A Kepler Weber está mais preparada para atravessar o atual ciclo de vacas magras do que esteve em qualquer outra crise agrícola das últimas décadas.
Essa é a principal leitura do Itaú BBA em um relatório sobre a companhia centenária de soluções de pós-colheita, enviado aos seus clientes na quinta-feira, 17 de setembro.
O documento derivou da participação dos analistas do banco no evento "Portas Abertas", da Kepler Weber, realizado em uma das unidades da companhia em Campo Grande (MS).
Segundo o relatório, oo momento do setor segue desafiador e a recuperação da demanda por silos e armazéns deve demorar mais do que se esperava.
A tese central do Itaú BBA é a de que o déficit estrutural de armazenagem de grãos no Brasil — um desequilíbrio histórico que só se agravou com a expansão da produção do Cerrado e das fronteiras agrícolas — segue intacto como motor de longo prazo para a Kepler.
O problema, diz o banco, é o timing. Com margens apertadas e elevada alavancagem, os produtores rurais têm priorizado gastos com insumos e equipamentos, adiando investimentos em armazenagem, irrigação e logística para quando as condições operacionais melhorarem.
"A demanda do setor deve se recuperar com defasagem, mesmo com os preços das commodities agrícolas começando a melhorar", resume o relatório, indicando que a confiança para investir em ativos de longo prazo pode não voltar enquanto o custo do dinheiro continuar alto e o balanço do produtor, apertado.
Na visão dos analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e e Ryu Matsuyana, do time agro do Itaú BBA, os números mais recentes da Kepler mostram uma empresa que não está imune ao ciclo, mas que aprendeu a sofrer menos.
No segundo trimestre de 2026, a receita líquida somou R$ 299,1 milhões, queda de 3,9% sobre o mesmo período do ano anterior. O lucro líquido encolheu 56,1%, para R$ 6,3 milhões.
A queda precisa ser lida à luz do contexto: em ciclos agrícolas passados, quedas dessa magnitude costumavam ser muito piores.
O que mudou, segundo a análise, foi a diversificação. No primeiro trimestre, enquanto o segmento de Fazendas, mais exposto ao humor do produtor, registrou queda de 34% na receita, os Negócios Internacionais cresceram quase 50% e o segmento Agroindústrias avançou 4,2%.
A empresa também passou a ter maior presença em portos e terminais, um mercado que ajuda a compensar a volatilidade do produtor individual.
A gestão, liderada pelo CEO, Bernardo Nogueira, e pelo CFO, Renato Arroyo, tem mantido disciplina de custos e reorganização interna. O resultado é que a companhia acredita estar "mais resiliente hoje devido ao seu modelo de negócios mais diversificado, que ajudou a mitigar o impacto da atual desaceleração em comparação com ciclos agrícolas anteriores", conforme registra o relatório.
Um dos pontos mais relevantes da visita do Itaú BBA foi a avaliação do braço de automação da Kepler, a Procer. Com investimentos crescentes em P&D — que já fazem com que 19% da receita consolidada venha de produtos recém-lançados —, a empresa vem construindo um portfólio que vai muito além dos silos de chapas metálicas.
A Procer oferece desde sistemas avançados de monitoramento de armazéns até robôs operacionais autônomos que reduzem a necessidade de mão de obra, diminuem custos operacionais e melhoram a segurança no trabalho.
A visão de longo prazo da administração da Kepler é de uma unidade de armazenagem totalmente autônoma. O banco, por sua vez, vê "potencial significativo para a Procer desenvolver novas soluções, expandir a adoção e desbloquear valor adicional de longo prazo".
Resumo
- Itaú BBA avalia que Kepler Weber está mais preparada para enfrentar crises no agro
- Recuperação da demanda por armazenagem pode demorar, enquanto produtores adiam investimentos devido ao cenário de custos e alavancagem
- Diversificação dos negócios e avanço da Procer em automação ajudam a Kepler a enfrentar o ciclo de baixa do agronegócio