Brasília (DF) – Após alguns anos de expansão contínua, mas mais moderada, as cooperativas agropecuárias do Brasil voltaram a ganhar tração em 2025.

Ao todo, registraram R$ 487,3 bilhões em ingressos ao longo do ano passado, volume que representa um crescimento de 11,2% em relação aos R$ 438,3 bilhões registrados no ano passado. Em 2024, para feito de comparação, o faturamento das cooperativas havia crescido apenas 1,9%.

Os dados fazem parte do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026, divulgado nesta sexta-feira, dia 31 de julho, pelo Sistema OCB e antecipado ao AgFeed.

O montante faturado pelas cooperativas representa mais da metade – 57,4% do total – dos ingressos do sistema cooperativista como um todo ao longo do ano, que somaram R$ 848 bilhões.

Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB, destacou, em entrevista a jornalistas, a capilaridade que as cooperativas agro possuem hoje e que ajudam a sustentar os resultados das organizações.

“A cooperativa é antes e depois da porteira. Estamos presentes nos insumos, na assistência técnica, no relacionamento direto com o produtor e também em agregar valor ao produto. Estamos investindo muito na agroindústria”, afirmou.

O avanço mais forte do faturamento das cooperativas agropecuárias em 2025 está associado a uma combinação de fatores, na avaliação de João José Prieto Flávio, gerente técnico e econômico do Sistema OCB.

Entre eles, estão a recuperação dos preços de cadeias relevantes para o cooperativismo e a própria diversificação do modelo de negócios das cooperativas.

Ao comentar a aceleração registrada em 2025, após anos de expansão mais moderada, o gerente do Sistema OCB lembrou que o conjunto dos resultados recentes refletem um cenário de normalização do mercado após as fortes oscilações dos últimos cinco anos, período no qual as cooperativas agropecuárias saíram de um faturamento acumulado de R$ 160,1 bilhões em 2020 para os atuais R$ 487,3 bilhões do ano passado.

"Se a gente pegar os últimos cinco, seis anos, a gente passou por impactos mercadológicos muito grandes, em nível global”, avalia João Flávio.

“Lá atrás tivemos um crescimento muito acelerado de ingressos das cooperativas agropecuárias, com dois dígitos, na pandemia, com preços das commodities em alta. Isso deu uma amortecida quando os mercados começaram a se reacomodar e o crescimento ficou menos acelerado", emendou o gerente do Sistema OCB, em referência à pequena retração que chegou a ser registrada em 2023, quando o faturamento das cooperativas agro recuou 1% e posterior aumento baixo em 2024, quando houve alta de 1,9%.

Para 2025, segundo ele, o avanço do faturamento foi acompanhada por uma melhora de preços em segmentos onde há forte presença de cooperativas, como no café, aves e suínos.

“A gente observou, nos últimos tempos, um incremento de preços do café muito relevante e isso auxilia também nessa margem, nesse aumento dos ingressos”, avaliou João Flávio.

Outro ponto que ajudou no faturamento das cooperativas foi a alta dos preços dos insumos agrícolas, uma vez que essas organizações atuam na revenda de adubos, fertilizantes e defensivos agrícolas aos seus associados.

“Quando a gente tem insumos com preços elevados, isso ajuda no ingresso das cooperativas, apesar de não ser algo positivo para o setor, olhando o produtor rural, inclusive o produtor rural cooperado, porque isso mexe na receita, na margem da renda dele”, avaliou.

João Flávio ressaltou também que as cooperativas trabalham como uma espécie de "colchão de amortecimento" para os produtores rurais, pois continuam prestando serviços, seja de venda de insumos ou assistência técnica aos agricultores, mesmo no atual momento de dificuldades que vive o agro.

Para ele, esse é um dos principais diferenciais do modelo cooperativista em relação às empresas tradicionais.

“Quando a gente fala de uma empresa mercantil convencional, em momentos de grande diversidade do mercado, ela pode simplesmente se retirar do mercado, ela diminui o seu alojamento de algum animal específico e tira o pé do fornecimento de um insumo específico”, afirmou.

“Já a cooperativa não pode deixar o cooperado refém em momentos de diversidade, porque a sustentabilidade do negócio cooperativo passa pela resiliência do produtor rural cooperado.”

A mesma lógica, lembrou João Flávio, se aplica às cooperativas de crédito, que vem ocupando lacunas no crédito rural deixadas pelas instituições financeiras, principalmente as de crédito privado, em meio à alta da inadimplência média dos produtores rurais e da taxa Selic.

Ao longo do ano de 2025, 682 cooperativas de crédito somaram R$ 198,2 bilhões em faturamento, alta de 19,8% frente aos R$ 165,4 bilhões de 2024, segundo o Sistema OCB.

“A gente vê instituições financeiras tradicionais tirando um pouco o pé do acelerador no financiamento da atividade dos produtores rurais cooperados, e as cooperativas acabam (crescendo) por conta dessa relação próxima ao produtor rural. Inclusive, muitas vezes, os produtores estão nos concílios de administração dessas cooperativas”, ressaltou.

Apesar do desempenho expressivo das cooperativas ao longo de 2025, João Flávio evita projetar uma nova expansão de dois dígitos no faturamento das organizações em 2026.

"Não vou cravar que em 2026 a gente vai ter dois dígitos novamente, mas, depois dessas reacomodações no mercado, as cooperativas ainda têm um ajuste (a se fazer)”, disse.

