A pecuária brasileira inaugura uma nova fase com elevadas perspectivas de resultados para os pecuaristas, frigoríficos, indústrias de insumos e serviços, consumidores e todos os demais setores que se relacionam e podem colher frutos desse sucesso.

Ainda assim, em plena decolagem, as discussões e propostas parecem presas àquela pecuária de 30 a 50 anos atrás.

Mesmo reconhecendo os avanços dos indicadores produtivos, a maior parte dos interlocutores urbanos não associa a nova realidade da pecuária com os avanços de tais indicadores. Trata-se de uma questão importante, visto que são profissionais capazes de influenciar políticas públicas e estratégias das grandes corporações.

Incluem-se, nesse público, estudiosos de diversas áreas cujas atividades os levam a analisar - e opinar - sobre o desenvolvimento do agronegócio. Há, inclusive, profissionais das ciências agrárias que se enquadram nessa situação.

A formação técnica ajuda, mas se não houver disciplina e humildade para entender as mudanças que ocorrem no campo, nem a melhor formação será suficiente. A autoridade precisa ser constituída a partir do conhecimento e não da reputação.

A construção do conhecimento não mudou, apesar da quantidade de novas ferramentas de modelagem matemática e de inteligência artificial. Mesmo que o mundo moderno tenha viabilizado que um leigo se passe por uma autoridade incontestável no tema, o conhecimento depende da ciência especializada, muita leitura, aplicação prática e construção da experiência.

E, ao chegar lá, a ciência terá sido inovada gerando novas premissas, alicerces de uma realidade diferente à que existia.

O agronegócio tropical brasileiro deve ser um dos casos mais dinâmicos e exemplares desse ciclo de ciência e reinvenção em escala no mundo todo. E não exagero ao dizer isso, por mais estranho que possa parecer, visto que se trata de um setor que muitas vezes foi tratado como rude, atrasado e negacionista a ponto de, recentemente, pesquisadores de outras áreas terem sugerido que “falta ciência no agro”.

Me desculpe o erro da frase anterior. Não sugeriram: assinaram uma carta afirmando haver essa deficiência.

É nesse ambiente, sem a inclusão de pesquisadores da área e profissionais que lidam com toda essa aplicação do conhecimento no campo, que são discutidas as estratégias de como resolver o problema de inclusão dos pequenos produtores. Prevalece a visão de uma pecuária que praticamente não existe mais, considerando as estatísticas de produção.

E por falar em estatísticas, recentemente, na apresentação de um estudo sobre pecuária, conduzido sem a presença de profissionais da área, um dos autores apresentava as estatísticas sobre a conduta de determinada porcentagem dos produtores, baseando-se em tais dados para concluir o seu dimensionamento do problema.

Por mais bem conduzida que tenha sido a pesquisa, faltaram três informações básicas. Esse público, que representa determinada porcentagem de produtores, responde por qual percentual do rebanho? Por qual percentual das pastagens? E quanto representam no percentual das vendas de animais?

É a partir daí que será possível chegar a um diagnóstico capaz de dimensionar quais ações serão efetivas para incluir os produtores que estão em processo de exclusão. Mesmo dentro dessas informações básicas elencadas, há uma enorme combinação entre respostas que precisam ser consideradas e regionalizadas.

Portanto, não se trata de algo simples, ainda que os dados fiquem maravilhosamente bem apresentados, quando aplicados em mapas interativos e gráficos ultramodernos, replicados em inúmeros fóruns que discutem o futuro da pecuária sem a presença de pecuaristas e outros profissionais diretamente envolvidos, da pesquisa acadêmica até a indústria frigorífica.

Em suas apresentações e artigos, os doutores Evaristo de Miranda e Gustavo Spadotti A. Castro, ambos da Embrapa Territorial, passaram a se referir à regularização fundiária como “a mãe de todas as batalhas econômicas, sociais e ambientais”. E não exageraram!

É impossível discutir diversos temas que estão em pauta sem considerar a questão fundiária do Brasil. Ao menos, quando o objetivo é resolver problemas e não simplesmente para preencher páginas e páginas de documentos que serão engavetados.

É o que tem acontecido com o extenso debate em relação ao controle dos fornecedores indiretos, que se misturou com a rastreabilidade do rebanho, com o controle da sanidade, com a segregação de sistemas de produção para atender determinados mercados, com o controle do desmatamento, que parece não estar levando a soluções viáveis...

Parece poesia de mau gosto. Mas é tragédia, de gosto ainda pior.

E não resolverá a questão do desmatamento, cujas motivações se originam em outras causas, e não na produção de carne bovina. A pecuária se relaciona com o desmatamento como consequência, não como causa.

