos operacionais", disse.

O indicador que resume essa recuperação é o TCH (toneladas de cana por hectare). Depois de cair de 54,2 na safra 2023/2024 para 53,7 na 2024/2025, o indicador saltou para 62,8 toneladas na 2025/2026. Para a safra atual, o orçamento prevê chegar a 65,8. "Um bom projeto de recuperação do canavial vai em seis ou sete anos, sem cometer erros. E é o que a gente vem fazendo", afirmou.

A deterioração do canavial, porém, não aconteceu de uma hora para outra. Começou em 2015, quando a região enfrentou um volume excepcional de chuvas. Naquele ano, foram mais de 3 mil milímetros acumulados, segundo Meneguetti, o que deixou parte da cana em pé e acabou empurrando a moagem para o ciclo seguinte.

O excesso de água também carregou nutrientes do solo e comprometeu a produtividade dos canaviais nos anos seguintes.

A Santa Terezinha administra hoje cerca de 260 mil hectares, dos quais 215 mil são destinados à produção de cana para colheita industrial. Mais de 90% dessas áreas são de terceiros, exploradas por meio de contratos de parceria agrícola, mas toda a produção é conduzida pela companhia.

A intenção é consolidar entre 215 mil e 220 mil hectares de cana para abastecer as unidades que estão atualmente em operação. Com a melhora do TCH, a empresa espera gradualmente colocar mais matéria-prima dentro das plantas e, com isso, reduzir o custo operacional por tonelada processada.

A recuperação da produtividade também abre espaço para uma segunda etapa: voltar a utilizar capacidade industrial que hoje está parada. Das nove unidades da Santa Terezinha, sete estão operando. As plantas de Moreira Sales e Umuarama permanecem hibernadas, com a primeira, porém, já no radar para voltar a funcionar.

Questionado sobre seguir o passo de outras usinas do País, que destinam seus investimentos para diversificação dos negócios - etanol de milho, biogás ou etanol de segunda geração -, Meneguetti citou que todo e qualquer desembolso segue para retomar a moagem de 18 milhões de toneladas e reativação das unidades.

"A gente olha para essas oportunidades, mas não é o momento. A gente tem uma prioridade de consolidar a nossa produção de cana e otimizar o nosso canavial. Existe uma situação que desencoraja investimentos, pois a Selic está muito alta e os custos todos de plantio, de trato da soqueira da cana, subiram demais. É efeito da guerra, sem falar nos insumos com risco de faltar", explicou.

Um mix um pouco menos doce

O desafio é ainda maior à medida em que a recuperação do campo acontece justamente em um momento em que a empresa também precisa escolher com cuidado o que fazer com a cana que consegue produzir. Historicamente concentrada em açúcar, a Santa Terezinha mudou de estratégia nesta safra diante da piora das condições do mercado internacional da commodity e do excesso de oferta de etanol.

Meneguetti cita que a companhia costuma operar numa faixa próxima aos 78% da produção destinada ao açúcar, deixando o etanol como produto residual. Na safra 2026/2027, entretanto, o orçamento prevê uma mudança expressiva: o açúcar deve representar 61% do mix.

O movimento não é exclusivo da Santa Terezinha. Com preços menos remuneradores para o açúcar no início da temporada, diversas usinas brasileiras aumentaram a destinação de cana para etanol. A Jalles, por exemplo, projetou mix produtivo 59% para o biocombustível nesta temporada.

Agora, porém, a queda dos preços do biocombustível e o aumento do excedente disponível começam a produzir o efeito contrário.

“A partir deste mês de agosto a gente viu uma certa correção pelo excedente de etanol que está no mercado, pela queda acentuada de preços nas usinas”, diz o executivo. Ao mesmo tempo, as usinas precisam cumprir contratos de açúcar já assumidos.

Para a Santa Terezinha, o avanço do etanol no mix representa uma mudança relevante em relação à identidade construída ao longo de décadas. A companhia é hoje a maior exportadora de açúcar com sede na região Sul e destina  toda a sua produção da commodity ao mercado externo.

