Se arroz e feijão formam a base do prato do brasileiro, no campo a combinação mais comum nas regiões onde o clima permite é soja e milho. A lógica parece simples: planta-se soja no verão e, logo depois, entra o milho de segunda safra.

Diferente do prato do dia a dia, essa sequência não é automática. O milho safrinha entra — ou não — conforme a conta fecha. A decisão passa pelo resultado da soja, pelo custo projetado e pela leitura de mercado — é nesse ponto que o produtor deixa de ser apenas agricultor e passa a atuar como gestor de risco.

“O plantio da segunda safra é feito com risco alto por conta do término das chuvas. Tudo precisa funcionar muito bem para reduzir esse risco”, afirma o produtor Ricardo Khouri, de Pedro Afonso (TO). Segundo ele, a execução precisa ser quase perfeita para compensar o ambiente mais adverso.

O milho de segunda safra é, por natureza, mais arriscado. Plantado após a soja, entra em uma janela climática mais incerta. Em boa parte do Centro-Oeste e do Matopiba, o avanço do calendário empurra o cultivo para um período de redução das chuvas, aumentando a exposição a perdas.

Ainda assim, o milho ganhou peso dentro da fazenda. O que antes era visto como complemento passou a ser tratado como uma das bases de renda da propriedade. “A safra de milho deixou de ser um negócio pequeno e passou a ser uma das bases de renda da fazenda”, diz Khouri.

Essa mudança acompanha a evolução do setor. Em 2007, o Brasil produzia cerca de 50 milhões de toneladas de milho. Hoje, o volume se aproxima de 140 milhões, colocando o país entre os maiores produtores e exportadores do mundo.

Mesmo com diferenças nas estimativas, Conab e IBGE indicam uma safra de milho ainda robusta, com leve recuo em relação a 2025. A Companhia Nacional de Abastecimento projeta produção de 139,6 milhões de toneladas, enquanto o IBGE aponta, em seu relatório mais recente, para uma safra próxima de 138 milhões de toneladas do cereal.

Os números reforçam o peso do agronegócio brasileiro. Dentro da porteira, no entanto, a equação é outra. Produção é volume. Rentabilidade é resultado.

Quando se olha para a conta do produtor, o ponto central é a margem. E, no milho, ela é particularmente sensível.

Segundo Paulo Fróes de Oliveira, diretor da StoneX, um produtor de alta tecnologia no Mato Grosso pode ter custo entre R$ 6 mil e R$ 7 mil por hectare com a cultura. Com produtividade média de 116 sacas e preços entre R$ 67 e R$ 70 por saca, a receita bruta gira em torno de R$ 8 mil por hectare, o que sugere uma margem operacional entre 13% e 20%. O problema é que essa margem não é garantida.

“Quando se incorpora o custo financeiro, especialmente em um cenário de juros elevados, essa rentabilidade pode praticamente desaparecer”, explica Oliveira. Em muitos casos, o produtor passa a trabalhar para cobrir o custo do capital.

Além disso, fatores como pragas, variações climáticas e oscilações de preço podem rapidamente transformar um resultado positivo em prejuízo.

Para Carlos Cogo, diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, a atividade só se sustenta com margem adequada. “A margem ideal para a atividade é acima de 15%, que corresponde ao nível atual de juros”, afirma.

O número ajuda a entender a pressão do momento. Na prática, muitos produtores operam abaixo desse patamar — e, em alguns casos, muito próximos do ponto de equilíbrio.

O analista Paulo Molinari, da Safras & Mercado, relativiza a leitura simplista baseada apenas em custo e preço. “Não se pode fazer uma análise simples assim. O milho é produtividade. Se você não tiver boas produtividades, todos os anos serão ruins”, afirma.

Segundo ele, o resultado depende de um conjunto de fatores: estratégia de compra de insumos, momento de venda, uso de derivativos e, principalmente, capacidade de gestão. “Erros na tomada de decisão pesam mais do que uma simples comparação de preços e custos”, diz.

Essa combinação de fatores ajuda a explicar por que o milho não pode ser tratado como uma extensão automática da soja. Embora compartilhem área e parte da estrutura, as duas culturas operam sob lógicas diferentes e exigem gestão própria.

Na prática, o milho funciona como complemento de renda dentro do sistema produtivo, ajudando a diluir custos e melhorar o aproveitamento da área. Parte dos insumos aplicados na soja, como fertilizantes, pode ser aproveitada na segunda safra, reduzindo o custo por hectare. Mas essa complementaridade não elimina o risco.

“A vantagem é que o milho aproveita parte dos insumos da soja, o que reduz custo. Mas é uma atividade em que o produtor vira um gerenciador de risco”, afirma Valdumiro Garcia, gerente de Marketing Regional da Ihara em Goiás.

Segundo ele, muitos produtores adotam estratégias como o escalonamento do plantio para diluir o risco climático. Ainda assim, a exposição permanece.

O fator etanol

Nos últimos anos, novos fatores vêm alterando a dinâmica do milho no Brasil. O avanço das usinas de etanol à base do grão criou uma demanda interna mais consistente, reduzindo a dependência exclusiva das exportações.

Hoje, o país tem cerca de 27 usinas em operação, concentradas principalmente no Centro-Oeste — com destaque para Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul. Só o Mato Grosso reúne praticamente metade dessas unidades.

A produção também cresce em ritmo acelerado. Na safra 2024/2025, o Brasil produziu cerca de 8,3 bilhões de litros de etanol de milho, com tendência de expansão nos próximos ciclos. Para a safra 2025/2026, estimativas indicam algo entre 9 a 10 bilhões de litros.

Esse avanço exige matéria-prima. Hoje, o setor consome algo entre 12 e 13 milhões de toneladas de milho por ano, com projeções de crescimento contínuo. “Esse milho é comprado de produtores próximos das usinas, gerando previsibilidade para quem planta”, afirma Paulo Bertolini, presidente da Abramilho.

“Quanto mais processar milho, melhor para o produtor”, diz. Além da produção de etanol, o milho também é base para a cadeia de proteína animal e para uma ampla gama de produtos industriais, ampliando seu papel na economia.

Mesmo com esse cenário mais favorável, o resultado final continua dependendo de um fator central: gestão. Na avaliação de produtores e analistas, ainda há espaço para evolução nesse aspecto. Ferramentas como hedge, planejamento financeiro e controle de custos ainda são utilizadas de forma desigual no setor.

“Em termos de gestão, o produtor de milho tem, na sua maioria, comportamento semelhante ao da soja. Ainda há pouco uso de ferramentas mais estruturadas”, afirma Khouri.

A leitura que emerge do setor é clara: o milho não é uma aposta. É uma equação. Pode complementar o resultado da fazenda, ajudar a diluir custos e até melhorar o desempenho geral da propriedade. Mas, para isso, precisa ser tratado como uma atividade própria.

Soja é um negócio. Milho é outro. No fim, o caixa é único. Mas a conta não pode ser.

Resumo

  • Milho safrinha deixou de ser complemento da soja e passou a ocupar papel central na renda das fazendas brasileiras
  • Custos elevados, juros altos e riscos climáticos pressionam margens e tornam a gestão financeira decisiva para o produtor
  • Janelas climáticas mais incertas em boa parte do Centro-Oeste e do Matopiba aumentam a exposição a perdas