“Não tem nada indicando reduções significativas, mas cravar um aceleramento de dois dígitos para 2026, a gente ainda não consegue fazer.”

Os números de 2025 divulgados agora confirmam uma tendência que o AgFeed já havia identificado no início deste ano.

Em fevereiro, a reportagem analisou o desempenho das dez maiores cooperativas agroindustriais do Brasil e mostrou que elas haviam encerrado 2025 com faturamento conjunto de R$ 154,2 bilhões, um avanço de 8,9% em relação a 2024.

Na ocasião, nove das dez cooperativas avaliadas registraram crescimento na receita, tendo como líderes do ranking a paranaense Coamo (R$ 28,7 bilhões) e a catarinense Aurora Coop (R$ 26,9 bilhões), antecipando o movimento de expansão que agora se confirma nos números consolidados trazidos pelo Sistema OCB.

Empregos e associados em alta

A expansão das cooperativas agropecuárias também aparece nos demais indicadores econômicos do segmento.

Apesar de as sobras terem somado R$ 29,25 bilhões, recuo de 3,3% frente aos R$ 30,2 bilhões do ano passado, os ativos totais chegaram a R$ 340 bilhões, alta de 10,6%, enquanto o capital social integralizado avançou 13%, para R$ 23,3 bilhões.

O quadro social também avançou. As 1.254 cooperativas agro do Brasil somaram 1.132.303 associados no ano passado, alta de 3,7% em relação ao ano anterior.

O número de empregos diretos gerados pelas cooperativas do agro chegou a 277.226 em 2025, crescimento de 3,3%. Foram criados quase 9 mil postos de trabalho no período.

As cooperativas agropecuárias respondem por 10,3% de todas as exportações do agronegócio brasileiro, somando US$ 17,4 bilhões em receitas com exportações, segundo o Sistema OCB.

Ao todo, são 140 cooperativas exportadoras e os principais produtos exportados, com apoio da ApexBrasil, são café não torrado, carnes de aves, soja triturada, carne suína e óleo de soja. Os principais destinos das exportações são China, Japão, Estados Unidos, Alemanha e Países Baixos.

O levantamento também constatou que as cooperativas agropecuárias continuam distribuídas por todo o País.

Em números absolutos, a região Sudeste concentra a maior quantidade de organizações, somando 334 cooperativas, seguido pelo Nordeste, com 259, Norte, com 230, Sul, com 216, e Centro-Oeste, com 215.

O maior crescimento proporcional de quantidade de cooperativas ocorreu no Nordeste, que passou de 229 para 259 cooperativas, alta de 13,1%.

Na sequência aparecem as regiões Sul, com crescimento de 11,3%, Norte, com 5,5%, Centro-Oeste, com 5,4%, e Sudeste, com 2,1%.

No recorte por estados da federação, Minas Gerais continua na liderança, com o maior número de cooperativas agropecuárias, com 191 organizações.

São Paulo aparece na sequência, com 107 cooperativas agro atuando no estado, seguido por Goiás, com 89; Rio Grande do Sul, com 88, e Mato Grosso, com 84.

O crescimento da presença cooperativista foi especialmente significativo no Ceará, que passou de 41 para 57 cooperativas, alta de 39%. Outro destaque foi o Paraná, com crescimento de 32,7%.

O levantamento também traz dados sobre a longevidade das cooperativas. Das 1.254 cooperativas agro existentes no Brasil, 267 possuem mais de 40 anos de atuação e outras 284 estão em funcionamento há um período que vai entre 21 e 40 anos.

A cooperativa agrícola mais antiga em atividade no Brasil é a Cotribá, de Ibirubá (RS), fundada em 1911.

Muitas das principais organizações do setor também acumulam décadas de história: a C.Vale surgiu em 1962, a Aurora Coop em 1969 e a Coamo em 1970.

Há também quem esteja agora chegando ao seu cinquentenário: caso da paulista Coopercitrus completa, neste ano, meio século de atuação e da goiana Comigo, que fez 50 anos de vida no ano passado.

Mas se de um lado, muitas cooperativas são longevas, outras várias foram criadas nos últimos anos. De acordo com o Sistema OCB, cerca de um terço das cooperativas do ramo foram constituídas na última década.

O número de cooperativas com até cinco anos de existência aumentou 27,2%, passando de 195 para 248 organizações. Outras 153 possuem entre seis e dez anos.

Entre os exemplos desse movimento recente estão a Cooperlimão, de Urupês (SP), fundada em 2016, e a Coopginger, de Santa Leopoldina (ES), criada em 2021.

“Temos cooperativas com décadas de experiência, que contribuíram para transformar regiões inteiras, e também organizações novas, criadas para atender demandas contemporâneas do produtor. Essa combinação de tradição, inovação e participação coletiva ajuda a explicar a força do cooperativismo agropecuário brasileiro”, avaliou Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB.

O repórter viajou a convite do Sistema OCB.

Resumo

  • Cooperativas agro faturaram R$ 487,3 bilhões em 2025, alta de 11,2%, e responderam por 57,4% dos R$ 848 bilhões do cooperativismo
  • Dados são de levantamento anual do Sistema OCB, que reúne as cooperativas do Brasil
  • Recuperação dos preços do café, aves e suínos, além da diversificação dos negócios, impulsionou a expansão das cooperativas