Assim que o conflito entre Estados Unidos e Irã trouxe dúvidas sobre o fornecimento de petróleo e seus derivados provenientes do Oriente Médio, analistas começara a olhar com mais carinho para as ações das empresas produtoras de biocombustíveis, inclusive etanol.
Esperavam que as tensões por lá e uma consequente interrupção no fluxo de óleo levassem a uma valorização dos preços do etanol, por exemplo. Mas isso não ocorreu e, agora, algumas das apostas feitas meses atrás estão sendo revistas.
Em relatório divulgado na tarde da quinta-feira, 11 de junho, por exemplo, o Itaú BBA informou a seus clientes que está revendo suas recomendações para a São Martinho, uma das principais companhias do setor sucroenergético, que foi rebaixada de positiva para neutra.
Em relatório anterior, os analistas do banco indicavam um preço alvo de R$ 31, ao fim de 2027, para a ação da companhia, hoje negociada na faixa de R$ 15,80 – o que indicaria um potencial de valorização de quase 100% até lá.
No novo documento, os analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuiama apontam para uma alta menor no período, de pouco mais de 26%, ao indicar R$ 21 como novo preço-alvo.
“A mudança reflete uma visão mais conservadora para os preços de etanol e açúcar, que não reagiram como esperado após o conflito geopolítico no Oriente Médio”, diz o relatório.
“As ações do setor já antecipavam um possível efeito positivo dessas tensões nas receitas. No entanto, a ausência de catalisadores concretos deve pressionar as projeções de lucro no curto prazo e o sentimento dos investidores”.
Segundo os analistas, a postura mais cautelosa, com a recomendação neutra – que indica um desempenho em linha com o mercado – está sustentada na expectativa de “um rendimento de fluxo de caixa para o acionista de 4% para o ano fiscal de 2027, combinado com o adiamento dos investimentos em expansão (capex), que posterga um retorno mais relevante aos acionistas”.
A revisão do Itaú BBA inclui todos os principais indicadores financeiros da São Martinho nos anos de 2026 e 2027.Na receita líquida, por exemplo, a nova estimativa do banco é de R$ 7,32 bilhões este ano, 10% a menos que os R$ 8,1 bilhões projetados anteriormente. Para 2027, o relatório prevê R$ 7,9 bilhões, ante R$ 8,4 estimados meses atrás (-7%).
No item Ebitda ajustado, os recuos nas expectativas são mais significativos: menos 35% em 2026, descendo para 1,8 bilhão, e menos 27% em 2027, ficando em 2,1 bilhões.
Já na linha lucro líquido, a previsão para 2026 é de um resultado de R$ 3 bilhões, revendo para baixo, em 22%, a estimativa anterior. Em 2027, a projeção é de R$ 3,2 bilhões, 21% menos que o projetado anteriormente.
“Revisamos nossas projeções para incorporar: preços de açúcar mais baixos, agora alinhados ao mercado futuro; perspectiva menos favorável para o etanol, devido à menor transmissão dos preços da gasolina; e um real mais forte, em linha com as premissas macroeconômicas”, escrevem os analistas.
“Do lado positivo, a empresa estima aumento da moagem de cana e melhora no índice de ATR (açúcares totais recuperáveis), o que ajuda a diluir custos”.
Eles ressaltam que, a despeito da revisão menos otimista, a São Martinho continua sendo, para o banco, uma empresa de referência no setor de cana-de-açúcar, “graças ao seu baixo custo de produção e boas práticas de governança, especialmente em gestão de riscos e políticas de proteção de preços”.
Para o banco, “a empresa também deve estar bem-posicionada para se beneficiar quando houver uma retomada no setor, que hoje ainda enfrenta um momento mais desafiador no curto prazo”.
Resumo
- Itaú BBA rebaixou a recomendação da São Martinho de positiva para neutra
- Banco cortou projeções de receita, Ebitda e lucro para 2026 e 2027
- Preços de etanol e açúcar frustram expectativas, mas empresa segue bem avaliada no setor