A solução, portanto, não está onde costumam apontar os supostos especialistas que se recusam a ouvir quem realmente conhece o assunto.

E a elaboração de políticas de assistência técnica ao produtor não é diferente.

Inicialmente centrado no reforço do apoio técnico, sobretudo ao pequeno produtor, o debate passou a incluir de forma mais explícita a necessidade de formar e atualizar um contingente suficiente de profissionais para atuar no campo diante das novas exigências de produtividade, gestão, sustentabilidade, adaptação climática e rastreabilidade.

Todas as propostas e argumentos são extremamente bem fundamentados. Afinal, como negar a importância de um técnico para acompanhar diagnóstico, implementação técnica, recomendações, modernização, gestão, apoio à comercialização etc?

A questão não está no mérito, mas sim na viabilidade. Os desafios são grandes, mas discutiremos apenas dois deles.

Primeiro, qual será o dimensionamento entre propriedades atendidas por técnicos? Um baixo número propriedades para cada técnico custará mais e, a depender da política de remuneração, tornará a atividade temporária, sacrificando a relação entre técnico e produtor atendido.

Se a quantidade de propriedades por técnicos for muito grande, sobrecarrega o técnico e dificulta o processo de aprendizado, atualização, incorporação de novas tecnologias e atenção às inovações.

Nesse ponto, em especial, há uma preocupação muito grande diante de um fato identificado nas últimas edições do Rally da Pecuária. Os técnicos que estão no campo são grandes conhecedores dos temas que fazem parte de sua rotina diária, como pastagens, reprodução e genética, nutrição, sanidade, gestão, infraestrutura etc..

No entanto, ao saírem de suas especializações, demonstram muita fragilidade nos assuntos que desconhecem, ainda que sejam extremamente necessários aos clientes que atendem dentro de suas especialidades.

Essa particularidade causa um efeito detrator de inovação tecnológica, enquanto deveria causar um efeito indutor.

Há vários exemplos possíveis de mensurar, mas o mais expressivo talvez seja a condução das pastagens. Não vale entrar em detalhes, mas a maior parte das sugestões relacionadas à condução das pastagens, nas fazendas, levaria ao colapso financeiro da atividade em poucos anos. Evidentemente que essas recomendações não partem dos profissionais especializados em pastagens.

E não estamos falando de maus técnicos, visto que o público entrevistado é justamente o responsável por todos os avanços que ocorreram na pecuária dos últimos anos. Como negar a competência desse pessoal?

Eles formam a nata dos profissionais da pecuária, presentes no campo e nos grandes eventos. Continuam se atualizando, sempre, mas como qualquer outro profissional, de qualquer outra área, são incapazes de se manterem especialistas em todas as áreas de inovações tecnológicas. E a pecuária é muito complexa. Complexa e dinâmica.

Esse, em si, já seria um problema enorme se levado em consideração em debate sério, focado em soluções. E não é um problema que aparecerá de imediato, logo depois de iniciar um programa com técnicos recém treinados, ávidos por atuar, motivados, com “sangue nos olhos”, como se diz popularmente.

O problema aparecerá com o tempo: sobrecarga, dificuldade de manter-se atualizado, inovações em todas as áreas de produção, desafios cada vez maiores, relacionamento com produtores, distância entre as unidades atendidas etc..

Há sim soluções para tudo isso, mas é preciso sempre fazer a pergunta que define o jogo: de onde sairá o dinheiro? Haverá o retorno esperado? Se houver dinheiro para sanar todos os problemas, por quanto tempo será possível reter um técnico diferenciado em um programa de assistência aos produtores?

O segundo desafio é entender a demanda por assistência técnica do produtor. A proposta, em geral, é apresentar um profissional de campo generalista, com sólida base produtiva e gerencial, capaz de diagnosticar gargalos, priorizar soluções viáveis, apoiar a implantação, conectar o produtor a serviços especializados e acompanhar resultados. O produtor percebe essa necessidade? Ele procura?

Existem diversas pesquisas comprovando que o produtor reclama de falta de assistência técnica. É verdade, mas a questão é: como os dados foram levantados? Como eram as perguntas? E qual é a expectativa do produtor em relação à assistência técnica que ele diz sentir falta? Em qual perfil ele se enquadra dentro daquela estratificação estatística entre produtores, área, rebanho e vendas?

Sem essa demanda clara, a dificuldade inicial pode resultar em um enorme fracasso. Se existir essa demanda, é importante entender qual a expectativa desse produtor a médio e longo prazo.

Como o técnico será recebido nas propriedades? Como será a relação entre os produtores e cada um dos técnicos? Qual será a aderência entre recomendações e ações por parte dos produtores? Por quanto tempo essa relação permanecerá? E quais as estratégias de substituição de técnicos ou de atendidos?