Essa vocação ajudou a moldar uma outra parte importante do negócio da empresa, a logística. Ao decorrer dos anos, na medida que a produção crescia, a companhia percebeu que não bastava ampliar as usinas, mas era preciso criar uma estrutura própria para tirar o açúcar do Paraná e colocá-lo no mercado externo.

A primeira exportação da empresa aconteceu em 1995, quando foram embarcadas apenas 5 mil toneladas. Desde então, o volume cresceu de forma acelerada e chegou a cerca de 1,15 milhão de toneladas no ano passado.

Parte dessa expansão foi acompanhada pela construção de uma estrutura logística própria. Em associação com outras usinas paranaenses, a companhia participou da criação de um terminal de açúcar no Porto de Paranaguá que ajudou a reduzir a dependência das usinas do Estado de terminais voltados a outras cargas.

A primeira concessão foi obtida em 1998 e o primeiro armazém, com capacidade para 54 mil toneladas e um shiploader capaz de movimentar 1,5 mil toneladas por hora, entrou em operação no início da safra de 2001. Depois, o terminal ganhou dois novos silos, de 120 mil e 65 mil toneladas, e, mais recentemente, recebeu um quarto armazém e um segundo shiploader.

Com as últimas obras, a concessão do terminal foi renovada e agora vai até 2049. “Foi esse terminal que deu coragem para o setor do Paraná investir em aumentar a produção de açúcar. A própria Santa Terezinha, a partir daí, investiu em aumentar o mix para açúcar”, afirma.

A infraestrutura logística também se estende aos fertilizantes. Próximo ao terminal de operações da companhia em Maringá, a Santa Terezinha mantém uma unidade misturadora que permite formular o NPK utilizado nas próprias lavouras. A estratégia ganhou importância em momentos de restrição de oferta, quando a empresa conseguiu importar componentes e reduzir a dependência do mercado doméstico de fertilizantes formulados.

Hora de passar o bastão

Filho de um dos fundadores, Meneguetti se formou em engenharia civil na Universidade Estadual de Maringá em dezembro de 1979 e começou a trabalhar na empresa em 12 de janeiro de 1980.

Durante as 47 safras atuando na empresa, ocupou sua primeira posição de liderança em 1983, atuando como diretor de suprimentos, cadeira que ocupou por 11 anos. Em 1994, se tornou diretor financeiro e, durante o processo de recuperação judicial, deixou a posição de CFO para assumir a presidência executiva.

Nos últimos 15 anos, a empresa também passou por um processo de profissionalização, trazendo executivos de mercado que continuaram no negócio mesmo depois da RJ, ajudando na reconstrução da empresa. O COO da empresa, Leonardo Cintra, por exemplo, já atuou como gerente de negócios da Cofco e gerente agrícola da BP e Tereos antes de chegar à Santa Terezinha.

Meneguetti diz que a própria família passou por um processo de aprendizado durante essa transformação. E, aos 47 anos de casa, começa a olhar para a sucessão.

“Espero que em pouco tempo a gente vá passando o bastão. Eu faço parte do conselho também. Mas já vejo de ficar só lá e deixar os mais jovens aí da sequência", disse.

Hoje, ele divide a representação da família na diretoria com Samuel Meneguetti, vice-presidente e membro da terceira geração. Outros integrantes da família ocupam posições de supervisão e gerência.

“É muito gratificante ver essa transformação da empresa, ver tanta gente passando pela empresa, a gente participando de momentos de sucessão dos fundadores para a primeira geração. A gente já está numa fase de sucessão da segunda geração para a terceira”, afirma.

Resumo

  • Santa Terezinha fechou a safra 25/26 com moagem de 12 milhões de toneladas, Ebitda de R$ 1,98 bilhão e receita de R$ 3,5 bilhões
  • Após sair de RJ, usina mira recuperação de canavial para voltar ao patamar de 18 milhões de toneladas de moagem
  • Aos 47 anos na empresa fundada pela família, Paulo Meneguetti prepara transição para o conselho e nova geração