Foram vários trimestres sem boas notícias, decepcionando o mercado. Desta vez, na divulgação do balanço do primeiro trimestre do seu ano safra 2026/2027, a Raízen pode pelo menos comemorar alguns indicadores positivos, como um alívio para o início do seu processo de recuperação extrajudicial, que resultará na sua divisão em duas empresas, que deve acontecer até setembro de 2027.
A companhia abriu o novo ciclo com um resultado que alcançou as expectativas do mercado – que não eram muito altas, é verdade –, sustentado por um desempenho forte da distribuição de combustíveis, um dos negócios que se tornará independente no próximo ano.
Ele compensou, em parte, a fraqueza na outra divisão, que reúne as operações de produção de etanol, aç[ucar e bioenergia (EAB).
Com isso, no intervalo dos meses de abril a junho, a empresa conseguiu dobrar o Ebitda ajustado consolidado, para R$ 3,85 bilhões, ante R$ 1,70 bilhão no mesmo período do ano anterior. E, assim, viu o prejuízo líquido recuar 11%, para R$ 1,64 bilhão.
O resultado veio em linha com o consenso de mercado: perda ajustada por ação de R$ 0,0639 e receita de R$ 61,47 bilhões, ambos exatamente dentro das projeções.
Não são, entretanto, conquistas dignas de comemoração. Na teleconferência com analistas, realizada na manhã desta sexta-feira, 18 de agosto, os principais executivos da Raízen fizeram questão de separar o que é conjuntural do que é estrutural.
O desempenho da distribuição de combustíveis no Brasil, por exemplo, foi o grande destaque do trimestre. O Ebitda ajustado do segmento saltou de R$ 959,3 milhões para R$ 3,54 bilhões, com a margem por metro cúbico evoluindo de R$ 142 para R$ 493 — alta superior a 100% na comparação anual.
Segundo a companhia, o desempenho veio do crescimento dos volumes, da maior rotação de ativos e dos ganhos de eficiência operacional e logística, com o volume de vendas crescendo 6,6%, para 7,18 milhões de m³.
A gestão foi cautelosa, no entanto, quanto à manutenção das margens da distribuição de combustíveis. A companhia espera que as margens do segmento até continuem melhores em relação ao ano anterior, mas não acredota que permaneçam nos níveis "excepcionalmente fortes" vistos no primeiro trimestre.
Na conferência, o CEO da companhia, Nelson Gomes, atribuiu o resultado a três fatores. A visão dele é que apenas o ambiente regulatório e as eficiências internas são fatores recorrentes, enquanto o efeito geopolítico, que inflou a margem no trimestre, é temporário.
"O primeiro efeito é não recorrente, mas o segundo, que é o ambiente regulatório, e o terceiro, que é a gestão de despesas e de estoques, que são ambos internos — esses dois últimos efeitos podem ser considerados recorrentes", afirmou, ao responder a pergunta de um analista sobre a sustentabilidade da margem.
"Estamos em um ambiente muito volátil, há muitas peças em movimento, então é muito difícil cravar qual é o efeito de cada coisa", completou.
Gomes reforçou que a melhora do segmento de combustíveis é consistente. "Continuamos a aumentar nossos volumes, como mostram os resultados, bem como o número de postos de serviço", disse, acrescentando que a redução do capex também reflete um melhor equilíbrio entre o que a companhia oferece nas renovações de contratos e o que oferece aos parceiros revendedores durante o contrato.
Açúcar e etanol: preços e clima pressionam
Na contramão, o segmento EAB registrou Ebitda ajustado de R$ 300,8 milhões, queda de 63,1% na comparação anual. O resultado foi pressionado pela redução dos preços realizados de açúcar, etanol e bioenergia e pelo efeito da hibernação e alienação de cinco usinas na safra anterior, que reduziram o portfólio e os volumes.
O clima também pesou, com chuvas que interromperam as operações de colheita: a moagem caiu 2% na base ajustada, a produtividade agrícola recuou 3%, o preço do açúcar próprio caiu 22,3% e o do etanol, 12,2%.
Sobre a estratégia de mix entre açúcar e etanol, Gomes explicou que a decisão é revisada semanalmente. "Avaliamos isso diariamente e formalmente uma vez por semana", afirmou.
"Neste trimestre, decidimos concentrar a produção em etanol por razões operacionais — no início da safra é naturalmente mais favorável ao etanol, e também pelas condições climáticas, porque quando você interrompe a moagem por causa de chuva, ao voltar é mais favorável ao etanol", detalhou, acrescentando que a companhia já está "direcionando a produção um pouco menos para o etanol e um pouco mais para o açúcar".
Venda de ativos
Na conferência, Gomes deixou claro que a agenda de simplificação do portfólio segue como pilar estratégico. Após o anúncio da venda das operações na Argentina — para a Mercuria Energy Group, por US$ 1,42 bilhão —, a companhia avançou com a venda da usina Caarapó, ambas ainda sujeitas a condições precedentes.
O CEO confirmou a continuidade do movimento. "Continuamos a simplificar nosso portfólio, e isso se aplica tanto à nossa Distribuição de Combustíveis Brasil, com o anúncio da venda da operação na Argentina, quanto ao nosso negócio de açúcar, etanol e bioenergia", afirmou.
O CFO Lorival Luz, por sua vez, trouxe o horizonte da reestruturação e da futura separação dos negócios. "Ainda temos um longo caminho no nosso plano de recuperação extrajudicial. Temos até março para concluir o plano e até setembro do ano que vem para separar os negócios", disse.
"O que posso garantir é que a gestão da companhia trabalha incansavelmente para que os resultados futuros permitam que as duas empresas comecem separadamente com a melhor saúde financeira possível e, obviamente, com o mínimo de [alavancagem]", afirmou.
No encerramento da cal, Gomes reforçou a direção estratégica. "Apesar de todos esses desafios, estamos confiantes de que, no fim, como disse Lorival Luz, teremos duas empresas leves e eficientes, prontas para competir em seus respectivos mercados. Essa é a direção que estamos tomando", concluiu.
O balanço e as explicações dos executivos não animaram os investidores. Ao longo desta sexta, as ações da companhia caíram 4%. No ano, a retração é de 70%.
Resumo
- Distribuição de combustíveis impulsiona o Ebitda da Raízen, com margem por m³ saltando de R$ 142 para R$ 493 e vendas 6,6% maiores
- CEO afirma que parte da margem recorde foi favorecida por fatores temporários; ganhos recorrentes virão de eficiência e regulação
- Açúcar e etanol seguem pressionados por preços e clima, enquanto Raízen acelera venda de ativos e reestruturação dos negócios