Em março de 2024, era inaugurada com festa e presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a produção nacional de fertilizantes fosfatados em Serra do Salitre, Minas Gerais, um investimento de R$ 5 bilhões por parte da russa Eurochem.
Agora, em setembro de 2026, a mesma empresa confirmou em nota a aprovação de um “layoff, suspensão temporária de contratos de trabalho”, para seus funcionários, em meio aos “desafios de mercado, competitividade, custo de produção e disponibilidade de matérias-primas estratégicas, como o enxofre’.
A capacidade da planta da Eurochem é de 1 milhão de toneladas de ácido sulfúrico e 130 mil toneladas de ácido fosfórico, ambos produtos essenciais para fabricar fertilizantes fosfatados como SSP e MAP.
A empresa não revelou qual foi o corte na produção.
“Eles vão diminuir a produção ao mínimo possível, não pode parar na totalidade porque em fábrica de ácido sulfúrico a parada pode enferrujar equipamentos, mas tem enxofre lá que pode durar até o fim de outubro ou novembro”, disse Flavio Floriano, vice-presidente do Sindicato Metabase, que representa os trabalhadores da Eurochem na região, em entrevista ao AgFeed.
Segundo ele, o acordo prevê a suspensão temporária das atividades de cerca de 450 funcionários, o que representa a metade dos colaboradores da Eurochem no local. O prazo é de três meses com chance de prorrogar para cinco meses.
Floriano lembra que 450 são os funcionários diretos da companhia, mas calcula que os terceirizados somem 2 mil pessoas na região, que também estariam com seus empregos em risco.
A estimativa da indústria é de que o corte na produção de fertilizantes fosfatados do Brasil já tenha superado 50%.
O enxofre custava menos de US$ 100 por tonelada há cerca de um ano e, atualmente, está em US$ 1,1 mil por tonelada, um aumento de 1000% que vem tornando inviável importar o produtor para fabricar dentro do Brasil os itens essenciais na produção do fertilizante, como o ácido sulfúrico e o ácido fosfórico.
“Todas as empresas estão chegando no seu limite”, afirmou Bernardo Silva, diretor executivo do Sinprifert, Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes.
Ele revelou ao AgFeed que a queda de mais de 50% na produção pode piorar ou até “zerar rapidamente”. Isso porque os estoques, pelos cálculos da entidade, são suficientes até outubro.
Não é só a Eurochem
Outras gigantes do setor de fertilizantes também vêm reduzindo ou interrompendo a produção de fosfatados no Brasil.
A norueguesa Yara encerrou sua produção em Cubatão (SP) em 2025, onde fabricava 857 mil toneladas de ácido sulfúrico e 165 mil toneladas de ácido fosfórico. A empresa também interrompeu a produção em Paulínia (SP) no ano passado, onde tinha capacidade para 400 mil toneladas de ácido sulfúrico.
A americana Mosaic também tem reduzido drasticamente a produção no Brasil desde o início do ano. A empresa não informa dados detalhados sobre quantos trabalhadores estão em layoff ou qual volume de produção ainda mantém no País.
Pelo que apurou o AgFeed, somando as paralisações nas unidades de Tapira e Uberaba, em Minas Gerais, quase 500 trabalhadores estariam no layoff, com a paralisação temporária das fábricas.
O caso mais grave foi o encerramento das operações de mineração em Patrocínio (MG). O sindicato calcula que 800 funcionários terceirizados teriam sido demitidos no local. Na própria Mosaic, seriam cerca de 30 dispensados. Em Araxá (MG) a planta da Mosaic também foi paralisada.
“Diante da redução da oferta global e da alta dos preços do enxofre, a companhia revisou seu plano operacional para o segundo semestre de 2026 e decidiu ajustar temporariamente a produção em determinadas unidades”, disse a Mosaic em nota.
Segundo a empresa, “a duração das restrições ainda é incerta e dependerá de fatores externos, como a estabilização dos preços do enxofre, a normalização das cadeias globais de suprimentos, a reabertura de rotas marítimas internacionais e a evolução do cenário geopolítico”.
As unidades de Sorriso (MT), Palmeirante (TO) e Fospar em Paranaguá (PR) seguiriam operando mas com produção reduzida.
Tanto a Mosaic, quanto a Eurochem, ao fechar o acordo de layoff com os colaboradores, comunicam o governo e acionam a chamada Bolsa Qualificação Profissional, por meio do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que envolve ajuda aos trabalhadores via benefício estatal e também com recursos das empresas.
O AgFeed apurou que a multinacional CMOC, de origem chinesa, está mantendo a produção de fertilizantes fosfatados (e ácido sulfúrico) em suas unidades de Catalão (GO) e Cubatão (SP). Em novembro e dezembro a empresa pretende fazer uma manutenção na fábrica de ácido fosfórico de Cubatão, mas não tem previsões de layoff ou parada total em 2026.
No mapa das principais produtoras de ácido sulfúrico e fosfórico no Brasil também estão Galvani e Itafós. O AgFeed procurou as duas empresas mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Marrocos é a solução?
Os representantes da indústria de fertilizante têm pressionado o governo federal em busca de medidas compensatórias que evitassem a interrupção da produção e uma eventual demissão mais ampla de trabalhadores.
O principal pedido é um subsídio na importação do enxofre, já discutido com um grupo que analisa o tema no governo, mas ainda sem uma resposta final.
Recentemente, em entrevista à CNN Brasil, o ministro da agricultura André de Paula revelou que Brasil e Marrocos devem fechar um acordo para garantir o fornecimento de fertilizantes fosfatados, em meio à alta dos preços internacionais.
“Nos espanta essa priorização e urgência de assegurar fornecimento de Marrocos, substituindo completamente a produção nacional”, afirmou Bernardo Silva, do Sinprifert.
O executivo alerta que a estratégia do País, se assim for, será expandir a dependência externa, enquanto deveria estar garantindo empregos aqui.
“Entendemos que o governo queira pelo menos garantir o fornecimento de fertilizantes, mas na nossa visão ele deveria ser nacional”, declarou.
Silva alertou ainda que uma consulta pública realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio e encerrada agora em setembro, avaliou a possibilidade de tornar definitiva a regra que zerou o importo de importação de fertilizantes. Hoje ela está em vigor, mas em caráter temporário.
“Crise após crise o Brasil vem apostando na importação”, ressaltou.
O dirigente diz que há medidas positivas por parte do governo como um programa do BNDES, mas são passos de médio e longo prazo.
“Ninguém vai pegar financiamento com a operação dando prejuízo”, pontuou.
A estimativa do sindicato é de 5 mil empregos, ao todo, estejam em risco, com o atual cenário de redução nas operações das empresas. Há também um efeito cascata em função dos terceirizados e da arrecadação de tributos para prefeituras e estados.
Resumo
- Produção brasileira de fertilizantes fosfatados caiu mais de 50% desde agosto, de acordo com o Sinprifert
- Na Eurochem, 450 trabalhadores entram no regime de layoff, com paralisação das atividades, devido à alta no preço do enxofre
- Indústria reclama que um eventual acordo entre Brasil e Marrocos nos fertilizantes será um incentivo ao aumento da dependência externa