Equalizar a logística dos técnicos de acordo com os produtores que demandarão essa assistência é um problema maior do que aparenta.

Mais uma vez, não se trata de discutir os méritos, mas sim a viabilidade de levantar e manter um orçamento em num cenário em que áreas importantes perdem recursos, especialmente educação e pesquisa.

Apesar de todos os problemas elencados por aqui, um programa moderno – até mesmo revolucionário - pode ser implementado com sucesso. Para tanto é preciso mudar uma das principais premissas que dominaram o debate sobre o tema.

Parte-se do pressuposto que faltam técnicos no campo, mas o problema é a falta de demanda. Há técnicos disponíveis, treinados e presentes no campo que já contam com parte dos recursos necessários para implementar a assistência técnica almejada.

Em um dos estudos elaborados pela Athenagro, sugerimos os passos(1) que poderiam nortear a implementação de um programa de atendimento técnicos aos produtores. A proposta baseava-se em aproveitar os recursos disponíveis a campo e proporcionar escala ao enorme contingente de técnicos experientes que atuam em diferentes programas de assistência municipais, estaduais e federais. São vários casos de sucesso.

As sugestões apresentadas no referido estudo partiram de quase 30 anos de experiência a campo, seja em consultoria ou em pesquisas como as do Rally da Pecuária.

Essa proposta não começaria grande, em escala. Precisaria ser adaptada ao longo do processo. Cresceria com o tempo, daria resultados em algumas regiões, seria um fiasco em outras. No início, o maior problema seria a desconfiança entre eventuais interesses, diante da parceria entre as empresas de iniciativa privada.

Embora seja desafiadora e incomode quem ainda associa, de forma retrógrada, a busca pelo lucro a uma conduta necessariamente imoral e irresponsável, a sugestão se apoia em dois pontos fundamentais: a disponibilidade de recursos e o fato de que os técnicos já atuam no campo.

É preciso elaborar um plano de atuação que torne o atendimento impessoal, possibilitando que o projeto continue independente do técnico, e que mantenha o produtor no controle do orçamento e do sistema de produção.

É complexo, mas ainda é mais viável do que as propostas que estão sendo discutidas. É preciso entender que o atendimento técnico acabará se concentrando nas mãos da iniciativa privada. Se não ocorrer de forma coordenada, inclusiva, ocorrerá pela exclusão dos que não se adaptarem. E, infelizmente, a maior dificuldade paira entre os pequenos.

Essa discussão é essencial, tanto quanto a necessidade de se estabelecer políticas que incluam o máximo de produtores possível. Mas o programa precisa ser formulado a partir do conhecimento técnico e de soluções pragmáticas em relação à viabilidade entre o que está no campo e o que pode ser ofertado.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.

(1) As ações necessárias para implementar um plano nacional de inclusão de produtores, via assistência técnica, poderiam seguir os seguintes passos:
- Elaboração de parcerias entre empresas privadas e assistência técnica pública.
- Elaboração de um estatuto de atuação no campo, protocolando os processos desde a elaboração do diagnóstico até a avaliação dos resultados.
- Elaboração de um código de ética envolvendo as diversas empresas parceiras e a assistência pública.
- Adaptação do perfil do técnico do programa para especializá-lo em compreensão dos sistemas de produção, tendências de mercado e gestão estratégica.
- Programa de treinamento permanente em relacionamento interpessoal.
- Foco da atuação do técnico no programa em mitigar o efeito detrator dos técnicos de campo – geralmente ligados à alguma empresa - conforme abordado anteriormente a partir da experiência do Rally da Pecuária.
- O objetivo principal do técnico do programa seria gerar demandas regionais, auxiliar o plano estratégico e orçamentário dos produtores, direcionar e administrar as diferentes especialidades entre os técnicos de campo que já atuam na indústria de insumos ou em consultorias privadas.
- Manutenção de fóruns de atualização, modernização e avaliação dos diferentes sistemas de produção.
- Manter um estreito relacionamento entre universidades e centros ou empresas de pesquisas regionais ou nacionais, como a Embrapa.
- Criar e padronizar um banco de benchmarking detalhado de acordo com os diferentes perfis de produtores e sistemas de produção.
- Usar o próprio benchmarking como estratégia de ação para os diferentes níveis de produtores atendidos.
- Estabelecer uma política de carreira entre os técnicos, mesmo que envolva o direcionamento a outras áreas da esfera pública ou privada.
- Estabelecer avaliação por resultados e inovação.
- Revisar periodicamente objetivos e resultados.